A vida na lama

O G1 viajou ao longo do Rio Doce ouvindo relatos de pessoas afetadas pela queda da barragem de Mariana; veja as histórias delas

INTRODUÇÃO

No princípio era a lama. E ela desceu como uma avalanche quando a Barragem de Fundão se rompeu na tarde de 5 de novembro, matando gente, destruindo casas e arrasando os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana, MG.

Em poucos dias, o estrago se espalhou para bem longe dali. Peixes morreram, cidades ficaram sem água e milhares de pessoas perderam seu meio de sustento à medida que os rejeitos de minério tingiam de marrom as águas do Rio Doce até chegar ao mar, no Espírito Santo.

Para entender como o desastre mudou a vida na região, o G1 percorreu durante 10 dias os mais de 500 km que separam Mariana (MG) de Regência (ES), na foz do rio.
Mapa das matinês de São Paulo
Foram muitas as histórias ouvidas ao longo desse “Caminho da Lama”: do pescador que chorou ao ver os peixes mortos em Baixo Guandu às crianças que carregam garrafas d’água pesadas em Colatina; dos índios de Resplendor que estão de luto pela morte do “rio sagrado” à moradora de Bento Rodrigues que perdeu tudo, menos a esperança de achar o corpo da mãe.

Os relatos são marcados pela tristeza com a tragédia, a luta para sobreviver, a incerteza em relação ao futuro, mas também pela esperança de que dias melhores venham. Para o rio e sua gente.
Onda de lama
Mar de Regência, que tinha água cristalina, ficou com a cor da lama

Por:

Flávia Mantovani e Alexandre Nascimento
FLÁVIA MANTOVANI
ALEXANDRE NASCIMENTO

TRISTEZA

Osilêncio no que restou de Bento Rodrigues é quebrado apenas pelo canto de alguns pássaros e pelo sobrevoar de moscas, muitas moscas. Elas são atraídas pelos alimentos que apodrecem em comércios e casas dos moradores, intocados desde que a lama soterrou o vilarejo de cerca de 600 habitantes.

O distrito da cidade de Mariana foi o mais afetado pela queda da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco (cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton). O desastre deixou 15 mortos e quatro desaparecidos.
O “tsunami” de lama chegou a Bento Rodrigues sem aviso, no meio da tarde. Os moradores saíram correndo, chamando uns aos outros no caminho. A maioria se refugiou em um morro na parte alta. Passaram a noite ilhados, vendo a cidade ser soterrada, até a chegada dos helicópteros de salvamento.

Ninguém teve tempo de levar nada, e os sinais disso estão por toda parte. Um urso de pelúcia, um engradado de refrigerante, uma lavadora de roupas, um cobertor e um aparelho telefônico foram alguns objetos vistos no chão coberto de barro durante a visita do G1.
Os bombeiros ainda não autorizam a visita de moradores, que costumam aproveitar a presença da imprensa para entrar e rever o local durante as entrevistas. Uma delas recuperou documentos, um quadro com fotos da filha pequena e um troféu, resgatados pela Defesa Civil.

De algumas casas só sobrou o esqueleto. Outras estão semidestruídas, com algumas paredes de pé, mas sem telhado, por exemplo. Há ainda construções intactas, com jardim florido e móveis, que dão uma pista de como era o lugar antes de tudo acontecer.

Mas mesmo as casas mais preservadas devem ficar vazias. “Não tem mais como morar aqui”, diz Francisco de Paula Felipe, ex-morador que acompanhou a reportagem durante a visita. “Vão ficar só as lembranças.”
Em Resplendor, MG, a chegada da lama entristeceu especialmente um grupo de moradores de MG. São os índios krenak, que têm o rio até no nome: eles são conhecidos como os Borum do Watu – Watu é Rio Doce, na língua krenak.

Para eles, o rio não é só o lugar de onde vinha o peixe para comer e a água para beber, lavar as coisas e tomar banho. Era lá que eles faziam seus rituais religiosos. O Watu, para o krenak, é sagrado. “É como um parente. A gente sente que perdeu uma mãe, um pai”, diz Douglas Krenak, um dos índios da reserva, que fica perto da cidade de Resplendor.

Agora, a comunidade não sabe o que será do futuro sem o rio que faz parte da sua identidade. E o que mais se ouve por ali é uma frase: “Watu kwen” (o rio morreu).
A lama chegou ao Rio Doce através dos rios Gualaxo do Norte e Carmo, próximos a Mariana. Uma das cidades mais afetadas nesse trecho foi a pequena Barra Longa. Durante a visita da reportagem, quase um mês depois da queda da barragem, tratores e caminhões ainda trabalhavam reparando os estragos, mas a cena de destruição era impressionante.
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LUTA

Os filhotes de tartaruga saem dos ovos e caminham pela areia. No percurso, alguns são virados de cabeça para baixo pela água, mas se reerguem quantas vezes forem necessárias até chegar ao mar.

