EDUCAÇÃO Aula a distância para salvar o ano letivo no DF: solução ou migué?

A cobrança por frequência dos alunos começa em 29 de junho: atividades vão marcar a presença e servir de avaliação do conhecimento adquirido

HUGO BARRETO/METRÓPOLES

Oano letivo na rede pública de ensino do Distrito Federal será retomado em 29 de junho com uma série de mudanças na maneira de ensinar e de avaliar os cerca de 460 mil alunos dos ensinos fundamental e médio. Em meio a uma série de discussões, medos e com a determinação de não aumentar ainda mais a curva da contaminação pelo novo coronavírus, a solução encontrada foi a teleaula.

Funciona? Não? O questionamento tem ecoado pelos quatro cantos da cidade. Independentemente da resposta, o fato é que há parâmetros bem estabelecidos a serem seguidos, que vão determinar a aprovação ou reprovação dos estudantes.

A partir do dia 29, os alunos terão que seguir um plano de ensino não presencial que prevê acesso por meio de aulas em quatro emissoras de televisão com sinal em todo o DF e pela plataforma Google Sala de Aula. A Secretaria de Educação vai ofertar pacotes de dados gratuitos a estudantes e professores de todas as etapas e modalidades para que o trabalho possa ser realizado.

Somente aqueles que não tiverem acesso à internet ou à televisão receberão material impresso. A entrega desse conteúdo será definida de acordo com cada Regional de Ensino. Os pais ou alunos poderão ir até as regionais buscar os materiais ou poderão recebê-los em casa.
“As regionais têm ônibus, algumas têm carros. Vai depender da estratégia de cada uma”, afirmou o assessor especial da Secretaria de Educação do DF, David Nogueira.
Avaliação e presença

Será cobrada presença de todos os estudantes. Todos os dias serão demandadas atividades. A realização e entrega dos trabalhos pela plataforma ou pelo modo físico, estabelecido pela Regional de Ensino, contará como presença.

Os estudantes não terão provas, como as convencionais realizadas em sala de aula. As atividades realizadas, entregues e corrigidas é que valerão como maneira de os professores identificarem a assimilação do conteúdo pelos estudantes. “Será como um portfólio. A análise de conhecimento é por atividade desenvolvida e conhecimento testado”, completou Nogueira.

É possível que os alunos tenham um período de recesso, mesmo com os três meses que ficaram sem estudar. O calendário de recesso e término do ano letivo está sendo traçado pela Secretaria de Educação e será divulgado na próxima semana.

Como será

De acordo com João Pedro Ferraz, os servidores e professores já retomarão os trabalhos nesta sexta-feira (05/06). Entre os dias 8 e 12 de junho, ocorrerá a semana de formação dos docentes e, a partir do dia 15, será feita a organização dos trabalhos pedagógicos. No dia 22, começam as teleaulas com os estudantes, sendo que a marcação de presença só será retomada uma semana depois, quando terão início também as avaliações.

As redes pública e particular estão com as aulas suspensas na modalidade presencial em função do risco de contágio pelo novo coronavírus. Ainda não há previsão de retorno das atividades presenciais.

Para garantir o acesso de todos os estudantes, a pasta contratou três emissoras de televisão com sinal aberto (TV Justiça, Gênesis, União) e tem uma quarta ainda a ser definida. Os canais irão transmitir as teleaulas lecionadas ao vivo por professores e servidores da pasta.

TV Justiça e Gênesis, de manhã, União, de tarde. Segundo a programação divulgada pela Educação, as primeiras transmissões começarão às 8h e serão encerradas às 22h. Serão canais transmitirão 195 horas de programação semanal.

Confira:

Confira como será a programação televisiva da
 rede pública de ensino

Erros e acertos

Por meio de nota, a secretaria afirmou que seus profissionais têm dedicado todo o empenho para que os estudantes possam concluir o ano letivo. Foi criado o programa Escola em Casa DF, que em três meses vai ofertar ensino mediado por tecnologia aos estudantes.

