Encontro entre presidente e Daniel Vorcaro ocorreu em dezembro de 2024 e teve participação de ministros e de Gabriel Galípolo, futuro chefe do Banco Central
Por Celso Alonso
Uma reunião realizada no Palácio do Planalto, no fim de 2024, colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro das discussões envolvendo o futuro do Banco Master. Segundo informações divulgadas neste domingo, Lula teria aconselhado o banqueiro Daniel Vorcaro a não aceitar uma proposta de venda da instituição ao BTG Pactual por valor simbólico.
O encontro aconteceu em 4 de dezembro de 2024. Na ocasião, Vorcaro buscava orientação diante das dificuldades enfrentadas pelo banco e das pressões do mercado financeiro. De acordo com os relatos, o empresário afirmou ao presidente que o BTG, controlado por André Esteves, demonstrava interesse em adquirir o Master por apenas R$ 1.
Durante a conversa, Lula teria reagido de forma crítica ao então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, cujo mandato estava próximo do fim. O presidente também teria feito ressalvas à atuação dos grandes bancos privados no país e demonstrado simpatia pelo discurso de Vorcaro sobre redução da concentração bancária no sistema financeiro brasileiro.
Participaram da reunião nomes de peso do governo federal, entre eles Rui Costa, Alexandre Silveira e Gabriel Galípolo, que assumiria oficialmente o comando do Banco Central em janeiro de 2025. Também esteve presente Augusto Lima, então executivo do Banco Master e um dos responsáveis pela expansão da instituição no mercado de crédito consignado.
Segundo as informações divulgadas, Lula aconselhou Vorcaro a manter o Banco Master em operação e indicou que a troca no comando do Banco Central poderia criar um ambiente mais favorável para a continuidade do negócio. A presença de Galípolo no encontro teria sido interpretada por Vorcaro como um sinal positivo para seguir adiante com o banco.
Os bastidores revelam ainda que o governo acompanhava com atenção as movimentações do sistema financeiro. Naquele período, o Planalto demonstrava incômodo com declarações de André Esteves sobre a política econômica e cenários eleitorais futuros, o que teria ampliado o distanciamento entre o governo petista e setores tradicionais do mercado financeiro.
As informações também mostram um aumento expressivo de reuniões entre representantes do Banco Master e o Banco Central após a chegada de Gabriel Galípolo à presidência da autoridade monetária. Dados apontam que, entre 2019 e 2024, durante a gestão de Roberto Campos Neto, ocorreram 24 encontros presenciais entre o Master e o BC. Já nos primeiros 11 meses da nova gestão, esse número saltou para 41 reuniões.
Na época do encontro no Planalto, o mercado já demonstrava preocupação com a saúde financeira do Banco Master, especialmente por causa da emissão de CDBs com rentabilidade acima da média praticada por outras instituições. Ainda assim, Vorcaro defendia que o banco sofria resistência justamente por tentar ampliar a concorrência no setor bancário nacional.
Após a conversa com Lula, o empresário desistiu momentaneamente da negociação com o BTG e avançou nas tratativas com o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. O acordo chegou a ser anunciado em março de 2025, mas enfrentou forte resistência do mercado e acabou barrado posteriormente pelo Banco Central.
Mensagens encontradas pela Polícia Federal e divulgadas pela imprensa mostram, no entanto, que Vorcaro voltou a discutir internamente a possibilidade de venda ao BTG meses depois, diante das dificuldades para concretizar a operação com o BRB. As conversas indicam que o banqueiro buscava alternativas para evitar o agravamento da situação financeira do Master.
O episódio expõe os bastidores das relações entre governo, mercado financeiro e instituições bancárias em um momento de forte tensão econômica e política, além de levantar questionamentos sobre a influência de articulações políticas em negociações envolvendo o sistema financeiro nacional.
