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JUSTIÇA - Começou hoje (15) julgamento de padre do DF acusado de abusos sexuais

Embora esteja foragido desde agosto de 2021, a Justiça começará a ouvir as testemunhas do processo. Ao menos oito jovens foram vítimas

Tiago Teles/Material cedido ao Metrópoles

A Vara Criminal de Sobradinho dará início, às 15h desta quinta-feira (15/9), ao julgamento do padre Delson Zacarias dos Santos, 48 anos. Denunciado por abusos e estupros de vulnerável contra adolescentes, o sacerdote feriu três artigos do Código Penal. Os ataques sexuais em série foram revelados com exclusividade pelo Metrópoles, em julho do ano passado.

Embora esteja foragido desde agosto de 2021, a Justiça começará a ouvir as testemunhas do processo. Apesar dos autos citarem que o acusado, no exercício de sacerdócio, teria abusado de cinco jovens, a reportagem apurou que pelo menos oito pessoas teriam sofrido investidas sexuais por parte do religioso.

O caso foi investigado pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). A reportagem apurou, em primeira mão, a abertura do inquérito e os desdobramentos contra o sacerdote que acumula passagens por paróquias no Riacho Fundo I, Sobradinho e Lago Sul. Além das celebrações eucarísticas, Delson ministrava aulas no seminário de Brasília e na Faculdade de Teologia (Fateo).

Pena

Delson foi enquadrado nos artigos 217-A, § 1; 215-A e 69 do Código Penal. O primeiro dispõe sobre ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos e prevê pena de oito a 15 anos de prisão.

“Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”, destaca o inciso.

Já o segundo artigo, detalha sobre ter conjunção carnal ou prática de ato libidinoso com alguém mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima. Neste caso, a pena é de dois a seis anos de reclusão.

Relembre

Em um dos casos, a violência sexual praticada contra uma das vítimas, um jovem hoje em fase adulta – que não terá a identidade revelada para preservar sua integridade – iniciou quando ele tinha apenas 13 anos. Em contato com a reportagem, o rapaz descreveu os longos seis anos e seis meses nos quais sofreu abusos quase semanalmente.

O ataque do religioso teria começado na casa paroquial, antes de um casamento, em 2014: “Você se masturba ou assiste pornografia?”, questionou o padre ao então adolescente. O jovem respondeu que não, mas o sacerdote insistiu no assédio.

Na ocasião, o religioso pediu que o rapaz se levantasse e abaixasse as calças. O suspeito queria ver o órgão genital da vítima. “Eu resisti e ele me disse para não ter medo, que ele não faria nada. Nesse momento fiquei assustado, mas confiei. Abaixei as calças e ele tocou no meu pênis”, conta.

“Ele notou que fiquei em choque e pediu que eu levantasse as calças. Depois, voltei a me sentar no sofá em que eu estava. Ele, então, me pediu desculpas e disse que eu não precisava contar nada para os meus pais e que aquilo não aconteceria novamente”, revela.

Apesar da pouca idade, o jovem diz que sabia que o que havia acabado de acontecer era errado. “Tinha consciência de que se tratava de abuso. Por outro lado, acreditei que aquilo não aconteceria novamente e vi sinceridade no padre”, relembra.

“Nu e suado”

Outro homem, hoje com 33 anos, foi mais uma vítima do pároco na adolescência. Ele narrou ter passado uma noite de abusos, em uma cama beliche. Sozinho, dormindo na casa do religioso e acreditando estar seguro, ele – à época com 14 anos – sentiu o corpo nu e suado do padre deitando sobre o dele. O relato é longo e teve início ainda em 2001.

A vítima ressaltou que sempre se confessava com Zacarias e, com o passar do tempo, ele começou a ter comportamentos estranhos. “À época, tinha entre 13 e 14 anos e nunca tinha me masturbado. O padre, durante as minhas confissões, perguntava insistentemente se eu não tinha curiosidade em conhecer meu corpo e dizia que minha escolha de não me masturbar era incomum entre os jovens da minha idade”, narrou.

Certo dia, o menor estava escalado para servir em uma missa durante a semana. O padre perguntou se ele não queria dormir na casa paroquial que, na época, era uma quitinete. “Naquele dia, Zacarias pediu para que eu ficasse à vontade, nós lanchamos e assistimos filme. Ele começou a perguntar se eu queria conhecer melhor o meu corpo e, após várias recusas, ele foi incisivo. Aí percebi que tinha algo de errado, mas já era tarde da noite e eu não iria embora sozinho”, disse.

Para escapar, o menor afirmou que queria dormir. “Naquele momento, meu único pedido a Deus era que a companhia que morava com ele chegasse. O padre apagou a luz, mas logo em seguida deitou no beliche em que eu estava e, com uma sudorese excessiva, se tremendo todo, tentou me beijar e deitou em cima de mim”, lembrou-se.

Em seguida, a vítima afirmou que o padre tentou abaixar suas calças para masturbá-lo, mas não conseguiu. “Era claro que ele estava bastante excitado, mas, por outro lado, totalmente contrariado com as minhas recusas. Após diversas investidas e sabendo que eu não cederia às tentativas de abuso, ele desistiu. Cerca de meia hora depois, a pessoa que morava com o padre chegou e as tentativas cessaram. Como havia apenas um quarto na quitinete, eu tinha a certeza de que ele não tentaria mais nada”, narrou.

Após o abuso, o coroinha saiu correndo da igreja e retornou para casa. “Eu tinha perdido meu pai havia pouco tempo. Ele se aproximou e tentou abusar de mim no momento em que eu mais precisava de ajuda. Acredito que ele sempre agiu de forma bem calculista em relação às suas vítimas, pois amigos do nosso convívio que o recebiam em casa e pessoas que ele tinha ligação direta com os pais pareciam não sofrer abusos, nem tentativas de abusos”, finalizou.

O que diz a Arquidiocese

Procurada à época da denúncia, a Arquidiocese de Brasília, em nota, informou ao Metrópoles que a Igreja presta assistência protetiva e psicológica aos envolvidos e instaurou um processo de investigação. Além de ter providenciado o afastamento do acusado de seu ofício sacerdotal.

“A Igreja de Brasília conta com uma Comissão Arquidiocesana de Proteção de Menores e Pessoas vulneráveis, presidida pelo Padre Carlos Henrique. Nosso compromisso é cuidar que os ambientes de nossas comunidades sejam seguros e confiáveis para as crianças e adolescentes, acolher as vítimas e as testemunhas de eventuais abusos com todo o respeito e cuidado.”

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