Sem provas, parlamentar acusa relator da CPMI do INSS de estupro e rebaixa o debate político ao nível mais baixo ao lado de Lindbergh Farias
Por Redação MS em Brasília
Golpe rasteiro de Soraya Thronicke e Lindbergh Farias não merece punição menor que a cassação de mandato (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)
A senadora Soraya Thronicke (Pode-MS) já não faz questão de disfarçar: seu mandato virou um exercício contínuo de oportunismo, contradição e irresponsabilidade.
Desde 2018, quando surfou na onda eleitoral associando-se ao então candidato Jair Bolsonaro para, depois de eleita, negar o vínculo, ficou evidente o padrão que marcaria sua trajetória: dizer o que convém, quando convém, sem compromisso com coerência ou verdade.
O que se viu desde então foi uma sucessão de episódios constrangedores: polêmicas vazias, pautas de relevância duvidosa e atitudes incompatíveis com a seriedade do cargo.
Seu mandato virou um exercício contínuo de oportunismo, contradição e irresponsabilidade
A defesa da liberação do cigarro eletrônico é apenas um entre vários exemplos de uma atuação errática e desconectada das prioridades da população.
A senadora chegou a processar o MS em Brasília por publicação sobre os riscos do produto, mas foi derrotada em todas as instâncias e condenada ao pagamento de custas, no valor de R$ 4,2 mil.
O lobby pela liberação do vape não era — e não é — gratuito. Soraya viajou à Itália com despesas pagas pela Philip Morris, uma das maiores fabricantes de tabaco do mundo.
Quando não está envolvida em projetos questionáveis, protagoniza situações ainda mais graves.
A viagem a Orlando ao lado de um lobista investigado, em meio a suspeitas bilionárias na CPI das Bets, expôs uma proximidade perigosa para quem deveria zelar pela transparência.
A viagem a Orlando ao lado de um lobista investigado expôs uma proximidade perigosa para quem deveria zelar pela transparência
Além disso, emprega no seu gabinete dois parentes do homem acusado de cobrar propina de empresários do setor. Ainda assim, escapou de qualquer consequência no Conselho de Ética.
Como se não bastasse, passou a recorrer a expedientes mais perigosos: o uso de informações falsas para embasar requerimentos e ataques políticos.
Foi o caso da tentativa de atingir a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, ao pedir a convocação de uma ex-assessora sem qualquer indício. Acabou repreendida duramente pelo relator da CPI do Crime Organizado.
Na semana passada, ultrapassou todos os limites morais, que balizam a conduta humana. Ao lado do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), acusou o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar (PL-AL), de estupro de vulnerável, sem apresentar uma única prova consistente.
Soraya ainda cometeu o despropósito de inverter o ônus da prova, atribuindo-o à vítima — no caso, o parlamentar alagoano — ao afirmar que caberia a ele realizar exame de DNA para comprovar a própria inocência.
Soraya emprega no seu gabinete dois parentes do homem acusado de cobrar propina de empresários do setor
Não se trata de retórica inflamada, mas de acusação que destrói reputações e, quando leviana, figura entre as práticas mais abjetas da política.
A farsa não resistiu ao primeiro teste. Em poucas horas, Alfredo Gaspar desmontou a acusação com fatos, documentos e cronologia, expondo o uso de informações distorcidas. O constrangimento foi imediato, mas insuficiente diante da gravidade do ato.
O problema não é apenas individual. É institucional. Permitir esse tipo de prática é aceitar que o Congresso mergulhe no descrédito e normalize o vale-tudo como método político.
Soraya Thronicke não apenas falhou como representante de Mato Grosso do Sul. Tornou-se símbolo da banalização da verdade, do uso irresponsável do poder e do desprezo pelos limites da convivência democrática.
Não se trata de retórica inflamada, mas de acusação que destrói reputações
Diante disso, não há espaço para contemporização. A permanência de Soraya no cargo, após episódio dessa gravidade, afronta o sentido de responsabilidade pública. O mesmo vale para Lindbergh Farias, seu parceiro na acusação.
Ou o Congresso reage e impõe as consequências cabíveis, ou assumirá que abriu mão de qualquer compromisso com a ética.
Soraya Thronicke foi um erro do eleitor sul-mato-grossense. Um erro grave, com consequências à altura do mandato que ocupa.
E erros assim não se administram — se corrigem. Seja pela cassação, única penalidade à altura do seu crime, seja pelo voto.

