A Coordenação de Transportes da Prefeitura é a responsável por 85 veículos. Desse total, 60 estão encostados à espera de reparos

IGO ESTRELA/METRÓPOLES

Acrise financeira pela qual passa a Universidade de Brasília (UnB), agravada pelos sucessivos cortes orçamentários nos repasses feitos pelo governo federal, afeta, também, a manutenção da frota que compõe o patrimônio da instituição. Atualmente, dezenas de veículos, entre carros de passeio, vans, micro-ônibus e ônibus, estão parados à espera de reparos. Enquanto isso, eles vão acumulando poeira e se deteriorando.

Segundo a UnB, dos 85 veículos da instituição, 25 estão em condições de uso, e os 60 restantes estão na fila para manutenção. Parte dessa frota, que é gerenciada pela Coordenação de Transportes, está ao relento no pátio da Prefeitura do Campus (PRC) ou em garagens.

Incomodados com a situação, servidores da universidade denunciaram o caso ao Metrópoles. Segundo eles, alguns automóveis estão parados há mais de dois anos. Com medo de represália, os profissionais pediram para não serem identificados. Um deles relatou o motivo pelo qual resolveu expor o caso.

“Nada justifica essa situação. A nossa maior pena é ver o patrimônio público parado, se acabando. Ninguém toma nenhuma atitude ou decisão em relação a isso. Queremos que o Ministério Público tenha conhecimento do que está ocorrendo na UnB para cobrar explicações. Somos fiscais da União e nos sentimos na obrigação de ajudar a fiscalizar”, alegou.

Outro servidor confirma os problemas. “Desde que ficamos sem mecânica e fizeram contrato com oficinas, os carros não são mais os mesmos. Os que funcionam não estão em perfeito estado para uso. As baterias estão ruins, falta óleo e cuidados básicos, até mesmo de limpeza. A maioria dos veículos que foram para a manutenção saiu para a oficina funcionando e voltou guinchada”, reclamou.

Veja galeria com imagens da garagem e da Prefeitura da UnB:

Cemitério de lata: sem manutenção, frota da UnB se deteriora no campus

Espaço improvisado

Ainda segundo a denúncia recebida pela reportagem, os terceirizados estão trabalhando em condições insalubres: sem banheiro, expostos a sol e chuva, pois não podem mais ficar na garagem ou na área da oficina mecânica. Hoje, ficam acomodados em lugar improvisado na prefeitura.

“Isso tudo está acabando com a gente. Tememos perder os nossos empregos. Muitos terceirizados foram demitidos e não queremos que esse número aumente ainda mais. Estamos sendo coagidos e rodamos em veículos com óleo vencido, sem troca de correia e com pneus carecas. Temos que nos virar. Transportamos vidas nessas condições. É complicado”, desabafou um dos denunciantes.

A UnB confirma que os motoristas estão provisoriamente acomodados em uma sala na sede da prefeitura. Contudo a instituição nega que eles se encontrem em condições precárias e afirma que têm acesso aos mesmos recursos que os demais trabalhadores, com água, banheiros e áreas espaçosas e ventiladas para aguardar chamadas.

Além disso, acessam a garagem apenas para deixar os veículos da frota, pois as instalações não são adequadas para acomodá-los. “Está prevista uma reforma em uma sala definitiva para os motoristas na PRC, esta sim com algumas facilidades a mais, como banheiros com ducha e copa”, esclareceu a universidade, por meio de nota.

O coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de Brasília (Sintfub), Edmilson Rodrigues de Lima, disse que o fato é provocado pela crise e pelo corte orçamentário do governo federal às universidades de todo o país, em especial, à UnB.

Lima também saiu em defesa dos servidores da instituição e disse não concordar com a política de sucateamento das condições e falta de equipamentos para o trabalho. “As denúncias feitas são legítimas e estão corretas”, afirmou.

“O que o sindicato tem observado é que, desde 2017, com sucessivos cortes orçamentários gigantes na UnB, os serviços de manutenção da universidade, não só a garagem, mas diversos outros, foram desativados. Realmente, temos carros seminovos lá que estão quebrando e não tem como fazer a manutenção. Isso prejudica a vida acadêmica, como os trabalhos de pesquisa e extensão”, completou.
O outro lado

Por meio da assessoria de imprensa, a UnB disse que é importante ressaltar que os carros da instituição são usados diariamente para saídas de campo em estradas de asfalto e terra, situação que colabora para a rápida depreciação.

Além disso, mencionou que há recomendação do governo federal para o desfazimento de setores de garagem, dando preferência a outras formas de contratação de serviços de transporte, conforme o Decreto n° 9.287, de 15 de fevereiro de 2018.

A universidade esclareceu também que a garagem teve que ser esvaziada nos meses de julho e agosto para realização de análise de solo, tendo em vista a sua utilização no decorrer de 50 anos. Por isso, os carros foram deslocados temporariamente para a sede da PRC, mas já estão sendo levados de volta para a garagem.

“A diretoria de serviços está realizando o mapeamento das condições de uso desses veículos, tendo em vista a regra que obriga a administração a colocá-los a leilão caso o valor do conserto exceda 50% da tabela Fipe”, afirmou a universidade.

Ainda de acordo com a UnB, “o restante, obrigatoriamente, entrará em processo de desfazimento da frota em função da assunção dos contratos de deslocamentos utilizados pelo governo federal por intermédio do sistema Táxi-eGOV. Parte da frota será mantida pela universidade, pois há deslocamentos acadêmicos que não são possíveis de serem atendidos pelo dito sistema”.
Contratos

Em relação aos serviços de manutenção, a instituição disse que havia contratos com três empresas: Taguamotors, Irmãos Rezende e NCA, no valor de R$ 3,1 milhões. Em 2019, os valores pagos somam R$ 124,9 mil. “Vale destacar que a universidade também só autoriza o serviço após aprovação do orçamento, com parecer técnico emitido por um engenheiro. Além disso, caso o valor do conserto supere 50% do valor da tabela Fipe, não é possível realizá-lo.”

A universidade informou que faz manutenção corretiva e preventiva da frota, e os automóveis em utilização não oferecem risco aos usuários. “Por fim, além das limitações impostas pelo governo para a gestão de serviços de transporte, destacamos também as dificuldades orçamentárias vividas pela instituição. O orçamento discricionário da universidade permanece bloqueado em 31% na fonte Tesouro, fato que prejudica sobremaneira a execução do planejamento de diversas atividades acadêmicas e administrativas”, destacou a UnB.


Fonte - Metrópoles