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"Geleira do apocalipse" está perto de quebrar, indicam estudos

Rachaduras aceleradas na Antártida reforçam temor de avanço irreversível do gelo rumo ao oceano


A rápida perda de gelo ancorado na geleira Hektoria é visível nessas imagens adquiridas em outubro de 2022 (esquerda) e março de 2024 (direita) com o OLI (Operational Land Imager) do Landsat 8. A geleira recuou 8 quilômetros entre novembro e dezembro de 2022, após ter perdido uma seção de gelo flutuante de 16 quilômetros de extensão no início daquele ano — Foto: Imagens do Observatório da Terra da NASA por Lauren Dauphin, usando dados do Landsat do Serviço Geológico dos Estados Unidos

A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, está entrando em uma nova fase de instabilidade que pode acelerar ainda mais a elevação do nível do mar nas próximas décadas. Imagens recentes de satélite revelam que a plataforma de gelo flutuante que ajuda a conter a geleira apresenta fraturas profundas e sinais claros de ruptura iminente.

Conhecida como “geleira do apocalipse”, a Thwaites já responde por cerca de 4% da elevação global dos oceanos. O temor dos cientistas é que o enfraquecimento contínuo da estrutura desencadeie um efeito dominó sobre parte da camada de gelo, contribuindo futuramente para um aumento de até 3,3 metros no nível do mar.

Plataforma perdeu capacidade de conter o gelo

A principal preocupação dos glaciologistas envolve a Plataforma de Gelo Oriental de Thwaites (TEIS), uma massa flutuante de cerca de 1.500 km² que atua como uma barreira natural, desacelerando o fluxo do gelo continental em direção ao oceano.

Especialistas afirmam que a estrutura sofreu mudanças drásticas nos últimos anos. Fissuras gigantes passaram a cortar a plataforma, principalmente próximas aos pontos de ancoragem submarinos que antes ajudavam a estabilizar o gelo. Pesquisadores relatam que a velocidade do fluxo da plataforma triplicou desde 2020 e continua aumentando rapidamente.

De acordo com os cientistas, o processo é resultado da combinação entre águas oceânicas mais quentes — que afinam a base da plataforma — e alterações na dinâmica do próprio fluxo glacial. O gelo, antes espesso e relativamente estável, tornou-se mais fino, frágil e vulnerável à fragmentação.

Por mais que seja impossível prever exatamente quando ocorrerá o rompimento definitivo, pesquisadores compararam esse tipo de colapso à dificuldade de antecipar terremotos: os sinais de instabilidade são claros, mas o momento exato permanece imprevisível.

Impacto deve crescer ao longo das próximas décadas

Para os especialistas, o ponto central não é o desprendimento visual de icebergs, mas a perda da capacidade de sustentação exercida pela plataforma de gelo. Sem essa contenção, a geleira tende a acelerar seu avanço em direção ao oceano.

Estudos citados pela revista New Scientist, que passam por revisão por pares e aguardam para serem publicados, indicam que o fluxo de gelo anteriormente estabilizado pela TEIS aumentou cerca de 33% entre 2020 e 2026, sinalizando que a plataforma praticamente deixou de exercer sua função de freio natural.

As consequências desse processo devem ocorrer de forma gradual, mas persistente. Projeções apontam que a Thwaites poderá perder cerca de 190 gigatoneladas de gelo por ano até 2067 — volume aproximadamente 30% superior ao atual.

Os pesquisadores ressaltam que o avanço do nível do mar associado à geleira não representa uma ameaça imediata, mas um processo cumulativo que poderá afetar cidades costeiras e alterar litorais em diferentes regiões do planeta ao longo das próximas décadas.

Colapso de outra geleira preocupa cientistas

Os alertas em torno da Thwaites ganharam força após um episódio recente envolvendo a geleira Hektoria, na Península Antártica. Segundo estudo publicado em 2025 na revista Nature Geoscience, a geleira sofreu um recuo extremamente rápido entre 2022 e 2023, perdendo cerca de 25 quilômetros de extensão em apenas 15 meses.

Os pesquisadores identificaram que a perda da língua de gelo flutuante que protegia a Hektoria desencadeou uma sequência de colapsos acelerados. Em um intervalo de apenas dois meses, a extremidade da geleira recuou mais de 8 km — um dos episódios mais rápidos já registrados para gelo glacial ancorado.

Segundo os cientistas, o afinamento do gelo permitiu a infiltração de água do mar sob a geleira, favorecendo um mecanismo chamado desprendimento impulsionado pela flutuabilidade. Nesse processo, grandes áreas de gelo perdem contato com a rocha subjacente e colapsam rapidamente, destaca o portal Science Daily.

Embora a Hektoria seja muito menor que a Thwaites, os pesquisadores afirmam que ela funciona como um alerta sobre o comportamento de geleiras maiores em um planeta cada vez mais quente. Para os glaciologistas, o aumento da temperatura dos oceanos e da atmosfera está acelerando a perda de estabilidade das plataformas de gelo antárticas, exatamente como previam os modelos climáticos.

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