Um relatório divulgado pelo Monitor do Debate Político da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e a organização More in Common trouxe um número que rapidamente gerou controvérsia: segundo o estudo, 20,4 mil pessoas participaram da manifestação convocada por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (1º).
A estimativa considera uma margem de erro de 12%, o que colocaria o público entre 18 mil e 22,9 mil pessoas no horário de pico, às 15h53. Ainda assim, o número tem sido questionado por manifestantes e organizadores, que sustentam que a concentração superou facilmente a marca de 200 mil participantes.
Metodologia sob questionamento
O relatório informa que a contagem foi feita a partir de imagens aéreas captadas por drone em cinco horários distintos (13h58, 14h40, 15h16, 15h53 e 16h35), sendo oito fotos do horário de maior concentração analisadas com auxílio do sistema Point to Point Network (P2PNet).
O método, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Chequião, na China, em parceria com a empresa Tencent, utiliza inteligência artificial para identificar e marcar automaticamente as cabeças das pessoas nas imagens, realizando a contagem por meio de pontos detectados.
Segundo os autores, o software apresenta precisão de 72,9% e acurácia de 69,5% na identificação individual, com erro percentual absoluto médio de 12% para grupos superiores a 500 pessoas.
É justamente nesse ponto que surgem as principais críticas. Especialistas independentes e participantes do ato questionam como um sistema que admite níveis de precisão inferiores a 75% pode gerar uma estimativa considerada definitiva em um evento de grande escala, com dinâmica de fluxo constante de pessoas.
Outro ponto levantado é a limitação temporal da análise: embora a manifestação tenha se estendido por várias horas e ocupado longos trechos da Avenida Paulista, a estimativa se baseia em registros pontuais, o que pode não refletir o total acumulado de participantes ao longo do dia.
Além disso, imagens divulgadas nas redes sociais mostram a via completamente tomada por manifestantes, cenário que, para muitos presentes, não condiz com uma concentração inferior a 25 mil pessoas. Comparações com eventos anteriores na mesma avenida, que oficialmente superaram a marca de centenas de milhares de participantes, também alimentam a desconfiança.
A divulgação do relatório reacende uma discussão recorrente no Brasil: a falta de um padrão único e amplamente auditável para estimativas de público em grandes manifestações. Enquanto órgãos de segurança, organizadores e institutos independentes frequentemente apresentam números divergentes, a sociedade permanece diante de estimativas que variam drasticamente.
No caso específico do ato na Paulista, a distância entre a estimativa de 20,4 mil pessoas e a percepção de centenas de milhares cria um abismo que vai além da matemática, envolve credibilidade, metodologia e confiança institucional.
O episódio reforça a necessidade de maior transparência nos critérios adotados e de auditorias independentes que permitam confrontar métodos tecnológicos com análises técnicas presenciais. Afinal, em um ambiente político já polarizado, números também se tornam instrumentos de narrativa.
