Page Nav

HIDE

Últimas notícias:

latest

Publicidade

Atrasos, vaias e crimes eleitorais, o dia de Luiz Inácio na Marquês de Sapucaí

Sapucaí vira palco de constrangimento: desfile pró–Luiz Inácio tem vaias, intervenção da PF e indícios de interferência do Planalto

Reprodução Internet

Por Celso Alonso

O que foi anunciado pelo governo e por setores da esquerda como uma grande celebração popular ao presidente Luiz Inácio acabou se convertendo em um episódio marcado por improviso, falhas operacionais e reação hostil do público. O desfile realizado na Marquês de Sapucaí, que pretendia exaltar a figura do petista, teve como principais destaques justamente aquilo que os organizadores tentaram minimizar: atrasos no cronograma, desorganização e vaias vindas das arquibancadas.

Desde a concentração, problemas logísticos comprometeram o andamento da apresentação. Alas entraram fora de ritmo, houve atraso significativo em relação ao tempo regulamentar e a narrativa planejada para glorificar Luiz Inácio se perdeu em meio à desordem visual e sonora. Logo no início do desfile, a grande emissora de televisão responsável pela transmissão optou por se limitar a comentários genéricos, evitando mostrar imagens de forma clara o que acontecia nos diversos setores do sambódromo. A escolha editorial, perceptível para quem acompanhava o evento no local, demonstrou como uma tentativa de ocultar reações negativas já esperadas e o clima de insatisfação que se instalava na avenida. O que deveria ser um espetáculo coeso e empolgante acabou transmitindo sensação de improviso, inclusive para integrantes da própria escola.

O clima no sambódromo refletiu um cenário de divisão explícita, com setores alternando aplausos e manifestações contrárias, mas com nítido predomínio das vaias. A reação negativa se sobressaiu tanto em relação à escola quanto à presença do presidente e de sua comitiva, ampliando o constrangimento ao longo da apresentação. Mesmo diante de esforços para estimular apoio, as manifestações contrárias ecoaram com mais força em diversos momentos do desfile.

O ponto de maior constrangimento ocorreu nas arquibancadas. Em meio às referências diretas ao presidente e ao seu governo, grupos de espectadores passaram a entoar, de forma repetida e audível, o coro “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”, ecoando por setores do sambódromo e, em alguns momentos, se sobrepondo à bateria. A manifestação espontânea do público rompeu o clima de exaltação pretendido e expôs um ambiente de rejeição que contrastou frontalmente com a narrativa oficial de aclamação popular divulgada por aliados do Planalto.

Como já era previsível, a organização do desfile já havia orientado o reforço do som da bateria e do samba-enredo como estratégia para abafar possíveis vaias vindas das arquibancadas, numa tentativa clara de controle do ambiente. A manobra, no entanto, mostrou-se ineficaz diante da intensidade das manifestações do público. Nem mesmo a emissora de televisão responsável pela transmissão conseguiu disfarçar completamente o clima de rejeição: sempre que as vaias ganhavam força, o áudio ambiente era cortado de forma recorrente, e a transmissão passava abruptamente para comentários da cabine, evidenciando uma condução editorial voltada a minimizar o que acontecia na avenida.

O desfile da Acadêmicos de Niterói acabou reforçando a percepção de uso político da avenida ao adotar, sem sutileza, símbolos historicamente associados a Luiz Inácio. O refrão entoando “Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula” foi interpretado por críticos como um grito de militância deslocado do espírito cultural do Carnaval, transformando o samba-enredo em peça de exaltação pessoal, mais próxima de um comício do que de uma obra artística plural.

A narrativa musical também aprofundou esse viés ao citar o número 13, marca registrada do Partido dos Trabalhadores, e ao inserir referências políticas indiretas que remetem à polarização nacional. Trechos que falam em “mitos falsos” e “sem anistia” foram lidos como ataques direcionados a adversários do petista, ampliando a sensação de provocação e afastando o desfile do caráter festivo e agregador que se espera da maior festa popular do país, transformando em palanque político eleitoral.