A luta pela sobrevivência, que já não é fácil, ganhou um empurrãozinho desta vez. Especialistas do Projeto Tamar em Regência fizeram uma espécie de “cesárea”, retirando os filhotes dos ninhos para soltá-los em um lugar distante da lama que já estava na praia onde elas nasceram.

A chegada dos rejeitos de minério ao ponto de encontro entre o mar e o Rio Doce despertou especial preocupação por se tratar de um ambiente rico em biodiversidade, berçário natural para muitos animais marinhos.
Filhote de tartaruga vai para o mar após ser levado para praia longe da lama
Do outro lado do rio, em Mariana, animais também vêm sendo resgatados após a queda da barragem. Cachorros, cavalos, gatos, bois e galinhas foram e ainda são retirados da lama todos os dias por bombeiros e voluntários.

Muitos deles estão concentrados em um galpão, à espera dos donos, que ainda moram em alojamentos provisórios.
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Os hotéis de Mariana estão cheios de ex-moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo que perderam quase tudo no desastre.

As casas alugadas pela Samarco estão sendo entregues aos poucos, com prioridade para famílias com idosos, crianças e pessoas com deficiência.

Enquanto aguardam, eles tentam se adaptar à vida provisória, sem saber quando isso vai acabar. “Não é a mesma liberdade de estar em casa”, dizem.

O auxílio financeiro aos desabrigados começou a ser pago um mês após a tragédia. Em resposta ao Ministério Público, a Samarco propôs o pagamento mensal de um salário mínimo para cada família, acrescido de 20% para cada dependente e uma cesta básica no valor de R$ 338,61. Isso não é a indenização, que ainda será discutida. O mesmo valor será pago a mais de 1,2 mil pescadores que ficaram sem seu meio de sustento após a contaminação do Rio Doce.
A sensação que temos é que Bento Rodrigues ainda existe. Quando a gente volta, percebe que a destruição é real
FRANCISCO DE PAULA FELIPE,
ex-morador de Bento Rodrigues
Francisco de Paula Felipe, ex-morador de Bento Rodrigues
Para quem vive no meio do caminho entre Mariana e Regência, a maior dificuldade é a falta de água para consumo. A situação é crítica especialmente em Governador Valadares (MG) e Colatina (ES), que dependem do Rio Doce para abastecer a população.

Caminhões-pipa e distribuição de água mineral são algumas medidas para minimizar o problema.

Filas enormes se formam sob o sol quente para buscar as garrafas, que chegam em caminhões. Crianças, idosos de mais de 70 anos, todo mundo ajuda a carregar. Às vezes dá briga. Seguranças vigiam dia e noite os reservatórios de água, que viraram mercadoria de luxo.
Mesmo com a volta do abastecimento na torneira, muita gente reclama do forte cheiro de cloro usado no tratamento e até de problemas de saúde, como manchas na pele dos bebês.
Tartarugas
Mulher mostra bebê com manchas na pele que ela relaciona com a água de Colatina

DÚVIDA

Se há uma coisa em comum entre moradores de várias cidades ao longo do Rio Doce é a incerteza em relação ao futuro. Ninguém sabe quando a lama vai se dissipar, se os peixes vão voltar, se os turistas vão reaparecer.

As previsões de especialistas sobre a recuperação do rio vão do 8 ao 80 – ou melhor, de 5 meses a 30 anos, fora os que afirmam que a flora e a fauna na região nunca voltarão ao normal.
Enquanto isso, a população tem dúvidas sobre como tocar a vida. “Quero saber o que vai ser de nós”, diz Francisco Leite, o Maninho, um agricultor de 50 anos de Baixo Guandu que cultiva manga e outras frutas em uma ilha no meio do rio que ele chama de “pedaço de paraíso”.

Maninho não tem para quem vender as frutas. “Ninguém mais compra nada que venha aqui do Rio Doce. Toquei minha vida toda aqui. Agora não sei como vou sobreviver”, diz.
Comerciantes que viviam do turismo também estão apreensivos em várias cidades. Em Resplendor, um morador teve que fechar seu restaurante flutuante em uma represa depois que a água ficou da cor da lama.
Em Regência, conhecida por suas ondas ideais para o surfe, donos de pousadas e lojas amargam o cancelamento de reservas para o verão.
Como antes da queda da barragem a expectativa era de uma temporada mais pujante do que o normal, muitos fizeram investimentos. Agora, se veem às voltas com a devolução de um dinheiro que não têm.

