Município tinha representantes na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados, mas termina a eleição de 2026 sem nenhum nome diretamente ligado à cidade nos dois legislativos
Por Celso Alonso | BRASÍLIA 05/10/2026
Valparaíso de Goiás saiu das urnas de 2026 com uma derrota política que vai muito além do resultado individual de cada candidato. O município, que tinha representação direta na Assembleia Legislativa de Goiás e na Câmara dos Deputados, Dra Zeli (PSD) e Leda Borges (Republicanos), não conseguiu eleger nenhum representante próprio para a próxima legislatura.
O resultado mostrou uma combinação de divisão política, disputas internas, estratégias eleitorais questionáveis e dificuldade de construção de candidatura capaz de concentrar forças. Ao invés de transformar seu eleitorado em representação política, Valparaíso terminou a eleição pulverizando votos entre vários projetos e nenhum eleito.
Na atual legislatura, o município contava com a deputada estadual Dra. Zeli (PSD) e com a deputada federal Lêda Borges (Republicanos). As duas ficaram fora dos cargos para os quais concorreram em 2026.
O resultado deixa uma pergunta inevitável para as lideranças locais: como uma cidade com um eleitorado expressivo, 99.112 eleitores aptos a votar, e com nomes políticos consolidados termina uma eleição sem representante direto na Alego e na Câmara Federal?
Um dos principais episódios dessa disputa foi protagonizado com a entrada do ex-prefeito Pábio Mossoró (MDB) na corrida por uma vaga na Assembleia Legislativa.
Mossoró, que já havia comandado Valparaíso por dois mandatos e possui uma trajetória eleitoral consolidada no município, decidiu disputar uma cadeira na Alego. O movimento alterou o cenário que vinha sendo construído para a reeleição de Dra. Zeli. A estratégia política que se desenhou acabou levando Dra. Zeli a deixar a disputa estadual e como consolo, concorrer à Câmara dos Deputados.
O resultado, porém, não produziu o efeito esperado e Dra. Zeli recebeu apenas 21.075 votos na disputa para deputada federal não conseguindo alcançar uma cadeira. Lêda Borges, por sua vez, obteve 69.417 votos, e também terminou fora da Câmara, ficando na suplência. Talvez se a estratégia tivesse sido outra, os votos conquistados por Dra. Zeli puderiam ser tranferidos diretamente para Leda Borges, pois para conquistar a reeleição, precisava apenas mais 19.472 votos.
Na disputa estadual, Pábio Mossoró recebeu 28.212 votos em todo o estado, sendo 20.666 somente em Valparaíso. Apesar de ter sido o candidato a deputado estadual mais votado no município, terminou como suplente. Ou seja: Valparaíso conseguiu produzir uma votação municipal expressiva para seus candidatos, mas não conseguiu transformar essa força eleitoral em cadeiras.
O caso de Pábio Mossoró é emblemático. Dos 28.212 votos que recebeu em Goiás, 20.666 vieram de Valparaíso. Foi o candidato a deputado estadual mais votado da cidade, mas a votação não foi suficiente para garantir a eleição. Talvez se tivesse havido recuo em relação a candidatura de Mossoró e a base governista tivesse concentrado esforços na reeleição da Dra. Zeli, o resultado seguramente seria diferente.
Na mesma disputa municipal, outros nomes também dividiram o eleitorado. Denis Bento (Podemos), que figura entre governo e oposição dependendo do "soprar do vento", recebeu 9.676 votos em Valparaíso, enquanto outros candidatos ligados à cidade também obtiveram votações relevantes. O problema, portanto, não foi necessariamente a ausência de votos e sim uma estratégia política que funcionou apenas para prejudicar o município por meio de representatividade nos legislativos estadual e federal. Foi a incapacidade de transformar os votos existentes em representação institucional. Esse é justamente o ponto que merece ser discutido pelas lideranças políticas locais.
Para deputado federal, a situação foi ainda mais significativa. Lêda Borges, que já ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados, recebeu 69.417 votos e não conseguiu a reeleição, enquanto Maria Yvelônia (PL) alcançou 6.423 votos. Nenhuma das duas conseguiu uma vaga. O resultado representa uma perda concreta de representação para Valparaíso.
Durante anos, o município teve nomes próprios ocupando espaços em Goiânia e Brasília. Agora, terá de buscar representação por meio de parlamentares eleitos em outras cidades ou regiões.
A eleição proporcional tem regras próprias, envolvendo votação nominal, desempenho partidário e distribuição das cadeiras. Portanto, não é possível simplesmente somar os votos dos candidatos e afirmar que eles seriam automaticamente convertidos em uma vaga. Mas a dispersão eleitoral ajuda a explicar a dificuldade política enfrentada pelo município.
O resultado de Valparaíso chama ainda mais atenção quando comparado ao desempenho de municípios vizinhos do Entorno. Em Novo Gama, por exemplo, o município se uniu e conseguiu eleger Joscilene do Mangão (AGIR) para a Assembleia Legislativa, com uma votação estadual expressiva e forte concentração de votos no próprio município.
O contraste não está apenas nos números, mas na estratégia política adotada. Enquanto Valparaíso apresentou diferentes projetos disputando o mesmo eleitorado e grupo político, Novo Gama concentrou esforços em torno de uma candidatura considerada prioritária pelo grupo político do prefeito Carlinhos do Mangão.
A diferença entre os dois resultados abre espaço para uma reflexão dentro do próprio cenário político do Entorno: não basta ter nomes conhecidos, estrutura e votos; é preciso construir uma estratégia eleitoral capaz de transformar força local em representação institucional.
A vaidade política cobra seu preço e o resultado de 2026 também surge com uma velha discussão da política municipal: o excesso de projetos individuais pode enfraquecer o conjunto. Quando diferentes lideranças disputam simultaneamente os mesmos espaços, cada grupo pode sair da eleição com a sensação de ter preservado sua identidade, mas o município como um todo corre o risco de perder representação.
E foi justamente o que aconteceu em Valparaíso. A cidade tinha nomes conhecidos, candidatos com história política e capacidade eleitoral. Tinha uma deputada federal em busca da reeleição e uma deputada estadual que já havia conquistado seu espaço e ainda assim, terminou sem nenhum representante direto nas duas Casas.
Agora é hora de recolher os cacos. O resultado das urnas não precisa significar o fim da força política de Valparaíso. Pode, ao contrário, servir como ponto de partida para uma reorganização e será necessário rever estratégias, aproximar grupos, reduzir disputas internas e construir projetos que tenham como prioridade a representação do município. A cidade não perdeu apenas uma eleição. Perdeu, pelo menos temporariamente, dois importantes espaços de representação política: a Assembleia Legislativa e a Câmara dos Deputados.
A reconstrução dependerá da capacidade das lideranças locais de compreender a mensagem das urnas, pois o eleitorado mostrou que existe força suficiente para produzir votações expressivas. O que faltou foi transformar essa força em mandato.
Valparaíso agora terá de recolher os cacos, reorganizar suas forças políticas e decidir que tipo de projeto pretende construir para as próximas eleições, até porque, depois de perder simultaneamente seus espaços na Alego e na Câmara Federal, a cidade não pode simplesmente esperar que a representação volte por acaso. Será preciso estratégia, diálogo e capacidade de união.