“Não há ilusão de que não haverá problemas, mas há certezas de que todos serão resolvidos. Mesmo contando com eventuais perdas de aprendizado, a Secretaria e seus profissionais já planejam medidas para atenuar e compensar estas perdas”, afirmou David Nogueira. “O momento, que é grave para as redes educativas de todo o mundo, pede união de esforços”, ressaltou.
A entrega de material impresso será organizada pelas escolas, devendo seguir as recomendações sanitárias da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Todas as atividades pedagógicas estão previstas no Plano de Gestão Estratégica para a Realização das Atividades Pedagógicas Não Presenciais no DF. Ele levou em conta levantamento feito pela Secretaria de Educação, indicando que 94% da comunidade escolar têm acesso a meios de comunicação, como aparelhos telefônicos com internet, televisões e computadores. O restante dos alunos receberá atividades escolares impressas em suas residências.

Além de prever a disponibilização de acesso à plataformas on-line sem custo aos alunos, o plano também determina que os currículos sofrerão alterações para se adequarem ao cenário atual, assim como o calendário e a rotina escolares.

Aviso de suspensão das aulas na Escola Classe 102, no Recanto das Emas - Myke Sena/Especial para o Metrópoles


Confira a publicação no DODF:



As novidades, no entanto, não agradaram a toda a comunidade escolar. Ao Metrópoles, o Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), docentes, e também responsáveis e estudantes, comentaram sobre a definição de retorno às atividades.

A professora Mônica Felix, do apoio pedagógico do Centro Educacional 6 de Ceilândia (CED 6), afirmou que tem recebido perguntas de pais e alunos sobre a retomada do calendário escolar. “Percebi muita boa vontade da secretaria em se esforçar para salvar o ano letivo. Porém, vejo pouca preocupação de fato com a educação. O que esses alunos vão aprender? Se vão. O professor desses alunos terão pouquíssima liberdade de trabalho, já que o conteúdo diário é dado pela pasta”, disse.

“É um conteúdo engessado que não leva em conta cada realidade, como o caso das escolas que trabalham com a semestralidade e as que não trabalham, as escolas parques, as rurais”, acrescentou a docente.
A profissional reconheceu que a proposta tenta fazer com que todos estejam no mesmo nível de aprendizagem, mas acredita que não existe uma cultura de educação de fato autônoma. “Nossos alunos ainda não são protagonistas. Além do fato de muitos não terem acesso aos meio tecnológicos. E o pior, mesmo que tenha, muitos não sabem usar”, afirmou.

Larissa Passos Viana, 17, é aluna do 3º ano no CED 6, e assistirá às aulas pelo computador. Contudo, ela acredita que amigos enfrentarão dificuldades - Arquivo Pessoal

A professora Mônica Felix, do apoio pedagógico do Centro Educacional 6 de Ceilândia (CED 6), afirmou que tem recebido perguntas de pais e alunos sobre a retomada do ano letivo
Arquivo Pessoal

Sindicato critica

Por meio de nota, o Sinpro-DF considerou que o retorno às aulas, na plataforma de Educação a Distância (EAD), é um total desrespeito ao estudante da rede pública de ensino da capital federal.
“Entre os dias 23 a 31 de maio, realizamos pesquisa de conversa com mães, pais e responsáveis por estudantes da rede pública para saber o que eles achavam da Teleaula. Segundo a pesquisa, 57,90% dos estudantes não assistiram as teleaulas disponibilizadas pela Secretaria de Educação, e dos 460 mil estudantes da escola pública, 265 mil não assistiram a nenhuma Teleaula da programação da SEEDF“, diz trecho do texto.
A entidade entende que o ano letivo de 2020 deve ter como foco as aulas presenciais, as quais devem ocorrer após a passagem do pico de contaminação do novo coronavírus. Para o Sinpro, apenas aulas presenciais promovem a interação direta do professor com todos os estudantes. Além disso, o resultado da pesquisa conduzida pela entidade mostra que o problema não é a falta de interesse por parte do aluno, mas a ausência de estrutura para acompanharem o conteúdo.