Nem mesmo o próprio presidente petista pareceu confortável com o tom adotado. Luiz Inácio assistiu ao desfile do camarote oficial da prefeitura do Rio, evitando qualquer associação direta com a escola na avenida. A postura cautelosa se repetiu ao longo da noite: tentando se desvincular da Acadêmicos de Niterói, ele acompanhou também outras agremiações e limitou sua participação a gestos protocolares, numa tentativa clara de reduzir riscos jurídicos e políticos.

O recuo ficou ainda mais evidente com a ausência da primeira-dama Janja da Silva, que era aguardada em um carro alegórico, mas desistiu de desfilar diante da controvérsia. A decisão foi vista, nos bastidores, como um sinal de que o próprio entorno presidencial avaliou o desfile como excessivo e potencialmente prejudicial à imagem do governo.

Antes mesmo de a escola entrar na avenida, a direção nacional do PT já demonstrava preocupação. Orientações enviadas a militantes pediam explicitamente que não fossem exibidos símbolos partidários, números de campanha ou slogans eleitorais. O alerta final do partido, reconhecendo que qualquer excesso poderia causar danos ao presidente, soou como uma admissão tácita de que o desfile caminhava numa linha perigosa.

Mesmo com a defesa do enredista, que alegou não haver pedido explícito de votos, o resultado prático foi outro. A homenagem a Luiz Inácio acabou sendo percebida como um desfile politizado, carregado de símbolos ideológicos e distante do consenso popular. Em vez de fortalecer a imagem do presidente, a apresentação reacendeu críticas sobre a instrumentalização do Carnaval e expôs o desgaste de misturar, de forma tão explícita, festa popular e propaganda política.

Lula cumprimenta porta-bandeira da Acadêmicos de Niterói durante desfile - Foto Reuters

Até o Planalto achou um desastre

Relatórios internos e levantamentos qualitativos aos quais o Palácio do Planalto teve acesso indicam que o desfile da Acadêmicos de Niterói produziu um efeito amplamente negativo para o governo. A avaliação predominante dentro do próprio núcleo político é de que a apresentação foi um desastre do ponto de vista simbólico, especialmente por afastar segmentos do eleitorado que Luiz Inácio tenta, há meses, reaproximar.

O ponto mais sensível, segundo essas análises, foi a recepção entre evangélicos. Em vez de gerar diálogo ou empatia, o conjunto do desfile provocou rejeição. A ala que representou a chamada “família tradicional” dentro de uma lata de conservas passou a ser vista, inclusive por integrantes do governo, como o retrato do fracasso da mensagem. Para lideranças petistas, a imagem reforçou estereótipos e anulou esforços recentes de aproximação com esse público estratégico.

“Todo um trabalho de aproximação com os evangélicos foi jogado fora”, resumiu, em caráter reservado, um dirigente do Partido dos Trabalhadores. A leitura interna é de que o episódio gerou desgaste desnecessário e abriu espaço para críticas que já vinham sendo exploradas por adversários políticos do governo.

Em meio às críticas, um ministro do governo chegou a classificar a polêmica ala como a “prova concreta” de que não houve qualquer interferência oficial na concepção artística do desfile. A declaração reflete a preocupação do Planalto em se descolar do conteúdo apresentado na avenida e conter danos políticos maiores.

Diante da repercussão negativa, o PT iniciou rapidamente uma estratégia para esfriar a crise. O presidente da sigla, Edinho Silva, afirmou que a escola de samba teve total autonomia para definir seu enredo e alegorias, rejeitando qualquer tentativa de associar o desfile a uma ação coordenada contra o governo.

Segundo Edinho, atribuir ao desfile uma ofensiva contra Luiz Inácio não se sustenta. Ele destacou que o presidente mantém uma relação de respeito com a comunidade evangélica e suas lideranças, e classificou como descabida a tentativa de transformar uma escolha artística da escola em ataque político direto ao chefe do Executivo.

Intervensão do Planaldo

A condução do desfile da Acadêmicos de Niterói acabou revelando uma atuação direta e emergencial de interlocutores do governo para tentar contornar riscos jurídicos. Com o enredo explicitamente dedicado Luiz Inácio, a preocupação central passou a ser evitar qualquer caracterização de propaganda eleitoral antecipada. A poucos dias da apresentação, ordens foram transmitidas à direção da escola e ao carnavalesco para modificar alas, fantasias e conceitos que poderiam agravar a situação do petista perante a Justiça Eleitoral, numa tentativa clara de reduzir danos e conter questionamentos legais.

