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Túmulo de Ana Lídia se torna símbolo de fé e devoção popular em Brasília

Mais de 50 anos após o assassinato da menina, aos 7 anos, sepultura no Cemitério Campo da Esperança recebe flores, cartas, brinquedos e pedidos de graças; tradição se renova a cada Dia de Finados

Foto: Hugo Barreto/Metrópoles

Por Celso Alonso | BRASÍLIA 02/11/2026

Mais de cinco décadas depois de um dos crimes que mais marcaram a história de Brasília, a memória de Ana Lídia Braga continua despertando comoção e alimentando manifestações de fé na capital federal. Assassinada aos 7 anos, em 1973, a menina se tornou símbolo de devoção popular. Seu túmulo, localizado no Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, recebe visitantes que fazem orações, acendem velas, deixam flores e relatam graças alcançadas.

Nesta segunda-feira (2/11), Dia de Finados, a sepultura voltou a receber pessoas que reservaram um momento para homenagear a menina. Para muitos visitantes, a passagem pelo jazigo já faz parte de uma tradição religiosa e familiar, mantida ao longo dos anos.

Entre as pessoas que estiveram no local estavam Esmeralda Pereira, de 65 anos, acompanhada de Graciele Pereira, de 28, e Idaiza Pereira, de 69. As três acenderam velas e fizeram orações diante do túmulo.

Esmeralda contou que a visita é um costume antigo da família e que, todos os anos, aproveita a ida ao cemitério para prestar homenagem à menina.

“ Sempre a gente vem, todos os anos. Passa aqui, acende uma vela também. E nós acendemos a vela, oramos, fazemos nossas orações”, relatou.

Neste ano, o grupo foi menor porque outros familiares não conseguiram comparecer por compromissos profissionais e problemas de saúde. Segundo Esmeralda, uma de suas irmãs também é devota de Ana Lídia e afirma ter alcançado uma graça após fazer uma promessa.

O jazigo de Ana Lídia está entre os mais visitados do Cemitério Campo da Esperança. Ao longo dos anos, o espaço passou a reunir manifestações espontâneas de religiosidade popular. Flores, fotografias, cartas, bonecas, brinquedos e placas de agradecimento são deixados por pessoas que atribuem à menina a intercessão por graças alcançadas.

Entre as homenagens está uma placa de agradecimento pela aprovação em um curso de mestrado. Os registros deixados na sepultura demonstram que a história da criança ultrapassou a lembrança de uma tragédia e passou a ocupar um lugar de destaque na fé de muitos moradores do Distrito Federal.

Embora não exista reconhecimento oficial de santidade por uma instituição religiosa, Ana Lídia é considerada santa por devotos que frequentam seu túmulo e mantêm viva essa tradição.

Foto: Arquivo

Ana Lídia Braga desapareceu na tarde de 11 de setembro de 1973, depois de ser deixada pelos pais na entrada de uma escola particular da Asa Norte, onde teria aulas de reforço.

Na ocasião, uma testemunha relatou ter visto um homem alto e loiro, vestido com blusa branca e calça verde militar, aproximar-se da menina. Segundo o depoimento, os dois deixaram o estabelecimento juntos.

O corpo da criança foi encontrado posteriormente, e o assassinato provocou grande repercussão. As circunstâncias do desaparecimento e as suspeitas levantadas durante as investigações transformaram o episódio em um dos casos criminais mais conhecidos da história do Distrito Federal.

Durante as investigações, a polícia apontou Álvaro Henrique Braga, irmão de Ana Lídia, então com 18 anos, como um dos principais suspeitos. Também foi investigado Raimundo Lacerda Duque, que trabalhava no mesmo local que a mãe da menina.

A apuração considerou diferentes hipóteses, incluindo possíveis ligações com drogas e dívidas. Álvaro negou participação no crime, assim como seus familiares, que sempre defenderam sua inocência.

Em 16 de junho de 1975, os dois principais acusados foram absolvidos por falta de provas, depois de permanecerem presos por mais de um ano.

Em 1985, o processo foi reaberto após o surgimento de novas informações. Entretanto, as investigações não avançaram e o caso acabou encerrado novamente sem identificação judicial dos responsáveis.

O crime prescreveu em 11 de setembro de 1993, vinte anos depois do desaparecimento da menina.

Raimundo Lacerda Duque morreu em 2005. O pai de Ana Lídia, Álvaro Braga, morreu em 2011, no Rio de Janeiro. Já o irmão da menina, Álvaro Henrique Braga, morreu em 25 de novembro de 2025, também no Rio, onde trabalhava como médico desde 1983.

Mesmo sem uma solução judicial para o assassinato, a história de Ana Lídia permanece presente na memória coletiva de Brasília. A devoção em torno de seu túmulo é renovada por visitantes que encontram no local um espaço de oração, esperança e agradecimento.

No Dia de Finados, enquanto milhares de pessoas percorrem os cemitérios do Distrito Federal para homenagear familiares e amigos falecidos, a sepultura da menina continua atraindo devotos que transformaram a lembrança de uma vida interrompida precocemente em uma tradição de fé popular.

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