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Rixa familiar e briga por herança ameaçam sucessão em gigante sul-coreana

Viúva e filhas do presidente da LG entram na Justiça e contestam valores recebidos e papel de sobrinho adotado como filho à frente da empresa

Por The New York Times — Seul, Coreia do Sul

Koo Yeon-kyung, a filha mais velha do presidente da gigante sul-coreana LG, que morreu em 2018 aos 73 anos sem deixar testamento, causando uma disputa pelo poder na empresa e por sua herança — Foto: Chang W. Lee/The New York Times

Quando Koo Bon-moo, presidente do conglomerado sul-coreano LG, faleceu em 2018, não houve muita dúvida, pelo menos publicamente, sobre quem seria o próximo a presidir a empresa. A LG, um império corporativo de US$ 10 bilhões, é regida pelo princípio dos primogênitos do sexo masculino. Afinal, essa é a tradição na Coreia do Sul.

Então, no caso da LG, a sucessão tinha sido efetivamente resolvida 14 anos antes, quando Koo e sua esposa adotaram seu sobrinho mais velho, Koo Kwang-mo.

A adoção foi necessária devido à tragédia e à tradição após a morte do filho adolescente do casal em 1994, e seus esforços para obter outro herdeiro do sexo masculino resultaram no nascimento de uma segunda filha.

A família Koo controla a LG desde a sua fundação em 1947, e a transição que levou Kwang-mo ao comando pareceu perfeita, aumentando a reputação de harmonia da família.

Só que não.

O ex-presidente morreu, aos 73 anos, sem um testamento. O que se seguiu foi uma luta pelo poder dentro da família Koo e da LG sobre quem herdaria sua fortuna estimada em US$ 1,5 bilhão - incluindo sua participação de 11% na empresa.

Agora, cinco anos depois, a viúva e as duas filhas do ex-presidente estão processando Koo Kwang-mo, acusando-o e a outros executivos da LG de fraude para roubar sua herança legítima e reforçar sua reivindicação sobre a empresa.

Na ação, a viúva do ex-presidente, Kim Young-shik, e suas filhas, Koo Yeon-kyung e Koo Yeon-sue, acusaram os executivos da LG de conspirar com Koo Kwang-mo e seu pai biológico para enganá-las. Elas disseram que querem a herança completa, mas não estão buscando o controle da LG.

A ação judicial não apenas coloca a matriarca de uma das famílias mais ricas da Coreia do Sul e suas filhas contra o herdeiro masculino adotado, que agora é uma das figuras empresariais mais influentes do país.

Ela também desafia a tradição patriarcal da LG, que permite que o sucessor mais velho do sexo masculino assuma o poder e a riqueza, deixando os membros femininos da família como uma última opção.

Em transcrições de conversas gravadas secretamente e arquivadas nos documentos legais, Koo Kwang-mo pede à sua mãe adotiva que não conteste a herança, pois isso prejudicaria a imagem da LG e sua liderança na empresa, podendo manchar sua reputação entre o público coreano.

"A coisa mais assustadora é a opinião pública", disse ele, de acordo com a transcrição. "Como eles vão encarar essa situação? 'Alguém ficou ganancioso', ou que eu não fui visitá-lo e não fiz um bom trabalho ao cuidar de minha mãe."

Koo Kwang-mo, presidente da LG, foi adotado pelo tio para sucedê-lo à frente da gigante sul-coreana — Foto: Divulgação/LG

Onipresente na Coreia do Sul, a LG é uma holding composta por 11 empresas de capital aberto, incluindo a LG Chem, a maior empresa de materiais e produtos químicos do país, e a LG Electronics, cujos televisores, lava-louças e outros eletrodomésticos são populares em todo o mundo.

Problemas com testamento

As três mulheres também acusaram Ha Beom-jong, assessor do ex-presidente e agora presidente da LG, de induzi-las a acreditar que havia um testamento que deixava tudo para Koo Kwang-mo. Sem um testamento, segundo a lei sul-coreana, a viúva teria direito a herdar um terço do patrimônio e o restante seria dividido igualmente entre as duas filhas e Kwang-mo.

Em vez disso, as mulheres disseram que foram enganadas em um acordo no qual cerca de 75% do patrimônio foi para Kwang-mo. A ação judicial, movida no Tribunal Distrital Ocidental de Seul, busca redistribuir o patrimônio de acordo com o padrão legal.

"Não podemos tolerar que nossos direitos, protegidos pela constituição e pela lei, sejam desconsiderados só porque somos mulheres", disseram as mulheres em uma notificação apresentada com o processo.

Koo Yeon-kyung, a filha mais velha de Koo Bon-moo, presidente da LG que morreu em 2018: disputa por herança — Foto: Chang W. Lee/The New York Times

Yulchon LLC, um escritório de advocacia que representa Kwang-mo, disse em um comunicado que a herança é "uma questão legalmente estabelecida" que foi resolvida há quatro anos após extensas negociações e que houve cerca de 10 rodadas de consultas e várias revisões desde a morte do presidente.

Também observou que Kim havia assinado um documento concordando que Kwang-mo deveria receber as ações da LG e os ativos relacionados ao controle da empresa.

Histórico da doença e disputa pela sucessão

Em 2017, Bon-moo tinha 72 anos e ainda parecia saudável. Ele foi ao médico porque seu rosto parecia ligeiramente torto e foi diagnosticado com glioblastoma, uma forma agressiva de câncer no cérebro.

