‘Uma pessoa que mora em uma asa? Só pode ser de Brasília’, afirma professora. Linguista aponta que foi a incorporação pelos moradores de termos técnicos do projeto do Plano Piloto que batizaram as ruas da cidade. 

Por Graziele Frederico, G1 DF, com arte de Monique Gasparelli 
Aniversário de Brasília 57 anos (Foto: Monique Gasparelli/Arte/TV Globo) 
A língua portuguesa no Distrito Federal ganhou variantes tão distintas que levaram pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) a estudarem a formação de dialetos, sotaques e expressões que marcam a identidade da capital do país. Na semana do aniversário da filha de Lucio Costa, o G1 mostra a importância deste abecedário do “quadradinho”. 

Ainda que termos como “véi” tenham ganhado fama por aqui, para a professora e linguista da UnB Flávia Maia, são as expressões vindas da arquitetura a grande distinção dos brasilienses. “Uma pessoa que mora em uma asa? Só pode ser de Brasília”, afirma a especialista. 

“Qualquer conversa que estiver relacionadas a endereços, por exemplo, haverá uma fala bem característica do brasiliense. Quem mais vai dizer ‘moro na SQN’? Na primeira frase do diálogo isso já causaria um estranhamento para quem não é daqui”, continua. SQN é uma abreviação de Superquadra Norte, usada para os Correios. 
Eixão de Brasília corta as 'Asas' sul e norte da cidade (Foto: André Borges/Agência Brasília) 
Um caso que mostra o estranhamento para quem é de fora ocorreu em 2010. Na ocasião, um morador precisou explicar a sigla a uma empresa telefônica, e recebeu uma cobrança endereçada para “Sapo Queijo Nada 214” porque a atendente não entendia que ele morava na quadra residencial da 214 Norte. 

Segundo a professora Flávia Maia, o primeiro pensamento de alguém ao chegar em uma cidade é “ir ao centro para resolver as coisas e conhecer o ponto fundamental da cidade”, mas Brasília não tem centro. Flávia afirma que o fato de nenhuma rua ser nomeada em homenagem a pessoas ou personagens históricos é outra e talvez uma das mais marcantes diferenças. 

“Brasília foi primeiro pensada enquanto projeto urbanístico e arquitetônico e as terminologias desse projeto foram aos poucos absorvidas pelas comunidades que começavam a chegar na capital."

De acordo com a pesquisadora, as ruas não foram nomeadas com personagens históricos ou outros elementos comuns das demais cidades porque o processo de incorporação da arquitetura e do plano urbanístico foi marcante na linguagem dos moradores da capital, desde a construção da cidade. 


O estudo mostrou que foram os trabalhadores e os moradores da época que começaram a transportar os termos do projeto urbanístico para o vocabulário cotidiano. “‘Vou trabalhar ali no Setor de Autarquias’ e ‘moro perto do Eixo Monumental’ eram expressões que foram sendo usadas no dia a dia até que as autoridades decidiram nomear a cidade com os termos do projeto que já estavam sendo utilizados.” 

Flávia realizou o estudo para a dissertação de mestrado, reunindo 216 termos do projeto urbanístico da capital que foram incorporados na linguagem do dia a dia. Entre eles estão os termos “Eixão, Eixinho e Eixo”, as “cidades-satélites”, as “superquadras e entrequadras” e as “tesourinhas”. A professora contou que o projeto nasceu de uma necessidade de explicar Brasília para alunos estrangeiros. 

“Quando ia falar sobre cidades, o material didático disponível não se encaixa com a realidade de Brasília. O contato das pessoas com a cidade é primeiro visual, depois por meio da linguagem, e nos dois casos Brasília é atípica."

Sotaque brasiliense

A também professora e pesquisadora da UnB Stella Maris Bortoni publicou em 2010 o livro “O falar candango”. Na obra, ela e outros estudiosos debatem os dialetos e sotaques da capital. De acordo com a apresentação feita pela professora, Brasília ainda é uma cidade “criança, no máximo adolescente” e está em busca de uma identidade. O modo de falar, segundo ela, seria uma das principais marcas a serem delimitadas. 

Alunos da UnB conversando no Instituto de Central de Ciências do Campus Darcy Ribeiro (Foto: Emília Silberstein/Agência UnB) 
O livro mostra que os modos de falar observados em Brasília não absorvem, nem conservam estereótipos dos sotaques de outras regiões. “Podemos dizer que em Brasília os estereótipos dialetais são limitados e não se perpetuam. O brasiliense não adota qualquer grupo regional como um grupo de referência, cuja fala queira imitar. No português falado em Brasília todos os falares regionais têm guarida, mas não proliferam as tipicidades a eles relacionadas.” 

Para Stella, ainda que brasileiros das cinco regiões estejam em contínua convivência na capital, não há marcas na fala dos nativos ou “candangos” (aqueles que vieram de fora para trabalhar na construção da capital) que possam determinar exatamente a região de origem. Mineiros, cariocas e gaúchos perdem os estereótipos dos sotaques em Brasília. Os chiados e os S ou R arrastados são amenizados, de acordo com o estudo. De fato, a fala da capital seria mais próxima da linguagem falada pelos âncoras dos telejornais.


Fonte - G1/DF