Em Mariana, lojistas se queixam de que os turistas sumiram, achando que a lama devastou também o centro histórico – localizado a cerca de 30 km do lugar atingido. “A cidade continua de pé, graças a Deus. Mas muita gente não sabe disso”, disse a dona de uma loja de artesanato.
Esperávamos uma avalanche de reservas e o que veio foi umaavalanche de lama
SÉRGIO MISSAGIA,
dono de pousada em Regência
Sérgio Missagia, dono de pousada em Regência
A Samarco não explicou até o momento o que levou ao colapso da barragem. A Polícia Civil de MG investiga a empresa por homicídio, crime de soterramento, crimes ambientais contra fauna, flora e poluição de rios. Além disso, a Polícia Federal de MG investiga órgãos ambientais para ver se houve irregularidades no licenciamento da barragem.

Ações contra a mineradora estão em curso na Justiça. R$ 300 milhões já foram bloqueados da empresa para resguardar as indenizações das famílias afetadas. Além disso, o Ibama e o governo de Minas aplicaram multas que somam, respectivamente, R$ 250 milhões e R$ 112 milhões.

A empresa assinou um termo compromisso com os Ministérios Públicos Federal e Estadual garantindo o montante mínimo de R$ 1 bilhão para medidas de prevenção, contenção e compensação dos danos ambientais. Em Belo Horizonte, a 2ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias determinou que a Samarco deposite, em juízo, mais R$ 1 bilhão. A União pediu ainda a criação de um fundo de R$ 20 bilhões para revitalizar a área degradada e pagar indenizações.

ESPERANÇA

Ocenário é de tristeza, luta, incerteza, mas também de solidariedade. Pessoas de todo o Brasil se mobilizaram para ajudar a população afetada pelo desastre na bacia do Rio Doce.

Em Governador Valadares, uma caravana de motociclistas chegou do Rio de Janeiro com um caminhão de água mineral para ser distribuída em um bairro pobre.
Em Mariana, as doações foram tantas que a Defesa Civil teve que parar de aceitá-las. Em um galpão repleto de água mineral, alimentos e roupas, uma montanha de sapatos aguarda por alguém que consiga juntar cada um com seu pé.

Voluntários deixaram seus empregos e atividades para trabalhar na cidade mineira em várias frentes. O morador de um município a uma hora de distância chegou no dia seguinte à queda da barragem e até hoje percorre diariamente a área afetada pela lama em busca dos bois, cachorros e galinhas que restaram.
Vim aqui porque a vontade de ajudar o próximo é maior. Ver osorriso das pessoasé muito gratificante para mim
CARLOS EDUARDO,
bombeiro voluntário em Bento Rodrigues (MG)
Carlos Eduardo, bombeiro voluntário em Bento Rodrigues (MG)
Um jovem de São Paulo e outro de Guarulhos trabalhavam no centro de triagem de doações. “Se eu pudesse ficaria mais”, disse um deles, prestes a ir embora depois de vários dias por lá.

Nos hotéis onde estão os desabrigados, um rapaz vestido de palhaço percorre os corredores tocando música e fazendo graça para as crianças. Uma cesta no saguão tem bilhetes de alunos das escolas da cidade, com mensagens de carinho para quem perdeu tudo.
Montanha de sapatos no galpão de triagem de doações em Mariana
Rações para animais resgatados da lama em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo
Água mineral está entre os itens que mais foram doados
Brinquedos doados para as crianças desabrigadas em MG
Cartas escritas por alunos de escolas de Mariana para os desabrigados
Entre as vítimas de Bento Rodrigues, a ajuda mútua também é a tônica. Aqueles que já conseguiram suas casas se preocupam com o destino dos que ainda estão nos hotéis. Ao mostrar o distrito destruído ao G1um ex-morador reconheceu uma foto nos escombros de uma casa e a retirou para entregar “a relíquia” à família que morava lá.

Foi essa união que salvou vidas no momento em que tudo aconteceu, afirmam eles. “Um ia avisando o outro, ajudando o outro. Foi isso que salvou o povo de Bento Rodrigues”, diz um deles. “Foi a união que salvou a gente.”
Andorinhas-do-mar na foz do Rio Doce
Andorinhas-do-mar na foz do Rio Doce, em Regência (ES)

CRÉDITOS:

Edição: Flávia Mantovani e Amanda Polato (conteúdo); Alexandre Nascimento (vídeos); Leo Aragão (infografia)
Colaboração: Charles Boggiss (vídeos 360°) e Flavia Cristini (conteúdo)
Design: Juliane Monteiro, Karina Almeida e Roberta Jaworski
Desenvolvimento: Hector Otavio e Rogério Banquieri

Fonte - G1/Minas Gerais

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