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Jantar de Luiz Inácio com ministros do STF sinaliza blindagem no caso Banco Master e escancara omissão da Corte

Jantar reservado escancara influência presidencial, intimidação institucional e a erosão da independência entre os Poderes


Por Celso Alonso

O encontro reservado promovido por Luiz Inácio com ministros do Supremo Tribunal Federal, na Granja do Torto, não pode ser analisado isoladamente nem tratado como mera cordialidade institucional. O jantar ocorre em meio ao escândalo do Banco Master, a contratos milionários envolvendo familiares de ministros e a uma sequência de silêncios estratégicos da Corte, combinação que reforça a percepção de tutela política e proteção mútua entre o Planalto e o STF.

Ao alertar magistrados sobre o “desgaste” da imagem do Supremo e defender cautela nas decisões, Luiz Inácio não apenas comentou o ambiente político: atuou como gestor de crise de um Judiciário sob suspeita. O gesto ganha contornos ainda mais graves quando se observa o que ficou fora do discurso público, mas presente no contexto: o caso Banco Master e sua teia de relações políticas, financeiras e institucionais.

Luiz Inácio evitou citar diretamente o contrato de R$ 129 milhões firmado entre o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes e o Banco Master, assim como o papel do ministro Dias Toffoli em processos ligados à instituição. O silêncio não é acidental. Trata-se de um escândalo que expõe conflitos de interesse evidentes e que, até agora, não recebeu do STF a resposta institucional que a gravidade do caso exige.

Em vez de cobrar explicações públicas, transparência ou medidas concretas, Luiz Inácio optou por alertar os próprios ministros sobre os riscos da exposição excessiva. O recado implícito é claro: o problema não estaria nos fatos, mas na repercussão; não nas condutas, mas no desgaste de imagem. Assim, a narrativa oficial desloca o foco da responsabilidade para a comunicação, transformando suspeitas graves em um problema de “timing”.

A sugestão feita pelo presidente para que os ministros “conversem” com Dias Toffoli, um dos mais criticados no caso, é reveladora. Ao agir como mediador informal de uma crise interna do STF, Luiz Inácio demonstra conhecer em profundidade as fragilidades da Corte e, mais do que isso, se coloca como articulador político de uma solução que deveria ser jurídica, transparente e institucional.

O elo entre o jantar e o Banco Master se fortalece ainda mais quando Luiz Inácio elogia a atuação do Banco Central na liquidação da instituição, mas ignora completamente o comportamento do Supremo. Enquanto o BC agiu de forma técnica e objetiva, o STF permanece em silêncio constrangedor diante de contratos, viagens, relações pessoais e decisões judiciais que levantam questionamentos legítimos da sociedade.

A resistência de Luiz Inácio à adoção de um código de ética para o STF reforça essa blindagem. Ao criticar o momento da proposta e sua repercussão pública, o presidente sinaliza desconforto com qualquer iniciativa que imponha regras claras, limites objetivos e mecanismos de controle sobre ministros diretamente envolvidos ou indiretamente afetados pelo escândalo do Banco Master. O resultado é a manutenção de uma zona cinzenta conveniente para todos os lados.

O jantar, portanto, não foi apenas um gesto político: foi parte de uma estratégia de contenção de danos. Luiz Inácio atua para preservar a estabilidade de um arranjo no qual o STF tem sido peça-chave para o governo, seja em decisões sensíveis, seja na contenção de crises. Em troca, o Supremo parece operar sob uma lógica de autoproteção, evitando enfrentar de forma transparente episódios que comprometem sua credibilidade.

Para a opinião pública, a mensagem é inequívoca. O encontro não transmite preocupação com a ética ou com a independência entre os Poderes, mas com a preservação de um sistema de proteção recíproca. Ao “alertar” ministros em vez de cobrar esclarecimentos, Luiz Inácio reforça a percepção de que o caso Banco Master não é tratado como escândalo institucional, mas como um problema político a ser administrado nos bastidores.

Nesse contexto, o STF deixa de cumprir seu papel de guardião da Constituição para assumir uma postura defensiva, silenciosa e alinhada ao Planalto. E quando a Suprema Corte se omite diante de indícios graves envolvendo seus próprios integrantes, o desgaste não é apenas de imagem, é de legitimidade.

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