Por Celso Alonso
O governo de Luiz Inácio decidiu vestir a fantasia de guardião da legalidade no Carnaval ao divulgar um manual de conduta para autoridades federais. O argumento oficial é evitar propaganda eleitoral antecipada e preservar a moralidade administrativa. O discurso, porém, perde sustentação quando confrontado com a prática: enquanto impõe limites a ministros e auxiliares, o próprio presidente aceita ser transformado em enredo, alegoria e símbolo político no maior palco do país, patrocinado com recursos públicos.
As recomendações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência pregam cautela, respeito à legislação eleitoral e observância rigorosa dos princípios éticos. No papel, o governo promete rigor institucional. Na prática, autoriza um desfile inteiro dedicado à exaltação pessoal do chefe do Executivo, esvaziando qualquer pretensão de coerência e reforçando a percepção de dois pesos e duas medidas, sob a bagatela de patrocínio via Embratur no montante de mais de R$ 1 milhão.
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A tentativa de impedir que ministros participem do desfile da Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, soa mais como encenação burocrática do que como medida efetiva. O problema nunca foi a presença de auxiliares na avenida, mas o fato de o próprio chefe do Executivo ser o homenageado central, com sua trajetória política transformada em espetáculo público em pleno ano eleitoral.
Para completar o roteiro da contradição, o Planalto ainda tenta sustentar a tese de que Luiz Inácio pode nem comparecer fisicamente ao desfile, como se isso resolvesse o impasse. Mesmo ausente, o presidente petista estará amplamente representado por figuras de peso do Partido dos Trabalhadores e pela primeira-dama Janja da Silva, que, por si só, já exerce o papel simbólico de representar o chefe do Executivo. O marketing político, portanto, permanece intacto: muda-se o ator principal no camarote, mas o enredo de exaltação segue exatamente o mesmo.
Essa ausência calculada não elimina o caráter de propaganda antecipada; apenas tenta conferir verniz técnico a uma operação política escancarada. Luiz Inácio não precisa pisar na avenida para capitalizar politicamente o desfile. Basta permitir que aliados e a própria primeira-dama ocupem esse espaço, reforçando sua imagem e seu legado diante das câmeras e do público.
No fim das contas, não há subterfúgio possível: todo o desfile funciona como uma vitrine do presidente. Do samba-enredo às alegorias, da narrativa heroica à ocupação simbólica do espaço por aliados, tudo converge para a promoção de Luiz Inácio. Trata-se de autopromoção política disfarçada de manifestação cultural, com recursos públicos direta ou indiretamente envolvidos e um ritmo eleitoralmente conveniente.
Homenagem à Lula poder virar fracasso e inelegibilidade - Reprodução Instagram
Nas redes sociais, a reação foi imediata e corrosiva. O evento já virou chacota aberta, com milhares de publicações ironizando a homenagem e rebatizando o espetáculo como “desfile da corrupção”. Circulam jingles satíricos, memes e imagens produzidas por inteligência artificial que associam o enredo a escândalos do passado e à contradição entre discurso ético e prática política. Longe de gerar comoção positiva, a repercussão digital reforça a insatisfação do público e amplia o desgaste da imagem presidencial fora da bolha governista. Vale ressaltar que Luiz Inácio, mesmo ausente, corre o risco de receber uma salva de vaias durante o desfile, em rede nacional.
Nos bastidores de Brasília, o alerta já está aceso. Integrantes da oposição, aliados políticos desconfortáveis e até autoridades do Judiciário avaliam que o episódio pode, sim, caracterizar propaganda eleitoral antecipada, mesmo sem a presença física do presidente. A leitura é de que a exaltação explícita de Luiz Inácio, em ano eleitoral e com ampla exposição midiática, pode configurar infração grave da legislação, com potencial enquadramento como crime eleitoral e até risco de inelegibilidade. A oposição promete não deixar o caso passar em branco, sobretudo diante da expectativa de mudança no comando do Tribunal Superior Eleitoral a partir de 4 de junho, quando Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Jair Bolsonaro, deverão estar à frente da Corte responsável pelas eleições de 2026 e pela coerência demonstrada até o momento, não permitirão qualquer ilegalidade no processo eleitoral.
Há ainda um ponto que a oposição faz questão de sublinhar para escancarar a contradição institucional. O TSE, por muito menos, condenou Jair Bolsonaro à inelegibilidade em razão de um ato cívico realizado em 7 de setembro, data oficial do calendário nacional, sem pedido algum de voto ou ação eleitoral clássica. Bolsonaro não convidou o público, não fez discurso eleitoreiro e assim, não se promoveu politicamente. Muito pelo contrário, o público em um gesto de civilidade lotou a esplanada dos ministérios, com aproximadamente 1 milhão de pessoas e celebrou a data, ao contrário dos últimos eventos cívicos da pátria, organizados pelo governo petista, que não chegaram a reunir, juntos, nas suas três edições, um décimo desse público. Mesmo assim, à época, a Corte adotou postura de máxima rigidez, sob o comando de Alexandre de Moraes, deixando claro que qualquer gesto interpretado como político poderia ser enquadrado como abuso, e com isso Bolsonaro foi condenado. Agora, diante de um desfile inteiro dedicado à exaltação de Luiz Inácio, em pleno ano eleitoral e com ampla exposição midiática, a cobrança é inevitável: será que o tribunal aplicará o mesmo rigor ou a régua mudará conforme o personagem?
Homenagem à Lula poder virar fracasso e inelegibilidade - Reprodução Instagram
As recomendações adotadas pela comissão montada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom-PR) foram:
- A recomendação para recusar convites de empresas com fins lucrativos quando houver potencial conflito de interesses com a administração federal, especialmente em casos ligados a decisões regulatórias, contratações diretas ou políticas públicas sob responsabilidade dos órgãos envolvidos.
- Proibição de receber diárias ou passagens para participação em eventos de caráter exclusivamente privado. “Mesmo nas atividades de cunho estritamente pessoal, não se afasta o dever de observância aos princípios e normas de regência da ética e da moralidade administrativas”, diz a Secom.
- Determinação de que compromissos de natureza institucional realizados durante o Carnaval sejam devidamente registrados no sistema e-Agendas.
- Recomendação para que, em festas, eventos ou programações culturais, autoridades evitem manifestações que possam ser interpretadas como propaganda eleitoral antecipada, como pedidos explícitos de voto ou divulgação de conteúdo eleitoral.
Na teoria, o discurso é impecável, embalado por palavras como legalidade, ética e respeito às regras. Na prática, porém, o que prevalece é aquilo que determina Luiz Inácio. A lógica é simples e conhecida: vale o que beneficia o projeto de poder. A autoproclamação se impõe como método, aos aliados, complacência e exceções; aos adversários, rigor máximo e punição exemplar. O resultado é um sistema em que as normas existem, mas sua aplicação depende de quem está no centro do palco.
No encerramento desse enredo, o samba perde o tom festivo e assume contornos jurídicos e políticos explosivos. Ao permitir que o carnaval se transforme em palco de exaltação pessoal, Luiz Inácio assume o risco de ver a festa virar prova, a homenagem virar denúncia e o aplauso virar questionamento judicial. Se, para o governo, tudo não passa de “manifestação cultural”, para adversários e juristas o desfile pode marcar o início de uma disputa que não terminará na avenida, mas nos tribunais, e cujas consequências podem ir muito além da folia.