O Sinpro-DF avalia também que o trânsito de materiais impressos entre o professor e os estudantes pode expor tanto os alunos quanto suas famílias, assim como pode contaminar professores e familiares à Covidi-19, que sobrevive alguns dias em superfícies como o papel, que será utilizado para fazer as atividade.
“O isolamento social é necessário para diminuir os casos da Covid-19, mas o governo está propondo a distribuição de cópias aos alunos sem acesso aos meios tecnológicos. Sem dúvida alguma, esse vai e vem de papéis entre as famílias excluídas das aulas remotas e os responsáveis nas escolas pela entrega dessas atividades, irá aumentar os números de mortes e de pessoas infectadas pelo coronavírus’, opinou o diretor do sindicato Samuel Fernandes.

Pais e alunos

O adolescente Wanderson Costa de Souza, 17 anos, é aluno do 1º ano do ensino médio e mora em Ceilândia. Ele tem acesso à internet em casa, mas não está acompanhando as teleaulas da rede pública. “Eu comecei a assistir e não me interessei. Acredito que, agora, como eles vão anotar as nossas faltas, mais alunos irão aderir. Vamos ter que acompanhar”, comentou.

Porém, a expectativa dele não é animadora. “Como serão aulas a distância, as condições de aprender são precárias. Depende muito da disciplina do aluno. Quando eu me esforço, consigo prestar atenção, mas não é fácil em casa com várias distrações. Acredito que esse ano de estudos já está perdido, infelizmente”, queixou-se.

A manicure Marineide Silva Santos, 36, é mãe de dois adolescentes. Maria Clara, de 14 anos, e Pedro Henrique, 16. Eles moram em Samambaia e não possuem computador e nem internet em casa. Ela também reprova a volta do ano letivo por teleaulas.

Eu trabalho em salão de beleza e estou em isolamento social. Pensei em comprar um computador para eles estudarem, mas não tenho dinheiro. Meus filhos não têm como acompanhar os estudos de casa. É ruim. Eles são inteligentes e não estão conseguindo seguir o conteúdo. Podem ficar prejudicados só com o material impresso
MARINEIDE SILVA SANTOS, MÃE DE DOIS ESTUDANTES DA REDE PÚBLICA

Larissa Passos Viana, 17, é aluna do 3º ano no CED 6, e assistirá às aulas pelo computador. Contudo, ela acredita que amigos enfrentarão dificuldades. “Na minha sala, conheço umas quatro pessoas que não têm computador e a internet não comporta a duração das aulas”, comentou a jovem.
Para ela, 2020 é um ano de prejuízo aos estudantes, principalmente os que estão no último ano, seu caso. “A volta do ano letivo vai ser melhor do que nada. Porém, esse era pra ser um período de dedicação para vestibular, PAS e Enem. As teleaulas são só um quebra-galho e não atendem a nossa carência de conteúdo”, avalia Larissa.

Indefinições

O processo pedagógico a ser adotado em algumas áreas ainda não está totalmente definido. É o caso da retomada na Unidade de Internação Socioeducativa e no Núcleo de Ensino do Sistema Prisional, que “serão avaliadas e articuladas com a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania, Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, Vara de Execução Penal e Secretaria de Estado de Saúde, considerando as especificidades desses atendimentos.” Depois, uma circular específica será divulgada com as regras para esses segmentos.

A Escola Meninos e Meninas do Parque também não está inclusa nas teleaulas. De acordo com a portaria publicada nessa quinta no DODF, as atividades serão realizadas de forma impressa.

Embora o secretário de Educação não tenha citado em sua live, as atividades do Centro Integrado de Educação Física (Cief) e do Centro Interescolar de Línguas (CIL) voltarão. Nos dois casos, o professor será responsável pela produção ou adaptação de materiais pedagógicos, das aulas remotas e das aulas em ensino a distância.


Fonte - Metrópoles

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