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Morre Country Joe McDonald, cantor americano que fez 'hino' contra a Guerra do Vietnã, aos 84 anos

Ele era líder da banda Country Joe and The Fish, que fez apresentação histórica em Woodstock

Por Jim Farber, Em The New York Times — Nova York

Country Joe McDonald em Woodstock, em 1969 — Foto: Reprodução

Country Joe McDonald, cuja apresentação em Woodstock — na qual conduziu uma multidão de 400 mil pessoas em um coro subversivo antes de começar sua canção satírica anti-guerra “I-feel-like-I’m-fixin’-to-die rag” — tocou tão fundo que muitas vezes obscureceu a variedade e a dimensão de sua carreira, morreu no sábado (7), aos 84 anos, de complicações da doença de Parkinson.

Em seus anos de ascensão, McDonald liderou o Country Joe and the Fish, uma das primeiras e mais aventureiras bandas a surgir da cena de rock psicodélico da região da baía de São Francisco nos anos 1960. Depois que a trajetória principal do grupo terminou, em 1970, ele lançou dezenas de álbuns solo em diversos estilos ao longo de muitas décadas.

Ainda assim, foi sua apresentação em Woodstock, imortalizada pelo filme e pela trilha sonora do festival, na qual ele trocou o principal refrão da música de sua banda The Fish Cheer por uma palavra com F muito mais provocativa, antes de começar sua mais conhecida canção anti-Guerra do Vietnã, que acabou definindo sua imagem para muita gente.

“Desde o momento em que eu gritei ‘Give us an F …’, aquilo virou um momento folk de protesto”, disse McDonald ao jornal britânico The Independent em 2002. “Havia ali uma certa atitude confrontadora, meio Kurt Cobain, que combinava muito bem com o espírito da época.”

Canções de protesto

Joe McDonald — Foto: Reprodução

Da mesma forma, os álbuns de McDonald com o Fish, para os quais ele escreveu e cantou a maior parte do repertório, refletiam perfeitamente o experimentalismo e a política da cena psicodélica que lhes deu origem.

Ao mesmo tempo, o trabalho do grupo ampliava as usuais distorções de guitarra e referências às drogas daquela era com melodias insólitas, letras excêntricas e influências que também vinham do ragtime, do folk tradicional e da vanguarda.

O primeiro single do Fish, “Not so sweet Martha Lorraine”, girava em torno de uma mulher obcecada pela morte que também tinha inclinação para o homicídio, enquanto outra canção inicial, “Superbird”, imaginava o presidente Lyndon B. Johnson como um personagem de desenho animado enlouquecido.

O tom da política e do comentário social nas canções de McDonald podia variar do fantasioso ao sarcástico. Em “The Harlem song”, ele satirizava o fetiche de pessoas brancas pela cultura negra, enquanto em “Fixin’-to-Die” cantava na voz de um garoto-propaganda de TV vendendo aos pais a chance de “ser o primeiro da sua quadra a ter seu filho voltando para casa numa caixa!” A canção culminava no refrão irônico: “Whoopee! We’re all gonna die!”

Embora dois dos álbuns de McDonald com o Fish tenham chegado ao Top 40 da Billboard, a banda nunca chegou perto de alcançar o sucesso obtido por outros nomes da cena de São Francisco, como Jefferson Airplane ou Grateful Dead.

E nenhum de seus trabalhos solo entrou na parada de álbuns da Billboard. Ainda assim, ele permaneceu fiel a seus instintos musicais e a seus temas líricos. Muito depois do fim da Guerra do Vietnã, continuou escrevendo sobre seus efeitos e legado, algo captado da melhor maneira em seu álbum de 1986, “Vietnam Experience”, que traz 12 de suas canções sobre o tema.

Joseph Allen McDonald nasceu em 1º de janeiro de 1942, em Washington, filho de Worden McDonald, que trabalhava para a companhia telefônica, e Florence Plotnik, uma ativista política. Seus pais eram membros do Partido Comunista e o batizaram em homenagem a Josef Stalin.

Quando era criança, a família se mudou para El Monte, na Califórnia, perto de Los Angeles. “Minha família era a única comunista de toda a região, e levávamos uma vida muito isolada”, disse McDonald à revista Let It Rock em 1974. “Meus pais nunca iam dançar nem beber — comunistas típicos.”