As mudanças de última hora incluíram a eliminação completa de alas consideradas sensíveis, como a chamada “Jacarés com cloroquina”, e a redistribuição apressada de componentes em outros setores do desfile. O fato de as fantasias terem sido doadas, e não vendidas, facilitou a reconfiguração emergencial, evidenciando o caráter improvisado da estratégia. As decisões foram tomadas após contatos diretos de representantes do governo com a cúpula da escola, exigindo rapidez nas alterações. Sem margem para contestação, o carnavalesco Tiago Martins acabou submetido às ordens, vendo seu projeto artístico ser descaracterizado para atender a interesses políticos e jurídicos, numa tentativa explícita de evitar que o desfile complicasse ainda mais a já delicada relação de Luiz Inácio com a Justiça Eleitoral, como se ele tivesse incomodado.

Veja o vídeo das váias contra Luiz Inácio:

Crime eleitoral

Outro episódio que chamou atenção ao longo da noite envolveu a atuação da Polícia Federal, que interveio em um camarote localizado ao lado daquele ocupado pelo presidente. Segundo relatos de presentes, frequentadores do espaço manifestavam insatisfação de forma ruidosa, com vaias dirigidas tanto ao desfile quanto à presença do petista. A movimentação policial intensificou o burburinho nos bastidores e reforçou a percepção de que o ambiente esteve longe do clima festivo que se tentou projetar.

Também houve registros de restrições e tentativas explícitas de controle das manifestações do público. Agentes federais barraram o acesso de foliões vestidos com camisas verde e amarela, sob a alegação de que as estampas traziam críticas ao presidente, em episódio apontado por frequentadores como afronta aos preceitos constitucionais da liberdade de expressão, em um claro uso da máquina pública para impedir a manifestação popular de manifestar contra autoridades públicas em detrimento de autopromoção do homenageado. Paralelamente, o governo federal e a Prefeitura do Rio de Janeiro teriam montado um esquema para abafar eventuais vaias, elevando o volume do som ambiente ao máximo. Ainda assim, ouviu-se uma combinação de gritos de apoio de militantes do Partido dos Trabalhadores e manifestações contrárias que marcaram a noite.

Reprodução Internet

Há ainda um elemento que acrescenta contornos jurídicos ao episódio. O ator Paulo Vieira, que representou o presidente no desfile, declarou em entrevista que foi escolhido diretamente pelo próprio chefe do Executivo e pela primeira-dama Janja Silva para desempenhar o papel na avenida. A afirmação é vista por críticos como indício de que a participação do governo não foi meramente simbólica, mas determinante para a realização da homenagem. Para juristas ouvidos nos bastidores, a revelação pode caracterizar intervenção direta do governo em evento de grande alcance popular, o que, a depender da análise das autoridades competentes, pode configurar crime eleitoral ou uso indevido de imagem e influência política, ampliando a controvérsia em torno do desfile.

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Assista


Já na dispersão, após o encerramento do desfile e durante a retirada dos carros alegóricos, um episódio de forte simbolismo encerrou a apresentação. Uma estátua que representava o presidente caiu de um dos carros, partiu-se com o impacto e perdeu a cabeça, sendo depois arrastada por ruas próximas ao sambódromo durante a retirada do material. Segundo relatos, houve vibração e comentários irônicos entre os presentes, com frases como “o presidente está no lugar certo, caindo”, reforçando o clima de rejeição que marcou o evento do início ao fim.

Ao contrário da versão propagada por integrantes do governo e militantes nas redes sociais, o episódio na Sapucaí não confirmou qualquer clima de unanimidade em torno do presidente. Pelo contrário: o desfile entrou para a história recente do Carnaval como um fiasco político, evidenciando que, diante do público, propaganda e realidade nem sempre desfilam no mesmo compasso.

A Acadêmicos de Niterói receberá até R$ 9,650 milhões de diferentes governos, sendo o maior valor um repasse de R$ 4 milhões da prefeitura de Niterói, comandada por Rodrigo Neves (PDT), ex-petista.

