Por Celso Alonso
A pré-campanha de Luiz Inácio não se sustenta apenas em discursos, viagens e marketing social. Ela opera amparada por um ambiente político cuidadosamente moldado por decisões judiciais, interpretações elásticas da Constituição e uma atuação cada vez mais protagonista do Supremo Tribunal Federal no jogo eleitoral. Trata-se de um arranjo que, longe de fortalecer a democracia, a submete a uma lógica de tutela institucional permanente.
Enquanto Luiz Inácio percorre o país desafiando governadores de oposição e usando a máquina pública como vitrine eleitoral, o STF mantém em funcionamento instrumentos que limitam o campo de atuação de adversários políticos. O exemplo mais emblemático é o Inquérito das Fake News (Inq. 4.781), instaurado de ofício, sem provocação do Ministério Público, e que há anos se desdobra em investigações, quebras de sigilo, censura de conteúdos e bloqueios de perfis nas redes sociais, quase sempre atingindo vozes alinhadas à direita.
Sob o argumento de “defesa da democracia”, decisões monocráticas passaram a autorizar a remoção de publicações, a suspensão de contas e até prisões preventivas baseadas em manifestações e opiniões. O caso do ex-deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF por declarações consideradas ofensivas à Corte, tornou-se um marco simbólico: não apenas pela pena imposta, mas por sinalizar que o discurso político passou a ser tratado como matéria penal, a depender do alvo e do contexto.
Após os atos de 8 de Janeiro, o Supremo aprofundou esse protagonismo. Julgamentos em bloco, penas elevadas e a condução centralizada dos processos reforçaram a percepção de que o STF assumiu para si não apenas o papel de julgador, mas de gestor político da crise. A ausência de distinções claras entre financiadores, líderes e manifestantes comuns ampliou críticas sobre desproporcionalidade e justiça seletiva.
Esse cenário cria o terreno ideal para a estratégia eleitoral do Planalto. Com adversários constrangidos juridicamente, com medo de falar, postar ou mobilizar, Luiz Inácio pode posar de estadista enquanto seus opositores enfrentam um ambiente hostil, no qual qualquer crítica mais dura corre o risco de ser enquadrada como ataque às instituições. O debate público se empobrece, a oposição se autocensura e o eleitor recebe uma disputa filtrada.
A retórica petista de que há “ameaças à democracia” vindas da direita se apoia, justamente, nesse aparato. O medo não é apenas estimulado por discursos, mas institucionalizado por decisões judiciais que delimitam quem pode falar, o que pode ser dito e em que tom. Democracia, nesse modelo, deixa de ser confronto de ideias e passa a ser adesão às narrativas chanceladas pelo sistema.
O chamado “consórcio institucional” se completa com a atuação previsível de setores da grande imprensa, que tratam decisões do STF como dogmas intocáveis, rotulam questionamentos como “ataques” e transformam críticas políticas legítimas em supostos riscos autoritários. O resultado é um ambiente em que governo, Judiciário e mídia operam em sincronia, ainda que neguem qualquer coordenação.
Luiz Inácio, que prometeu reconstruir pontes e pacificar o país, governa sob a lógica do cerco. Sua pré-campanha não confia no debate aberto, nem na comparação franca de resultados. Depende de um campo adversário fragilizado, vigiado e constantemente sob ameaça jurídica. Liderar pesquisas, nesse contexto, diz menos sobre força política e mais sobre o desequilíbrio do jogo.
Quando árbitros acumulam funções, escolhem regras e ainda interferem no placar, o problema deixa de ser eleitoral e passa a ser institucional. A democracia não se rompe apenas por tanques ou golpes clássicos — ela também se desgasta lentamente quando o poder se concentra, o dissenso é punido e a eleição se transforma em mera formalidade.
