Desfile vira palco político na Sapucaí: Acadêmicos de Niterói homenageia Luiz Inácio, faz alusões pejorativas a Bolsonaro e cita Janja da Silva em pleno ano eleitoral. Oposição afirma que acionará o TSE a fim de apurar possíveis crimes eleitorais patrocinados com dinheiro público
Divulgação/ @emerson_pereira_vieira
Por Celso Alonso
O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, neste domingo (15), provocou forte reação e indignação ao extrapolar os limites culturais do Carnaval e assumir contornos claros de ato político-partidário em pleno ano eleitoral. A homenagem explícita ao presidente Luiz Inácio, com referências diretas ao PT, ao número de urna do partido e ataques a adversários, é vista como propaganda eleitoral antecipada custeada, em parte, com recursos públicos.
O samba-enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” transformou a avenida em um palanque, com gritos tradicionais da militância petista, menções reiteradas ao número 13 e alegorias que reforçaram uma narrativa político-eleitoral. Em uma das cenas mais controversas do desfile, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi ridicularizado, representado de forma caricata e depreciativa, como um palhaço preso, com tornozeleira eletrônica, em evidente tentativa de desmoralização política.
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Dilson Silva/ Agnews
Também gerou forte repúdio a participação simbólica da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. Embora não tenha desfilado oficialmente, sua presença foi anunciada, citada no samba-enredo e explorada como elemento de exaltação política. Para críticos, o simples fato de a primeira-dama ser integrada à narrativa alegórica reforça o caráter eleitoral do desfile e a confusão deliberada entre Estado, governo e campanha.
Especialistas em direito eleitoral apontam que o episódio pode envolver uma série de supostas irregularidades graves: propaganda eleitoral antecipada, uso indevido de recursos públicos, promoção pessoal de agente público, abuso de poder político e econômico e violação do princípio da impessoalidade. Dependendo da interpretação da Justiça Eleitoral, tais práticas podem, em tese, levar a sanções severas, inclusive à inelegibilidade do presidente, nos termos da legislação vigente.
O caso se torna ainda mais sensível diante da informação de que o desfile contou com recursos públicos. Em 2026, o governo federal destinou cerca R$ 1 milhão, por meio da Embratur, para a Acadêmicos de Niterói. O TCU já havia sinalizado contrario ao repasse, mas o recurso foi garantido pela estatal, após garantias do governo petista. O uso dessa verba em um espetáculo que promove um governante e seu partido, em ano eleitoral, levanta sérias dúvidas sobre desvio de finalidade e afronta direta à legislação eleitoral.
Para a oposição, o episódio representa um marco perigoso: a instrumentalização de uma das maiores manifestações culturais do país para fins políticos, com dinheiro público, sob os holofotes do poder e promete acionar o TSE para cobrar daquela Corte, apuração de possíveis crimes eleitorais cometidos durante o desfile da Acadêmicos de Niterói, patrocinado com recursos públicos. Em vez de celebrar a diversidade e a cultura popular, o desfile acabou aprofundando a polarização e colocando em xeque a lisura do processo democrático.
O Carnaval, que deveria ser espaço de arte e alegria, terminou a noite envolto em denúncias, questionamentos jurídicos e um debate inevitável: até que ponto o uso da máquina pública e de eventos culturais para autopromoção política pode avançar sem consequências legais?
