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ELEIÇÕES DF 2026 - Quem pode explicar o eleitor e o resultado das urnas

Votações de Daniel Radar e Carlos Tabanez desafiam previsões, estruturas de campanha e expectativas construídas ao longo da eleição

Foto: Satélite Notícias com auxilio de IA

Por Celso Alonso | BRASÍLIA 04/10/2026

O primeiro turno das eleições terminou deixando uma pergunta que nenhuma pesquisa, planilha de campanha ou reunião de estrategistas conseguiu responder completamente: quem, afinal, consegue explicar o eleitor na hora em que ele entra na cabine de votação?

A eleição no Distrito Federal produziu resultados que surpreenderam candidatos, coordenadores de campanha e até grupos políticos que chegaram ao domingo da votação convencidos de que determinados nomes tinham uma vaga praticamente encaminhada. Em alguns casos, a diferença entre a expectativa e o resultado foi tão grande que obrigou equipes a refazer contas e tentar identificar onde a estratégia deixou de funcionar.

Dois casos chamam especialmente a atenção: os de Daniel Radar (AVANTE), de Santa Maria, e do empresário Carlos Tabanez (MOBILIZA). Ambos chegaram à eleição com trajetórias eleitorais conhecidas, redes políticas estruturadas e expectativas superiores aos números finalmente registrados nas urnas.

Daniel Radar - Foto: Reprodução Instagram

Radar: de votação expressiva a uma nova suplência

Daniel Radar construiu sua trajetória política a partir de uma característica que, em princípio, parecia ser uma de suas maiores forças: a presença direta junto ao eleitor.

Em 2018, quando disputou pela primeira vez uma vaga de deputado distrital, Radar apareceu praticamente sozinho na campanha. Um dos símbolos daquela candidatura era uma faixa colocada na entrada de Santa Maria, cidade satélite do Distrito Federal, onde o candidato permanecia diariamente debaixo de sol e chuva, nos horários de maior movimento, cumprimentando eleitores e divulgando seu nome e número.

O resultado surpreendeu. Foram 12.208 votos, uma votação expressiva para uma candidatura sem qualquer estrutura bastante, limitada e concentrada essencialmente na região de Santa Maria.

Quatro anos depois, em 2022, Radar voltou às urnas e manteve uma votação semelhante. Foram 11.739 votos, demonstrando que seu nome possuía uma base eleitoral relativamente consolidada.

A expectativa para 2026, portanto, era de crescimento e o cenário parecia ainda mais favorável. Radar passou a contar com uma campanha mais estruturada, recursos financeiros, equipe de rua, cabos eleitorais e apoio de lideranças políticas de peso, entre os quais do ex-governador José Roberto Arruda (PSD). Seu nome circulava por diferentes regiões do Distrito Federal e havia expectativa de que a ampliação territorial da campanha pudesse transformar sua base tradicional em uma votação suficiente para garantir o mandato.

A urna, entretanto, contou outra história e Radar terminou a eleição com 10.837 votos, correspondentes a 0,64% dos votos válidos, novamente ficando na condição de suplente e o resultado representa uma redução em relação às duas eleições anteriores, justamente quando a estrutura de campanha era significativamente menor.

A pergunta inevitável é: por que uma candidatura que aparentemente ampliou sua estrutura não conseguiu transformar essa estrutura em votos?

Carlos Tabanez - Foto: Satélite Notícias

O caso de Carlos Tabanez talvez seja ainda mais difícil de explicar, ficando conhecido como "o crescimento que não chegou às urnas."

Empresário conhecido por trabalhos sociais desenvolvidos junto a comunidades de baixa renda, Tabanez vinha apresentando crescimento consistente em suas sucessivas disputas eleitorais.

Em 2018, recebeu 8.078 votos. Em 2022, praticamente dobrou sua votação, chegando a 14.523 votos e conquistando a condição de suplente de deputado distrital, quando ocupou a cadeira por 17 dias e supreendeu ao apresentar vários projetos de relevancia para a população do Distrito Federal. Muitos posteriormente se tornaram leis.

O desempenho chamou a atenção do meio político. Tabanez passou a ser procurado por diferentes grupos e legendas e acabou escolhendo o Mobiliza para disputar novamente uma cadeira na Câmara Legislativa.

A matemática eleitoral, até então, parecia favorável e havia crescimento, reconhecimento do nome, atuação social, presença em diferentes regiões e uma expectativa de que a terceira tentativa pudesse finalmente resultar em uma eleição.

Mas a votação de 2026 foi na direção oposta e Tabanez recebeu apenas 5.715 votos, o equivalente a 0,34% dos votos válidos. Em comparação com 2022, perdeu mais da metade da votação conquistada quatro anos antes.