O repasse inclui R$ 1 milhão do governo federal via Embratur, R$ 2,5 milhões do governo estadual do Rio de Janeiro, e mais R$ 2,150 milhões da Prefeitura do Rio, governada por Eduardo Paes (PSD).

Esses três valores não foram distribuídos diretamente pelos governos à escola, mas repassados por meio da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), através de contratos com os governos para impulsionar o carnaval.

O presidente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), chegou a participar do ensaio técnico da Acadêmicos de Niterói, mas não desfilou. "Eu tenho plena convicção de que é um investimento correto e necessário, fazer com que o mundo conheça o nosso carnaval, a nossa maior festa. E isso traz turistas, traz gente. Isso gera emprego e gera renda", argumentou, em vídeo divulgado nas suas redes sociais.

Ofença a comunidade evangélica

Reprodução

O desfile acabou, ainda, marcado por forte reação negativa de cristãos em todo o país. A apresentação, longe de se limitar à exaltação política, incluiu encenações que foram interpretadas por milhões de fiéis como ataques diretos à fé evangélica, reacendendo o debate sobre os limites entre liberdade artística e desrespeito religioso.

O principal foco da indignação foi a ala intitulada “Neoconservadores em Conserva”. Nela, integrantes desfilaram caracterizados como latas rotuladas com a expressão “Família em Conserva”, acompanhadas de imagens que remetiam à família tradicional e à Bíblia. Para a comunidade evangélica, a representação extrapolou qualquer leitura simbólica aceitável e assumiu contornos de deboche, transformando valores religiosos e símbolos sagrados em objeto de ridicularização pública.

A reação foi imediata nas redes sociais, onde evangélicos relataram sentimento de humilhação coletiva ao verem sua fé tratada de forma caricata em um dos maiores palcos do país, transmitido em rede nacional. Líderes religiosos destacaram que o problema não foi a divergência política explícita no enredo, mas o uso direto da Bíblia e da família cristã como instrumentos de provocação e escárnio.

A repercussão chegou ao campo institucional. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, anunciou que pretende acionar a Justiça contra a escola, classificando a ala como um claro caso de preconceito religioso. Para ele, discordâncias ideológicas fazem parte da democracia, mas colocar milhões de evangélicos “dentro de uma lata” representa desrespeito inaceitável a cidadãos que trabalham, sustentam suas famílias e contribuem para o país.

Pastores e fiéis também apontaram que a encenação reforçou estereótipos ao associar valores cristãos a algo ultrapassado ou digno de zombaria, misturando fé, conservadorismo e caricaturas sociais em um mesmo pacote depreciativo. O fato de o desfile ter sido, ao menos em parte, viabilizado com recursos públicos ampliou a revolta, já que muitos evangélicos se viram financiando, indiretamente, uma representação ofensiva às próprias crenças, demonstrando mais uma vez o distanciamento de Luiz Inácio do público evangélico, que só é procurado pelo petista em período eleitoral.

Cristãos lembram que episódios semelhantes já ocorreram em outros carnavais, como o desfile da Gaviões da Fiel, que anos atrás gerou forte reação ao encenar a agressão de um personagem caracterizado como Jesus. Na ocasião, a Frente Parlamentar Evangélica divulgou nota de repúdio, e o próprio responsável artístico admitiu que a intenção era chocar e provocar.

Para a comunidade evangélica, forma-se um padrão preocupante: manifestações carnavalescas que ultrapassam a crítica cultural e passam a vilipendiar símbolos cristãos sem a mesma resposta institucional observada quando outros grupos são alvo de ofensas. Esse cenário, segundo líderes religiosos, aprofunda a sensação de perseguição e seletividade no tratamento dado à fé cristã no espaço público.

Ao transformar crenças religiosas em espetáculo de humilhação, o desfile da Acadêmicos de Niterói deixou de ser apenas uma homenagem política e passou a simbolizar, para muitos, um ataque frontal à identidade e aos valores de milhões de brasileiros, característica de Luiz Inácio que já afirmou que o conceito pátria e família é "tudo aquilo que ele tenta acabar". A crítica é direta: liberdade artística não pode ser usada como salvo-conduto para ridicularizar aquilo que é sagrado, sob pena de ampliar divisões e ferir princípios básicos de respeito religioso.

Veja

Latest Articles