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Claudinho e Buchecha: como foi a tragédia que parou trajetória de sucesso da dupla

Na véspera da morte de funkeiro, filha de 3 anos do cantor pediu para o pai não viajar; história dos artistas é resgatada no filme "Nosso Sonho", que estreia esta semana

Os funkeiros Claudinho (na frente) e Buchecha em 1999 — Foto: Leo Aversa

Chovia muito sobre a Rodovia Presidente Dutra naquele sábado de manhã, quando a dupla Claudinho e Buchecha retornava de um show em Lorena, no interior de São Paulo. Eles tinham chegado na cidade por volta de 1h da madrugada. Subiram no palco do Clube Comercial, puseram 2 mil pessoas para dançar, deram centenas de autógrafos e pegaram a estrada de volta para o Rio, sem descansar, às 3h. Enquanto Buchecha viajava na van com a equipe, Claudinho estava em seu carro, um Volkswagen Golf.

Às 6h40, aconteceu uma tragédia na altura do Km 203, em Seropédica. O empresário Ivan Manzielli, que conduzia o Golf, perdeu o controle da direção, e o carro saiu da pista, chocando-se violentamente contra uma árvore na beira da estrada. Sentado no banco do carona, Claudinho morreu na hora.

Ao ver o parceiro e amigo de infância morto, preso às ferragens do carro, Buchecha ficou desesperado. Teve que ser amparado pelos colegas e foi retirado à força do local, aos prantos. "O show foi tão bom, Claudinho estava muito feliz. Os dois deram vários autógrafos. Que coisa horrível", lamentou o DJ Tralha, integrante da equipe, em entrevista depois do ocorrido. Ele dirigira o carro de Claudinho até 15 minutos antes do acidente, quando trocou de lugar com Manzielli, que até então viajava na van.

Carro de Claudinho após acidente que causou sua morte, em 2002 — 
Foto: Domingos Peixoto/Agência O GLOBO

O empresário, que sofreu uma luxação no braço, alegou que perdeu a direção depois de ser fechado por um caminhão. No dia seguinte, o advogado da dupla afirmou que havia óleo na pista. A polícia chegou a indiciar Manzielli por homicídio culposo, mas o processo não foi adiante.

O acidente colocou um fim na trajetória estelar dos amigos que cresceram soltando pipa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, e, anos depois, formaram uma dupla vencedora de concursos de rap no município, na Região Metropolitana do Rio. Seu primeiro sucesso foi "Rap do Salgueiro", que virou febre nas boates cariocas. Em 1996, eles alcançaram a fama nacional com o funk "Conquista" (sabe/ tchu ru ru ru/ estou louco pra te ver/ oh yes"). Depois, receberam um disco de Platina Duplo com as vendas do álbum "Só love", lançado em 1998, que teve mais de 1 milhão de cópias comercializadas.

A história da dupla será resgatada no filme "Nosso sonho", que estreia nos cinemas nesta quinta-feira. Batizado com o nome de um dos maiores sucessos dos funkeiros, o longa de Eduardo Albergaria tem os atores Juan Paiva interpretando Buchecha e Lucas Penteado na pele de Claudinho.

Cena do filme "Nosso Sonho", que conta a história de Claudinho e Buchecha — Foto: Divulgação

O velório do cantor, na noite seguinte ao desastre, foi marcado por gritos, choro e confusão. Mais de 1500 fãs, amigos e parentes estiveram na capela 1 do Memorial do Carmo, no Cemitério do Caju. Setenta policiais se esforçavam para conter as pessoas, que se empurravam muito, querendo chegar perto do corpo. Houve tentativas de formar um cordão de isolamento, mas não foi possível. Quando a polícia começou a organizar uma fila, houve mais tumulto e até desmaios. Cerca de 60 pessoas foram atendidas na enfermaria do memorial desde o início do velório, na noite de sábado.

Depois de tanta confusão no velório, a cerimônia de sepultamento teve que ser reservada a não mais que cem pessoas, entre amigos e familiares de Claudinho. Numa emocionante homenagem, todos os presentes cantaram “Nosso sonho”, um dos maiores sucessos da dupla, que dá nome à podução de Eduardo Albegaria. Buchecha, porém, não conseguiu acompanhar o coro. Chorando muito, o parceiro de Claudinho pediu em voz alta que Deus lhe devolvesse o parceiro. "Ele ainda não aceita o que houve. Está extremamente abalado", disse Julio Cesar Figueiredo, advogado dos funkeiros.

Buchecha em meio a tumulto no velório de Claudinho, em 2002 — 
Foto: Angelo Antonio/Agência O GLOBO

Viúva de Claudinho, com quem foi casa por seis anos, Vanessa Alves Ferreira levou a filha deles, Andressa, de 3 anos e 7 meses, ao enterro do pai. Ela contou que, na noite de sexta-feira, a criança, que sempre se despedia do pai sorrindo, chorou pedindo para ele não viajar. Vanessa disse que, pouco antes de sair, o arista de então 28 anos pegou o violão e cantou um trecho de “Eu sei que vou te amar” para ela. Claudinho nunca havia cantado esta música. "Ele disse ainda a Andressa que ela precisava ficar para não me deixar sozinha. Depois, acenou e se foi", relembrou a mulher.

Buchecha entrou em um período de profunda tristeza, sem o seu parceiro musical. Viveu esse luto, mas, eventualmente, retomou o trabalho. Em março de 2003, ele lançou o primeiro disco de sua carreira solo, "MC Buchecha". "Durante muito tempo, pensei em parar de cantar, mas o tempo passou, e muita gente me pediu para voltar. Acabei topando o desafio", disse ele numa entrevista ao GLOBO, na época. "Deixei o astral melhorar e não gravei nenhuma música refletindo a tristeza. As pessoas gostam da nossa alegria, então quis fazer um disco com a nossa cara. A homenagem é o alto astral".

Vanessa, viúva de Claudinho, no escritório do fukeiro, dois meses após a morte dele — Foto: Eurico Dantas/Agência O GLOBO

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