O resultado foi ainda mais surpreendente porque a campanha havia ampliado sua presença territorial e contado com uma estrutura maior, incluindo recursos, estratégias de comunicação e uma quantidade significativa de cabos eleitorais, além do apoio irrestrito de autoridade políticas do meio político do DF e região.

O candidato que chegou à campanha sendo apontado por muitos como um dos nomes com potencial para puxar votos da legenda terminou atrás de expectativas e de companheiros de chapa que, em determinado momento, não eram considerados os principais concorrentes internos.

Os dois casos levantam uma discussão que vai muito além das candidaturas individuais. Uma campanha eleitoral pode ter dinheiro, equipe, material gráfico, presença nas ruas, redes sociais, lideranças políticas e cabos eleitorais. Nada disso, entretanto, garante que o eleitor depositará o voto na urna.

O eleitor pode ouvir um candidato durante meses e, no momento decisivo, escolher outro nome, pode acompanhar uma liderança política e não seguir sua indicação, pode declarar simpatia por determinado candidato e votar em outro e pode até mesmo mudar sua escolha nos últimos dias ou nas últimas horas da campanha. É justamente aí que reside uma das maiores dificuldades das campanhas modernas: transformar visibilidade em voto efetivo.

Depois do resultado, uma das discussões que começaram a aparecer entre grupos ligados às duas campanhas envolve o desempenho dos cabos eleitorais.

A hipótese levantada é que parte da estrutura montada não teria produzido o resultado esperado. Em outras palavras, teria existido uma distância entre o tamanho da equipe contratada ou mobilizada e sua capacidade real de convencer eleitores.

É uma possibilidade que precisará ser analisada com cuidado, pois afinal, uma campanha pode contabilizar centenas de pessoas trabalhando e, ainda assim, não alcançar o eleitor necessário. O número de cabos eleitorais, por si só, não revela quantos votos efetivamente foram conquistados.

Também é possível que tenha ocorrido o contrário: os candidatos tinham nomes suficientemente conhecidos para obter uma votação relevante mesmo sem uma grande estrutura, mas a ampliação da campanha acabou não alcançando novos eleitores na proporção esperada.

Os resultados de Radar e Tabanez também colocam em xeque uma velha lógica eleitoral: a de que um candidato conhecido, com histórico de votação e boa relação política, necessariamente tende a crescer de uma eleição para outra. Radar tinha duas eleições anteriores acima de 11 mil votos e Tabanez havia saltado de 8.078 para 14.523 votos. Em uma leitura convencional, os dois poderiam ser classificados como candidatos competitivos, mas eleição não é uma linha reta.

O comportamento do eleitor muda, novas lideranças surgem, partidos alteram suas estratégias, candidatos dividem suas antigas bases, campanhas majoritárias influenciam a disputa proporcional e fatores nacionais ou locais podem modificar completamente o ambiente eleitoral.

Talvez a explicação mais simples seja também a mais difícil de aceitar pelas campanhas: o eleitor não pertence a ninguém, ou seja, figura que ninguém consegue controlar. Ele pode acompanhar um candidato durante anos e não votar nele, pode receber material de campanha, conversar com cabos eleitorais, participar de eventos, declarar apoio e, ainda assim, apertar outro número na urna. Também pode ocorrer o fenômeno inverso: um candidato aparentemente pequeno cresce silenciosamente e aparece com uma votação que não estava prevista pelas estruturas tradicionais.

É por isso que, depois da apuração, começam as explicações, aonde uns apontam as pesquisas. Outros culpam a comunicação. Há quem responsabilize cabos eleitorais, partidos, falta de mobilização, excesso de confiança ou mudanças de última hora. Mas talvez nenhuma dessas respostas, isoladamente, consiga explicar tudo.

No fim, a única pesquisa que não admite margem de erro é a urna. Daniel Radar tinha 12.208 votos em 2018, caiu para 11.739 em 2022 e chegou a 10.837 em 2026 e Carlos Tabanez saiu de 8.078 votos em 2018, avançou para 14.523 em 2022 e despencou para 5.715 em 2026. Os números estão registrados. O que ainda não está claro é o caminho que levou até eles, e talvez seja justamente essa a maior lição deixada pelo primeiro turno: não existe estrutura capaz de garantir o voto que o eleitor decidiu não entregar.

Agora, cabe às equipes de Radar e Tabanez olhar para os números sem paixão, comparar mapas de votação, identificar onde as bases cresceram ou encolheram, confrontar os investimentos realizados com os resultados obtidos e, principalmente, descobrir se houve erro de estratégia — ou simplesmente uma mudança silenciosa na vontade do eleitor.

Porque, no fim das contas, entre aquilo que uma campanha acredita que vai acontecer e aquilo que acontece diante da urna existe um território que continua sendo difícil de decifrar, "O território do voto."

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