Ao mesmo tempo, seu pai tinha um violão havaiano que ensinou Joe a tocar quando ele tinha 7 anos. Quando Joe era adolescente, nos anos 1950, seu pai foi convocado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara, cujo objetivo era erradicar comunistas nos Estados Unidos, e, como resultado, perdeu o emprego. (Mais tarde, seus pais renunciaram à causa.) Aos 17 anos, McDonald alistou-se na Marinha porque, como contou à Let It Rock, queria “ver o mundo e fazer sexo”.

Depois de servir por pouco mais de três anos, ele tentou cursar a faculdade por alguns semestres antes de desistir e se mudar para Berkeley na época do Movimento pela Liberdade de Expressão. “Fui para San Francisco para me tornar um beatnik”, disse à Let It Rock.

McDonald começou uma pequena revista underground chamada Rag Baby antes de formar uma versão inicial do Country Joe and the Fish com o guitarrista Barry Melton, em 1965. Seu nome artístico refletia ironicamente o fato de que Stalin às vezes era chamado de “Country Joe” por causa de sua origem rural. A palavra “Fish” foi tirada de Mao Tsé-Tung, que escreveu que os revolucionários “devem mover-se entre o povo como um peixe nada no mar”.

Numa versão “falada” da revista, a banda incluiu a primeira versão de “Fixin’-to-Die”, executada de forma acústica. “Fui inspirado a escrever uma canção folk — sobre como os soldados não têm escolha no assunto a não ser seguir ordens — mas com a irreverência do rock ‘n’ roll”, disse McDonald ao New York Times em 2017.

Mais tarde, o grupo eletrificou seu som, mudou-se para San Francisco e assinou com a Vanguard Records, que lançou seu álbum de estreia, “Electric music for the mind and body”, em 1967. O produtor do disco, Samuel Charters (mais conhecido como historiador do blues), recusou-se a deixar que “Fixin’” ou “The Fish Cheer” entrassem no álbum de estreia, temendo que isso levasse a um boicote das emissoras de rádio.

Mas como ninguém reclamou da canção anti-Johnson “Superbird”, que foi incluída no disco de estreia, eles puderam colocá-la no segundo álbum — e como faixa-título, nada menos.

Num show no Central Park em 1968, o baterista da banda, Gary Hirsh, sugeriu que trocassem a palavra “fish” pelo palavrão para fazer uma declaração em defesa da liberdade de expressão. Enquanto o público saudava delirantemente a mudança, Ed Sullivan cancelou imediatamente a participação já marcada do grupo em seu popular programa dominical de variedades.

Depois de apresentar a versão ampliada do “Cheer” em Worcester, Massachusetts, McDonald foi acusado de incitar o público a comportamento obsceno, o que resultou em uma multa de 500 dólares e muita publicidade. Quando apresentou a versão provocativa da canção em Woodstock, os ouvintes já estavam preparados para aquilo.

No festival, McDonald fez dois sets, um com a banda e outro solo, reflexo de tensões internas antigas que levaram o grupo ao fim no ano seguinte. Nessa altura, McDonald já havia começado a gravar sozinho, tendo lançado no fim de 1969 um disco em seu próprio nome, intitulado “Thinking of Woody Guthrie”, composto inteiramente por canções associadas àquela lenda do folk.

Embora seu trabalho solo tendesse a ser menos excêntrico do que suas gravações com o Fish, suas letras continuavam igualmente imaginativas: seu álbum de 1973, “Paris Sessions”, explorava o feminismo, e “War War War” usava letras originais baseadas na obra do poeta canadense Robert William Service). Em 2017, ele celebrou meio século de carreira com um álbum intitulado “50”.

McDonald teve um filho e uma filha, Ryan e Emily, com sua quarta mulher, Kathy Wright; outro filho e outra filha, Devin e Tara, com sua terceira mulher, Janice Taylor; e uma filha, Seven Anne McDonald, com sua segunda mulher, Robin Menken. Informações completas sobre seus sobreviventes não estavam imediatamente disponíveis.

Ao longo de sua carreira, a política de McDonald e suas preocupações líricas evitaram o literalismo ou o doutrinário, ampliando o tom de sua canção mais famosa.

Falando sobre o efeito de “Fixin’ to die” à Let It Rock, ele disse: “Você ri da guerra. Você ri de si mesmo e ri da esquerda ao mesmo tempo. Há algo de muito atraente nessa canção.”

“Há algo de muito atraente nas drogas também”, acrescentou. “É basicamente uma canção insana.”

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