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Testemunha da Chacina da Candelária fala pela primeira vez: ‘Só via fogo descendo e eles gritando’

Há 30 anos, menino que estava em cima de uma barraca de jornal foi acordado pelos tiros. Apavorado, viu os amigos serem mortos sem poder fazer nada.



“Só via fogo descendo e eles gritando.”

O relato é de uma testemunha da Chacina da Candelária que decidiu falar pela primeira vez sobre o massacre.

Neste domingo (23), faz 30 anos que oito jovens entre 11 e 19 anos foram assassinados no Centro do Rio. A chacina chocou o Brasil e o mundo e marcou a história do Rio de Janeiro. Na época, mais de 40 jovens dormiam na região quando policiais à paisana passaram atirando.

Na época, o menino estava dormindo em cima da banca de jornais quando foi acordado pelos tiros. Apavorado, ele viu os amigos serem mortos sem poder fazer nada.

“É uma coisa difícil até de falar, entendeu?”, diz sobre a noite do dia 23 de julho de 1993.

Testemunha da Chacina da Candelária fala pela primeira vez depois de 30 anos do massacre —
 Foto: Reprodução/TV Globo

Mas a tragédia ficou na memória.

“Lembro porque eu tenho marca deles até hoje. Eles me bateram dormindo. Eles me bateram, tá vendo? Ali tinha uma barraca de jornal, lá do outro lado. Eu tava lá em cima da barra de jornal. Dali eu pulei. Quando eu vi tinha uns caras do outro lado dando tiros neles aqui embaixo”, conta.

“Peguei a reta, pulei de volta e fui embora por ali. Peguei a reta e fui embora. A única coisa que eu vi foram uns caras mascarados aí dando tiro neles aí deitado aí. E mais nada”, diz.

Depois desses anos todos, ele construiu uma família.

“Hoje eu tenho a minha família. Não tinha casa própria, ainda continuo passando por dificuldade, como você está vendo, engraxando sapato. E vou tentando levar a vida do jeito que Deus dá.”

"Foi nesse dia aí que pra mim é um milagre de Deus. Graças a Deus foi uma vitória que Deus me deu. Por causa de que? Porque eu nunca mexi em nada de ninguém. Nunca fiz nada de errado", completa.

Chacina da Candelária completa 30 anos — Foto: Reprodução/TV Globo

Hoje, muitos moradores em situação de rua continuando procurando abrigo nas marquises ao redor da Candelária e se sentindo inseguros.

Karolaine tem 26 anos e dois filhos. Há quase três meses ela mora na Candelária, mas teme pela segurança da família.

“É medo, você não dorme, você cochila. Aí vem a ordem de choque e manda levantar.”

Ela diz que tem medo das pessoas “fazerem maldade” e sonha com uma casa e uma vida melhor.

Luciano Freire da Costa mora na Candelária desde 1996 e já foi vítima de violência.

“Olha quantos anos tem que eu moro aqui... Já sofri atentando, covardia, várias covardias. Olha cicatriz na minha cabeça, 40 pontos atrás. Paulada dormindo. A vida não é fácil”, diz.

“Você dorme e não sabe se vai acordar. Tem que ter certeza que vai dormir e não que vá acordar. Pode tomar paulada na cabeça ou pedrada ou pode morrer de frio.”

Chacina

Chacina da Candelária completa 30 anos — Foto: Reprodução/TV Globo

A Chacina da Candelária aconteceu na madrugada do dia 23 de julho de 1993. Usando dois carros com as placas cobertas por plásticos, os criminosos chegaram até um grupo de mais de 40 meninos e jovens que dormiam na região da Igreja da Candelária, no Centro do Rio de Janeiro.

Eles saíram do carro e perguntaram por Marcos Antônio da Silva, o Come-Gato, um dos garotos. De acordo com testemunhas, eles atiraram e houve correria. Quatro meninos morreram no local. Ruço também foi atingido. Ele ficou internado em coma por dias, mas não resistiu aos ferimentos e acabou morrendo.

Outros jovens, incluindo Wagner dos Santos, que tinha 21 anos na época e é a principal testemunha do crime, foram levados no porta-malas de um dos carros para o Parque do Flamengo, na Zona Sul, onde foram baleados. Apenas Wagner sobreviveu.

“Acho que nem vivendo 100 anos vou conseguir esquecer o que houve naquela noite. Tenho pesadelos com os assassinos e com os meus amigos mortos”, disse Wagner na época do crime.

Os mortos da Chacina da Candelária são:

  • Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos;
  • Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos;
  • Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos;
  • Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos;
  • "Gambazinho", 17 anos;
  • Leandro Santos da Conceição, 17 anos.
  • Paulo José da Silva, 18 anos;
  • Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos.
Os assassinos condenados:

  • Marcos Aurélio de Alcântara;
  • Marcus Vinícius Emmanuel Borges;
  • Nelson Oliveira dos Santos Cunha;
  • Maurício da Conceição, conhecido como Sexta-Feira Treze.
Wagner deixou o Brasil após sofrer um atentado, em setembro de 1994, na Central do Brasil. A irmã, Patrícia Oliveira, afirma que ele não tem previsão de vir a público ou voltar ao Brasil. Ela lidera o movimento Candelária Nunca Mais.

"A gente continua fazendo o que a gente acha que tem que fazer. A gente continua tentando buscar e lutar pelos nossos direitos. A gente continua tentando construir políticas públicas e não apenas políticas públicas para familiares de favelados, mas políticas públicas, seja para qual familiar for, de violência do Estado”, disse.

Fonte - G1/Rio de Janeiro

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