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Estupro no resguardo: ‘Meu ex-marido me violentou sexualmente seis dias após o parto’

A violência de gênero tem muitas expressões. Uma delas, por incrível que pareça, é o abuso sexual cometido contra puerpéras, mulheres que há dias passaram pelo parto de seus bebês

Por Manuela Azenha

Estupro no resguardo — Foto: Getty Images

Silvana* amava o marido, com quem foi casada por treze anos. A faxineira carioca já tinha um filho de um primeiro casamento e queria um segundo, com o novo companheiro. Engravidou após seis anos de relacionamento.

Para o então marido, no entanto, a gravidez foi indesejada, e daquele momento em diante passou a beber compulsivamente. Segundo Silvana, a vida tranquila que o casal levava se transformou completamente.

“Os amigos o traziam bêbado para casa e deixavam ele caído no quintal. Eu tinha que botar ele para dentro, mas conforme minha barriga ia crescendo, a dificuldade para fazer isso aumentava. Morávamos em uma ladeira alta, era horrível ter que subir e descer”, descreve.

A filha nasceu em 23 de dezembro de 2001. E, ao contrário do que Silvana imaginava, o consumo de álcool do ex-marido só piorou ao tornar-se pai. Ele não conseguia manter-se em um emprego fixo e faltavam mantimentos básicos na casa, então Silvana passou os primeiros 15 dias de resguardo com a cunhada, onde pensou que estaria mais segura.

Mas o ex-marido continuou chegando em casa alcoolizado, diz Silvana, e, no sexto dia após o parto, a estuprou. “Aconteceu há 20 anos e me lembro como se fosse hoje. Para não perturbar ninguém, falava baixo para que ele parasse. Mas aí sim que ele perturbava e me mandava calar a boca. Eu sentia pena de mim mesma. Dizia a ele que ia me machucar, porque ainda estava dolorida. E ele dizia ‘para com isso’. Queria mesmo me punir de raiva porque tive o bebê. Eu sentia muita raiva, chorei muito depois. Eu falava que a irmã dele nos escutaria e ele respondia: ‘É só você parar de falar’. Ele foi muito covarde comigo”, relata.

Ao contrário do que diz o senso comum, não são em vielas escuras onde as mulheres correm maior risco de violência - mas dentro de suas próprias casas e por pessoas conhecidas. No Brasil, um estupro marital - violência sexual cometida por maridos, namorados ou companheiros de uma relação - acontece a cada 40 minutos, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) apontam que cônjuges ou namorados foram os autores de um a cada oito estupros de mulheres no Brasil entre 2012 e 2022.

Ou seja: dos 350 mil estupros que ocorreram neste período, 42,5 mil se enquadram na definição de estupro marital.

Não há dados específicos sobre a violência cometida no período de resguardo, como no caso de Silvana, mas, segundo a psicóloga Arielle Sagrillo, especialista no atendimento de vítimas de violência doméstica, pesquisas sugerem que mulheres são mais propensas a sofrer violência íntima durante a gravidez e o pós-parto.

“Isso desmistifica a ideia de que esse seria um momento ‘sagrado’, de muita completude ou proteção às mulheres-mães”, comenta. A prática clínica, segundo Sagrillo, caminha na mesma direção e indica um aumento da violência à medida que o pós-parto se desenvolve, com a violência sexual perinatal [antes e depois da gestação] sendo um indicador importante de outras formas de violência graves.

É o caso de Silvana, que diz ter sofrido violência sexual e psicológica do marido durante seis anos. “O abuso sexual acontecia sempre, toda vez que ele queria, na gravidez, no resguardo, depois do resguardo. Quando a minha menina cresceu, tentei reagir e nossa casa virou um inferno. Ele passava as noites aos gritos, quebrando a casa inteira, me xingando, ameaçando. Foram anos sem dormir, anos de abuso e tortura psicológica.”, relata.

Para Sagrillo, o estupro marital no pós-parto desafia nosso entendimento do que é violência sexual porque nos obriga a olhar para dentro das relações e nomear os abusos que acontecem nesse espaço. “Abusos que são cometidos por alguém com quem pensamos ter desenvolvido uma relação de afeto e confiança e com quem, em alguma medida, compartilhamos a responsabilidade do cuidado”, comenta.

Ainda de acordo com a psicóloga, a gestação e puerpério são momentos de tensão sexual entre os cônjuges, “com muitos homens manifestando uma urgência sexual descabida e mulheres experimentando, por outro lado, uma constelação de mudanças físicas e psicossociais que as impedem – com razão – de se perceberem como seres desejantes”.

Não há uma diretriz baseada em evidências sobre o momento certo de retomada da atividade sexual no pós-parto, diz a ginecologista, Silvia Kharmandayan, especialista em patologias do trato genital inferior, mas de forma geral recomenda-se a abstinência sexual de penetração vaginal por 40 a 60 dias.

A médica aponta alguns dos critérios utilizados: cicatrização do períneo para partos normais e da ferida operatória em casos de cesária, prontidão emocional da puérpera, e se ainda há sangramento no pós parto. “Lembrando também que a mulher no pós parto, do ponto de vista hormonal, é como se estivesse na menopausa, com a vagina seca, atrofiada, e vivendo privação de sono, mudanças bruscas na vida, então a libido geralmente não está elevada”, complementa.

Silvana conta que tentou “consertar” o ex-marido durante anos. Foi com ele a reuniões dos Alcoólatras Anônimos, o incentivava a frequentar o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). “Mas o amor foi acabando, se transformando em raiva, tristeza e revolta. Até o dia feliz de largar a casa dele e vir morar na minha casa, onde estou hoje. Por que não larguei antes? Porque eu amava, e queria tentar. Mas não queria ter relação sexual à força, de madrugada, com bebê novo, exausta de trabalhar e cuidar de criança”. Na primeira noite após separar-se e mudar de casa, dormiu 14 horas seguidas.

Silvana não denunciou o marido pelas violências cometidas. “Boletim de ocorrência? Como você entra numa delegacia para denunciar abuso sexual, de que jeito? Não tem como. Nem hoje eu faria isso. Primeiro, não tem acolhimento. Depois, dá uma vergonha danada. As mulheres deveriam denunciar, mas não sei se têm coragem”.

Sagrillo destaca que normas sociais rígidas, como a ideia da obrigatoriedade da mulher em satisfazer sexualmente seu cônjuge – até mesmo em um pós-parto – contribuem para esse cenário de violência sexual dentro de uma relação.

“Na transição, em sua maioria estressante, para a parentalidade, as diferenças de gênero e de papel de gênero podem se tornar dolorosamente óbvias e servirem para justificar as violências perpetradas, legitimando o ocorrido ou invisibilizando a violência: agressores se sentem autorizados a agredir, mulheres não reconhecem a violência ou, quando o fazem, sentem-se responsáveis pelo ocorrido. Sentimentos de culpa, medo, vergonha e dúvida se fazem presente e o silenciamento sobre o ocorrido impede que essa mulher, recém mãe, receba a escuta e acolhimento adequados”, aponta Sagrillo. “O estupro marital não denuncia, portanto, apenas nosso mal entendimento do que é violência, mas também a dinâmica de desigualdade de poderes dentro de uma relação”.

* O nome foi alterado a pedido da entrevistada

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