A cirurgia cerebral de Bon-moo em abril de 2017 transcorreu sem problemas, mas após uma segunda operação em dezembro, ele sofreu uma convulsão que o deixou incapaz de falar. Ele morreu em maio de 2018.

Sua morte levantou uma possível batalha de sucessão. Durante sua doença, a empresa estava sendo administrada por um de seus outros irmãos, Koo Bon-joon. Koo Kwang-mo, que tinha 40 anos na época, foi executivo da LG por uma década, mas acumulou pouca experiência em gestão.

Na confusão dos procedimentos funerários, segundo sua esposa e filhas, o pai biológico de Kwang-mo e os funcionários da LG começaram a disputar o controle.

Serralheiro para abrir cofres

Sem avisá-las, dizem as mulheres, o pai biológico de Kwang-mo e os funcionários da LG contrataram um serralheiro para ajudá-los a abrir os cofres do ex-presidente no escritório da empresa e em uma casa de férias.

Em seguida, Ha Beom-jong, que havia sido assessor de Bon-moo, e outro funcionário foram até a imponente casa da família em Seul e lhes disseram que Koo havia deixado um testamento, de acordo com as mulheres em entrevistas ao The New York Times.

O desejo dele, segundo lembram os funcionários, era que todas as suas ações e a presidência da empresa fossem para seu filho adotivo, de acordo com o costume da família desde a fundação da LG. Ha, no entanto, negou em depoimento no tribunal que tenha dito à família que havia um testamento.

- A pessoa em quem meu pai mais confiava e que supostamente sabia de tudo veio até nós e disse que havia um testamento e, com base nisso, tudo vai para Kwang-mo - disse Koo Yeon-kyung, a filha mais velha, de 45 anos, em uma entrevista.

Renúncia à herança

Kim, a viúva de 71 anos, disse que foi informada de que precisava renunciar à herança das ações de seu marido para garantir a sucessão de Kwang-mo e evitar qualquer contestação do irmão de seu falecido marido, Bon-joon.

Ela disse que concordou com a decisão, mas questionou Ha se Bon-moo realmente queria que suas filhas não recebessem ações. E afirmou que Kwang-mo acabou concordando em dar cerca de um quinto das ações da Bon-moo, no valor de cerca de US$ 270 milhões, de acordo com os preços atuais das ações, para suas duas irmãs.

As mulheres disseram que foram informadas de que receberiam o dinheiro do ex-presidente, outros investimentos e a casa da família em Seul, e que Kwang-mo pagaria centenas de milhões de dólares de imposto sobre a herança. A Coreia do Sul cobra um imposto de pelo menos 50% sobre os bens herdados acima de US$ 2,3 milhões.

E acrescentaram que continuaram vivendo suas vidas normalmente. Yeon-kyung disse que se lembrou dos desejos de seu pai de que ela se envolvesse na administração das fundações beneficentes da LG e começou a trabalhar em uma delas como consultora em 2021.

Juntando as peças sobre as finanças

Naquela época, disse Yeon-kyung, ela sentiu que algo estava errado quando solicitou um cartão de crédito de uma loja para obter um desconto em um presente para um amigo, mas foi rejeitada porque tinha muitos empréstimos. Ela disse que isso foi uma surpresa para ela.

Percebendo o quão pouco ela, sua irmã e sua mãe sabiam sobre suas próprias finanças, Yeon-kyung começou a ir de banco em banco para obter extratos de vários anos. Havia grandes pagamentos de imposto sobre herança e empréstimos contra suas ações da LG que não condiziam com o entendimento de que Kwang-mo arcaria sozinho com o imposto.

Conforme as mulheres foram juntando as peças de suas finanças, disseram que perceberam que Kwang-mo também havia recebido mais dinheiro e ativos de investimento do que elas pensavam ter concordado.

Yeon-kyung disse que ela e sua mãe começaram a gravar secretamente as conversas com Kwang-mo e Ha em 2022. Ao longo do ano, as conversas se tornaram tensas, de acordo com trechos das transcrições, que os reclamantes citaram como prova de que foram enganados pelos homens que agora dirigem a LG.

Em uma gravação de novembro de 2022, Kim reclamou com Kwang-mo que elas foram tratadas pela equipe financeira como se pudessem ser ignorados por serem mulheres.

"Todo esse tempo se passou, e agora que estamos analisando, muita coisa foi feita sem o nosso conhecimento", disse ela, de acordo com uma transcrição.

"O 'nosso' que você mencionou não me inclui, certo?" perguntou Kwang-mo em resposta.

Kwang-mo enviou à sua mãe uma carta em janeiro esclarecendo os saques inexplicáveis de suas contas. Ele disse que, sem que ele soubesse, "os funcionários" estavam com poucos fundos para pagar o imposto sobre herança em seu nome, então pagaram em nome dela usando os bens dela, mas que haviam planejado reembolsá-la. Ainda assim, ele pediu a ela que não fizesse valer seus direitos de herança.

"Se cada um dos idosos fizesse valer seus direitos de acordo com a lei de herança, o controle da administração da LG não teria sido passado para a quarta geração como está agora", escreveu ele na carta.

Um mês depois, as mulheres entraram com uma ação judicial.

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