Cinco anos depois, México relança busca aos 43 estudantes desaparecidos em Guerrero

Governo chamou caso de 'desaparecimento forçado' e ativou recompensa milionária para encontrar responsáveis. Alunos da escola rural de Ayotzinapa foram detidos pela polícia com o apoio do cartel de drogas Guerreros Unidos, em 26 de setembro de 2014, e nunca mais foram vistos.

Parentes dos 43 estudantes de Ayotzinapa desaparecidos há cinco anos exibem fotos dos jovens do lado de fora do escritório do procurador geral, na Cidade do México, na quarta-feira (25) — Foto: AP Photo/Rebecca Blackwell

Cinco anos após o desaparecimento de 43 estudantes no estado de Guerrero, o governo do México descreveu o caso nesta quinta-feira (26) como um "desaparecimento forçado" cometido por agentes estatais e ativou uma recompensa milionária para encontrar os responsáveis.

Aos gritos de "Justiça!", milhares de pessoas, a maioria estudantes, participaram de uma manifestação chefiada pelos pais dos jovens e que terminou no Zócalo (praça central) da capital.

"Viemos com uma exigência de justiça (...) Isto ofende a qualquer um que tenha dignidade neste país", disse à AFP Rosa, dona-de-casa de 58 anos que, por motivo de segurança, não quis dar seu sobrenome.

Uma centena de encapuzados que marchavam na retaguarda quebrou vidraças de várias lojas e tentou incendiar um restaurante, mas os manifestantes apagaram o fogo.

No Zócalo, os encapuzados investiram contra uma porta do palácio presidencial, pintando palavras de ordem, como "Estado assassino".

"Não há impunidade, isto é importante porque quando se trate de crimes de Estado é muito difícil chegar à verdade", disse López Obrador vestido com uma camiseta com a legenda: "Ayotzinapa, 5 anos; eu [sou] pela verdade".

Escola de alunos desaparecidos no México formava 'líderes comunitários'

O subsecretário de Direitos Humanos do Ministério do Interior, Alejandro Encinas, também se referiu ao papel do Estado nos eventos sob o governo do então presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018). O caso está sendo novamente investigado como um "desaparecimento forçado cometido por agentes do Estado mexicano", disse.

Na noite de 26 de setembro de 2014, dezenas de estudantes da escola rural de Ayotzinapa foram a Iguala, Guerrero, a fim de embarcar em ônibus que utilizariam nas suas manifestações.

Mas eles foram detidos pela polícia com o apoio do cartel de drogas Guerreros Unidos e, desde então, o paradeiro de 43 deles é desconhecido, em um caso que provocou indignação e condenação mundial contra o governo do então presidente Enrique Peña Nieto (2012-2018).

Obrador, que chegou ao poder em dezembro do ano passado, criou uma Comissão da Verdade para este caso, enquanto o gabinete do procurador-geral, que agora é independente do Executivo, concordou em reiniciar a investigação "quase do zero".

À espera de novos rumos para o caso, a justiça mexicana libertou 77 detidos após a investigação original, incluindo um dos líderes do Guerreros Unidos, cujos depoimentos foram obtidos sob tortura.

Alunas de uma escola no estado de Chihuahua participam de protesto com familiares dos 43 estudantes de Ayotzinapa desaparecidos há cinco anos, do lado de fora do escritório do procurador geral, na Cidade do México, na quarta-feira (25) — Foto: AP Photo/Rebecca Blackwell

Alejandro Hope, ex-oficial do serviço de inteligência mexicano e especialista em segurança, disse à AFP que será difícil trazer novidades ao caso, mesmo com uma nova investigação.

"Não acho que eles chegarão a um resultado muito diferente. Há dois fatos sobre os quais parece não haver dúvida: os estudantes foram sequestrados por policiais e foram entregues ao cartel Guerreros Unidos".

No governo Peña Nieto, a procuradoria-geral, que era ligada ao Executivo, apresentou a chamada "verdade histórica": os narcotraficantes, acreditando que os jovens seriam de um cartel rival, teriam matado o grupo e incinerado os corpos em um lixão, jogando em seguida os restos mortais em um rio.

Mas especialistas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH, órgão autônomo da OEA) que conduziram uma investigação questionaram essa teoria e pediram para seguir outras hipóteses.

Nesta semana novas investigações começaram em outro depósito de lixo, na comunidade de Tepecoacuilco, a 15 km de Iguala.

Durante as investigações em 2014, a promotoria encontrou uma quantidade pequena de ossos humanos que foram enviados ao laboratório de Innsbruck, na Áustria, ajudando a identificar apenas um dos jovens.

Uma das linhas de investigação citada pela CIDH é a existência de um quinto ônibus, que estaria carregado com drogas destinadas a Chicago, nos Estados Unidos, e que teria sido capturado por engando pelos estudantes.

Mas alguns pais ainda esperam que os jovens estejam vivos.

"Não sei se o meu coração de mãe está me enganando, mas não sinto que meu filho esteja morto. Quero vê-lo andando, voltando, para dar um abraço nele e nos outros 42 desaparecidos", disse Blanca Luz Nava, dona de casa de 46 anos, que participou do protesto nesta quarta exibindo uma foto do filho Jorge Álvarez.

Fonte - France Presse

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