Grupo Vagabonde faz vídeo racista e lamenta por não ser aceito no Rap

“Eles querem me excluir simplesmente por não ser preto,

Eles tentam me oprimir só porque eu não nasci no gueto”

As frases acima são versos da música “Fome”, cujo vídeo foi lançado nesse dia 04/01 por um grupo (Vagabonde) que, segundo seus integrantes, faz rap. Esses versos são cantados por Matheus Theobaldo (que usa o vulgo Buddy Poke). No vídeo, o tal Buddy Poke se lamenta porque teria gente dizendo que ele não pode fazer rap por ser “playboy” (assumindo que se apropria de uma expressão cultural de resistência de uma realidade que ele não vive para ser famoso como “rapper”). E como ele responde às críticas? Com RACISMO. Faz uma blackface pra tirar sarro de negros que acham que ele não deveria fazer essa coisa que ele chama de “rap”.


Nos últimos anos, isso tem sido discutido bastante no país, mas a sanha do racismo é maior. Não é nada novo no Brasil (nem no mundo) pessoas brancas se pintando de preto (o tal do recurso chamado na dramaturgia racista de “blackface”) para fazer piadas com pessoas negras e ridicularizar a negritude. E tem se explicado à exaustão como e porque isso é um ato racista. Pra quem acha que não é racismo ou não entende porque a tal “blackface” é extremamente racista, leia esse artigo: http://bit.ly/1JUw4tY Além dele, há inúmeros outros textos na internet sobre isso.

Além disso, o vídeo mostra um rapaz negro com o rosto pintado de branco pra falar que isso seria uma tal “whiteface” e dizer, por isso, que a blackface não seria sinal de racismo. É evidente que o vídeo foi uma provocação racista já preparada para uma resposta. Não sei em que planeta eles vivem, mas no nosso mundo, em que a branquitude nunca foi humilhada, rebaixada e ridicularizada, é simplesmente impossível existir a tal “whiteface”. Novamente, estão usando a falsa simetria racial no Brasil e apagando 500 de humilhação da negritude, o que ainda é uma regra nesse país.


Além de racista, o vídeo exibe o ranço elitista de quem sempre explorou social, politica e economicamente a população pobre e periférica e agora diz que é “oprimido por preto e pobre” que não aceita playboy supostamente fazendo rap. Mas esse vídeo em si é a prova de que leite-com-pêra não combina com rap mesmo, porque o resultado é esse tipo de coisa de péssima qualidade – racista e cheia de ranço elitista.

Nos comentários de uma postagem que o tal Buddy Poke fez sobre as críticas, seus apoiadores já usam o rapaz negro do vídeo pra falar que o vídeo não é racista (o clássico discurso furado “tenho amigos negros, então não sou racista”). E ele ainda acrescenta: “Engraçado que no mesmo video tem um negro pintado de branco, cadê o pessoal reclamando disso? O que nós tentamos passar não foi nada além da igualdade social”. Ou seja, para ele, humilhar a negritude é a igualdade social que ele dá de presente para as pessoas negras. Importante: essa postagem dele diz o seguinte: “hahahah quem impõe o racismo somos nós mesmos caralho, VAI TOMAR NO CU quem não entendeu a ironia”. Não tem ironia nenhuma aqui. Tem racismo escancarado. Ponto.



E quase no final do vídeo, mais um branco, dessa vez um tal de Pereira, usando o termo “nigga”. Os caras falam que são do rap e não entendem pra valer o que esse termo significa e porque (ou por quem) ele é usado no hip hop norte-americano. Um branco usando esse termo pra falar com um negro nos EUA facilmente seria denunciado por racismo (pra ficar na resposta leve). “Nigga” não significa “nego” ou “negão”. É um termo racista apropriado por alguns negros do hip hop dos EUA, mas ainda extremamente odiado por tantos outros negros por lá, e que continua a ser símbolo do racismo na boca de brancos. Portanto, não importa se você sabe o que significa ou não, nem vou me estender nisso. Se você é branco, simplesmente NÃO USE esse termo e vá pesquisar o porquê. Ponto.

Poderíamos falar só da péssima qualidade do vídeo, falar da letra horrível, falar que o tal Buddy Poke é um péssimo “rapper”. Mas ver um branco racista fazendo mimimi e falando que é oprimido por preto e pobre, já são outros quinhentos. Em 2015, passou da hora de pararmos de aceitar esse tipo de ridicularização da negritude.

É preciso denunciar esse vídeo ao Youtube e ao Ministério Público por racismo. Sei que isso dá mais visibilidade pra esse lixo racista, mas o link do vídeo para enviar para denúncia é esse aqui: http://bit.ly/1mxj7Bx

Para fazer a denúncia ao Youtube, acesse o vídeo e clique no botão “Mais Ações” (na web – abaixo do vídeo; no app – no canto superior direito) > Conteúdo Abominável >Estimula ódio / Bullying > Selecione o minuto da cena (1:15) > Escreva brevemente o motivo de sua denúncia (racismo, blackface, etc).

Você também pode denunciar o caso ao Ministério Público Federal pelo site http://aplicativos.pgr.mpf.mp.br/ouvidoria/portal/cadastro.html?tipoServico=2 (com link e prints, se possível).

Quem nunca foi humilhado, ridicularizado ou se sentiu desvalorizado por ser negro, não deve entender por que esse tipo de coisa deve ser abominada e afrontada. Quem é negro sabe como é passar por isso todo dia. Se a gente não passa por cima desse tipo de lixo racista, eles vão continuar passando por cima de nós, como nos últimos 500 anos. Já deu.



Fonte - guerrilhagrr
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