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ELEIÇÕES 2026 - Zema renuncia, e Simões assume o governo em meio à indefinição de chapas da direita em MG

Em discurso de posse, novo governador apelou à separação de Poderes, um mês depois de desafiar ordem do TJMG, e anunciou giro pelo estado nos próximos três meses

Por Júlia Cople — Rio de Janeiro

Romeu Zema (Novo) posa ao lado de Mateus Simões (PSD) — Foto: Reprodução/YouTube

Romeu Zema (Novo) oficializou neste domingo sua renúncia do cargo de governador de Minas Gerais e passou o bastão ao vice, Mateus Simões (PSD), que ficará à frente do estado enquanto tenta se consolidar como o principal nome da direita na disputa ao Executivo estadual. O desembarque de Zema ocorre pouco menos de duas semanas antes do prazo final de desincompatibilização exigido pela lei para que ele possa concorrer à Presidência da República, como tem insistido em dizer que fará.

A transmissão de cargo ocorre em duas etapas, com cerimônias na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), onde Simões prestou juramento e assinou o termo de posse, e no Palácio da Liberdade, com a entrega ao novo chefe do Executivo do Colar da Inconfidência. Em discurso, o novo governador diz que assume a cadeira com experiência sobre "a complexa realidade institucional" e conhecedor do "delicado" equilíbrio entre os Poderes.

— Entendo que é necessário promover o exercício pleno das atribuições constitucionais do Executivo ao mesmo tempo em que mantenho em mira as responsabilidades e limites de cada outra esfera de Poder. Só assim a lógica dos freios e contrapesos será de equilíbrio, e não de subserviência, de autonomia, e não de antagonismo — destacou.

Em fevereiro, Simões afirmou que não iria cumprir a decisão do Tribunal de Justiça do estado (TJMG) para paralisar a política educacional voltada para a implementação de escolas cívico-militares. Na ocasião, a Justiça suspendeu o programa ao acolher um parecer do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), e Simões declarou que não admitiria "interferências" do Judiciário.

— Podem se preparar para mandar me prender, porque eu vou abrir colégios cívico-militares assim que eu entrar no exercício como governador do estado de Minas, dentro de menos de 60 dias — completou, naquela ocasião.

No discurso de posse, Simões disse ser "inaceitável" que "obras relevantes e programas essenciais" sejam suspensos por "estratégia de interferência político-ideológica por órgãos de controle" e julgou "intolerável" que a violência contra a mulher seja tratada como "traço cultural" em Minas Gerais. "Abusos institucionais" serão combatidos, as mulheres serão protegidas e o crime organizado será "perseguido e expulso" do estado, destacou o político.

O novo governador afirmou que, em 2020, ao receber de Zema a tarefa de coordenar o secretariado o estado, já se considerava "um conhecedor da politica e um mineiro rodado pelo interior". No entanto, ponderou que, seis anos depois, conhece uma "Minas Gerais institucional e geográfica" que nunca imaginou existir. Ele disse que passará os próximos três meses percorrendo o estado e que, a partir do dia 26, transferirá a capital e a sede administrativa para cada uma das regiões.

— Minas Gerais é muito grande para ser compreendida à distância — disse ele, que prometeu diálogo com todos os prefeitos mineiros e atenção aos "invisíveis" que a "burocracia" ignora.

Em outro momento do discurso, Simões afirmou que "problemas reais não podem ser resolvidos por planilhas burocráticas, nem por vídeos nas redes sociais". Não citou diretamente o nome do senador senador Cleitinho Azevedo, que tem recebido o aval do Republicanos para disputar o Palácio Tiradentes e é conhecido pelas gravações publicadas na internet. No segundo evento de transmissão do cargo, Simões voltou a criticar o governo federal e destacou que bandidos serão "caçados" e "expulsos" pela polícia mineira.

Com a renúncia, Zema passa agora a se dedicar à pré-campanha à Presidência da República, anunciada há sete meses. No Palácio Tiradentes, após renunciar, ele fez um balanço dos anos de gestão e disse que "chegou a hora de mudar o Brasil todo". No discurso, o político fez críticas ao governo federal e reforçou o discurso anticorrupção.

— Ninguém aguenta mais a farra da corrupção, ninguém aguenta mais viver com medo, ninguém aguenta mais a conta não fechar no fim do mês. O Brasil está sendo destruído por esse governo que está lá em Brasília — disse.

Zema tem confirmado a pré-candidatura como cabeça de chapa, apesar dos modestos índices em pesquisas de intenção de voto e da especulação de que possa ser escolhido como compor a chapa de Flávio Bolsonaro (PL).

