Justiça determinou a detenção do ex-chefe de Estado horas depois de sua destituição pelo Senado; investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o Ueno Bank
Por Celso Alonso | BRASÍLIA 06/11/2026
O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña foi preso nesta sexta-feira (6), poucas horas depois de ser destituído do cargo por meio de um processo de impeachment aprovado pelo Senado paraguaio. A ordem de prisão foi expedida pelo Ministério Público, após o avanço das investigações sobre o escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank, instituição cuja crise provocou uma grave turbulência política e econômica no país.
Peña foi detido pela Polícia Nacional em sua residência, em Assunção, capital paraguaia. A medida foi determinada depois que o Senado confirmou sua saída da Presidência, retirando-lhe as garantias e a imunidade vinculadas ao exercício do cargo.
A investigação apura possíveis crimes de lesão de confiança, enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, corrupção e fraude administrativa. As acusações foram impulsionadas por denúncias de parlamentares da oposição e envolvem suspeitas de favorecimento à instituição financeira durante o governo Peña.
O caso ganhou proporções nacionais depois que o Banco Central do Paraguai determinou, em 3 de novembro, a intervenção e a resolução do Ueno Bank, após identificar graves problemas de solvência. A instituição não apresentava condições financeiras para cumprir seus compromissos, deixando milhões de clientes temporariamente sem acesso aos próprios recursos.
O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, equivalentes a cerca de R$ 4,5 bilhões. Entre os pontos investigados estão operações financeiras consideradas suspeitas, empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo controlador e possíveis irregularidades na movimentação de recursos públicos.
A ligação empresarial de Santiago Peña com o grupo financeiro também entrou na mira das autoridades. O político foi acionista da Ueno Holding, empresa relacionada ao conglomerado controlador do banco, até março de 2025.
Outro episódio que aumentou a pressão sobre o governo foi a situação de Carlos Carvallo, que presidiu o Banco Central paraguaio desde 2023 e anteriormente esteve à frente do próprio Ueno Bank. Ele também passou a ser alvo das investigações e teve sua detenção determinada.
A destituição de Peña ocorreu nesta sexta-feira, depois de uma sessão extraordinária do Senado. Os parlamentares aprovaram o impeachment por unanimidade entre os votos registrados, em um processo que avançou rapidamente diante da gravidade da crise financeira e da pressão popular.
O presidente havia anunciado sua intenção de renunciar ao cargo na quinta-feira (5), alegando que sua permanência poderia ampliar a instabilidade política e prejudicar ainda mais o país.
Entretanto, o Congresso não aceitou encerrar imediatamente o caso por meio da renúncia e decidiu dar continuidade ao julgamento político. Com a condenação, Peña perdeu a Presidência e a proteção institucional que acompanhava o mandato.
Antes da conclusão do processo de impeachment, Santiago Peña publicou uma mensagem nas redes sociais comunicando sua decisão de deixar a Presidência.
Na manifestação, afirmou que sua intenção era evitar novos prejuízos ao Paraguai e contribuir para a recuperação da estabilidade institucional.
“Apresentei minha renúncia para evitar mais danos ao país e contribuir para devolver a tranquilidade ao Paraguai. Não quero que minha presença seja motivo de maior divisão ou instabilidade. Minha responsabilidade é colocar o país acima do meu destino pessoal”, escreveu.
O ex-presidente também demonstrou gratidão pelo período em que esteve à frente do governo, mas reconheceu a preocupação da população diante da crise.
“Despeço-me com gratidão, sem ignorar a angústia daqueles que hoje esperam respostas”, declarou.
Com a saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana assumiu a Presidência do Paraguai para concluir o mandato, previsto para agosto de 2028.
A mudança ocorre em meio a uma das mais graves crises políticas enfrentadas pelo país nos últimos anos. Além das investigações criminais, o novo governo terá de lidar com a recuperação da confiança no sistema financeiro e com a situação de milhões de clientes atingidos pela paralisação das atividades do Ueno Bank.
As investigações continuam, e as acusações contra Santiago Peña ainda deverão ser analisadas pela Justiça paraguaia.

