A criação da fila nacional unificada para análise de benefícios do INSS, anunciada pelo governo federal como resposta ao acúmulo de pedidos, tem produzido um efeito perverso: trata igualmente situações completamente desiguais. Doentes graves, pessoas incapacitadas para o trabalho e segurados sem qualquer fonte de renda seguem aguardando meses por uma simples perícia médica, sem qualquer tipo de prioridade clínica.
Embora o discurso oficial sustente que a medida busca dar mais eficiência ao sistema, os números e os relatos de quem depende da Previdência expõem uma realidade bem diferente. Atualmente, mais de 3 milhões de pedidos aguardam análise no INSS, sendo que cerca de 1,7 milhão já ultrapassaram o prazo legal de 45 dias. O cenário contrasta frontalmente com a promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de zerar a fila de espera.
O novo modelo nacionalizou a fila, permitindo que servidores de regiões com menor demanda analisem processos de áreas mais sobrecarregadas. No papel, a proposta soa racional. Na prática, porém, o sistema se limita a obedecer a ordem cronológica de entrada dos pedidos, sem qualquer filtro que leve em conta a gravidade da condição de saúde do segurado. Assim, um paciente com câncer em estágio avançado pode esperar o mesmo tempo que alguém com um quadro clínico menos severo.
É o caso do motoboy Eduardo da Costa, de 53 anos. Transplantado, com perda auditiva e diagnosticado com câncer de pele avançado, ele solicitou benefício por incapacidade ainda em dezembro, mas só conseguiu agendamento de perícia para março. Impedido de trabalhar e sem renda previdenciária, Eduardo depende de aplicativos instáveis e de canais digitais ineficientes para tentar acelerar o processo, sem sucesso.
A justificativa do governo é burocrática e, para muitos especialistas, insensível. Segundo o Ministério da Previdência, não é possível distinguir graus de gravidade antes da perícia médica presencial. Na prática, isso significa admitir que o sistema só reconhece a urgência depois que o segurado já esperou tempo demais.
Especialistas em direito previdenciário apontam que a ausência de critérios clínicos na triagem inicial é um dos maiores gargalos do modelo atual. Como a maioria dos pedidos já envolve idosos, pessoas com deficiência ou trabalhadores incapacitados, a fila acaba nivelando por baixo situações que exigiriam respostas rápidas do Estado. O resultado é um sistema cego à urgência social.
O drama se repete em diferentes perfis. A funcionária de logística Arianne Liz, de 34 anos, está afastada desde outubro após romper ligamentos do joelho e passar por cirurgia. Mesmo com laudos médicos, teve a perícia marcada apenas para março. Tentativas de envio de documentos pelo aplicativo Meu INSS fracassaram, sob alegação de arquivos corrompidos. Sem renda, ela depende da ajuda da família e já considera recorrer à Justiça.
O acúmulo de pedidos, segundo o próprio governo, foi agravado por mudanças legislativas, revisões de benefícios e aumento na demanda. A promessa agora é de alívio com a contratação de 500 novos peritos. Ainda assim, especialistas alertam que o problema vai além da quantidade de profissionais: falta gestão eficiente, sensibilidade social e estrutura presencial adequada.
Outro ponto crítico é a excessiva digitalização do atendimento. Grande parte do público da Previdência não domina tecnologia, não tem acesso regular à internet e enfrenta dificuldades até mesmo para usar o celular. A central telefônica, por sua vez, apresenta longas esperas e quedas frequentes de ligação, ampliando o sentimento de abandono.
Apesar de o INSS afirmar que, em uma semana, mais de 118 mil processos antigos foram redistribuídos para análise, o avanço estatístico não se traduz em alívio imediato para quem vive a urgência da doença e da fome. Sem um sistema que diferencie sofrimento, gravidade e risco social, a fila nacional corre o risco de ser apenas uma reorganização do atraso, agora em escala nacional.
Enquanto o governo insiste em números e promessas, milhões de brasileiros seguem presos a um sistema que não enxerga a dor, apenas protocolos.