Embora siga afirmando publicamente que pretende concorrer ao Planalto em outubro, Zema vem fazendo gestos políticos que, nos bastidores da direita, são interpretados como uma possibilidade de composição com o senador. Um dos nomes mais cotados para o posto, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) avisou ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que não quer a nomeação e prefere o Senado.

Em entrevista ao programa "Frente a Frente", da Folha de S. Paulo e do UOL, o dirigente partidário deixou em aberto o posto para Zema, mas disse que a decisão será de Flávio e do pai, Jair Bolsonaro. Integrantes da pré-campanha do senador afirmam que diferentes perfis estão sendo avaliados e que a definição dependerá do desenho final da coalizão que sustentará o projeto presidencial.

Racha na base

Já entre aliados de Mateus Simões, a avaliação é que ele se tornará mais conhecido agora, ao assumir o comando do estado. O político tem visto a composição final de sua chapa se tornar alvo de disputa e provocar desgastes entre partidos de sua base no estado. Isso porque, em meio às articulações para a disputa pelo governo de Minas Gerais, a direita tem se dividido entre as opções colocadas à mesa.

O cenário tende a abrir espaço para uma candidatura do senador Cleitinho Azevedo.

O atrito interno teve início depois que o presidente do PSD em Minas, o deputado estadual Cássio Soares, sinalizou, durante uma agenda com jornalistas no início do mês, que a indicação do vice de Simões pelo Novo não estaria garantida. Desde o ano passado, o agora governador de Minas tem afirmado que, em função de um acordo prévio firmado entre os dois partidos, a prerrogativa da escolha do indicado para a vaga seria de Zema.

Em paralelo, integrantes da cúpula nacional do Novo passaram a responder que, caso o entendimento não seja cumprido, o partido poderá apoiar outro nome ao comando do Executivo do estado. A hipótese de ruptura, no entanto, tem sido negada publicamente por Zema e Simões.

A divergência entre o PSD e o Novo coincidiu com o momento em que a direita mineira começa a se organizar e se dividir entre os candidatos que se colocam na disputa. Além do PL, que ainda avalia um palanque próprio para Flávio Bolsonaro, o Republicanos passou a investir na indicação de Cleitinho.

O movimento, no entanto, não foi bem visto por Simões, que criticou a postura do partido durante uma agenda em Uberlândia. Na ocasião, Simões disse que a sigla deveria se concentrar em responder às acusações contra o presidente do diretório estadual, o deputado federal Euclydes Pettersen (MG), alvo recente de uma investigação da Polícia Federal sobre os descontos fraudulentos do INSS.

Em seguida, na ocasião, Simões tentou manter a ponte aberta para o possível adversário, dizendo que “respeita muito a trajetória de Cleitinho”, além de afirmar que eles “nunca estiveram em lados opostos” e que “espera que não fiquem agora”.

Simões também já chegou a considerar o irmão do senador e prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (PL), para a vaga de vice em sua chapa, mas tem como principal opção a vereadora de Belo Horizonte Fernanda Altoé (Novo), considerada aliada próxima.

No PL, integrantes da bancada na Assembleia Legislativa, como os deputados estaduais Cabo Caporezzo (PL-MG) e Sargento Rodrigues (PL-MG), defendem que a sigla apoie Cleitinho.

Cleitinho Azevedo adiantou a escolha da composição de parte de sua chapa majoritária e definiu o prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão (Republicanos), como seu indicado a vice, na contramão dos interesses de Simões.

Falcão e Simões acumulam atritos desde o início do ano, quando a esposa do prefeito, a deputada estadual Lud Falcão (Podemos), relatou ter recebido uma ligação em tom de ameaça de Simões. Apesar dos atritos, Falcão afirmou que tem "respeito" por Simões e defendeu que haja uma unificação do campo da direita em Minas. Ele destaca, no entanto, que o nome de Cleitinho aparece na liderança nas pesquisas.

O senador também tem buscado articulações junto a outros representantes do campo bolsonarista no estado, como o deputado Nikolas Ferreira (PL), a quem teria oferecido abrir mão da candidatura para apoiá-lo na disputa pelo governo do estado. O plano, contudo, não desperta interesse em Nikolas, que buscará a reeleição na Câmara e tem articulado para formar uma rede própria de influência e de aliados em Minas e em outros estados.

O parlamentar do PL também tem se reaproximado de Simões ao longo do último mês e cumprido uma série de agendas ao lado do vice-governador, mesmo após ele ter sido descrito nas anotações de Flávio Bolsonaro como uma opção de palanque para o PL no estado que “o puxa para baixo”.

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