Sessão solene da CLDF transforma aniversário da cidade em ato de reconhecimento histórico e emoção coletiva
Por Celso Alonso
Santa Maria celebrou seus 33 anos em uma noite que ultrapassou o protocolo institucional e se transformou em um verdadeiro encontro com a própria história. Na noite desta segunda-feira (23/02), o auditório da Escola Técnica da cidade foi palco da sessão solene em comemoração ao aniversário da Região Administrativa, realizada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal por iniciativa da deputada distrital Jaqueline Silva.
O evento reuniu representantes das Polícias Civil e Militar, do Corpo de Bombeiros, da Administração Regional, além de membros dos Conselhos de Saúde, de Educação e lideranças de vários segmentos. Também esteve presente a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão, que participou da solenidade e discursou em homenagem à cidade.
Em sua primeira fala, Jaqueline Silva destacou que celebrar Santa Maria é reconhecer uma trajetória construída com esperança, fé e união popular. Lembrou que a cidade nasceu da necessidade por moradia digna e cresceu sustentada pela força de seus moradores, que sempre lutaram pelo seu desenvolvimento, escrevendo o seu destino. “Quando falamos em celebrar Santa Maria, estamos falando de reconhecer a coragem de um povo que construiu essa cidade com esperança, fé e união. Santa Maria nasceu da necessidade por moradia digna e se desenvolveu graças à força de moradores que lutaram pelo seu desenvolvimento, escrevendo o seu destino, transformando dificuldades em identidade e orgulho coletivo”, explicou Jaqueline Silva.
Logo após esse discurso inicial, a deputada deixou transparecer uma relação que vai além do mandato e da política institucional. Considerada por muitos como filha de Santa Maria, ela relembrou que chegou à cidade ainda aos 14 anos, vinda do Gama, quando tudo ainda era começo. Como costuma afirmar, não foi apenas ela quem escolheu Santa Maria. "Foi a cidade que me acolheu e me adotou. Aqui construí laços, enfrentei desafios, formei minha identidade e aprendi o valor da coletividade e, acima de tudo, constituí minha família. Esse vínculo profundo, feito de amor, carinho e dedicação, explica por que minha atuação política carrega um compromisso que vai além do cargo: o de quem cuida da cidade como quem cuida da própria casa", enfatizou a deputada.
Vice-governadora Celina Leão presente na solenidade - Foto Ascom Jaqueline Silva
A vice-governadora Celina Leão, em seu discurso, homenageou Santa Maria pelos 33 anos e relembrou sua própria ligação com a cidade, destacando os trabalhos sociais desenvolvidos por meio da associação fundada por ela ainda em seu primeiro mandato como deputada distrital, iniciativa que deu origem ao primeiro polo de educação profissional que funciona ao lado da Administração da cidade, hoje referência em formação e oportunidades.
Mas foi no momento das homenagens que a solenidade alcançou seu ponto mais alto. Representantes de diversos segmentos foram homenageados com certificados de reconhecimento pelos serviços prestados à cidade. Entre eles, lideranças comunitárias, profissionais da segurança pública, da saúde e da educação. Representando os pioneiros, Raimundo Nonato Rocha, o popular "Raimundo Preto", recebeu das mãos da deputada Jaqueline Silva a homenagem que simbolizou toda uma geração.
"Raimundo Preto" é uma liderança comunitária histórica e um dos primeiros moradores da região, tendo chegado a Santa Maria antes mesmo de sua formação administrativa, quando ainda não havia decretos, apenas poeira e esperança. Ao receber o certificado, ele e a deputada se abraçaram e permaneceram assim por longos minutos. O abraço, silencioso e demorado, arrancou aplausos, lágrimas e a sensação coletiva de que ali se encontravam o passado e o presente da cidade. “Receber essa homenagem é uma emoção muito grande, porque ela não é só minha. Ela representa cada pioneiro que chegou aqui quando ainda era só poeira e esperança, e que acreditou que Santa Maria poderia se tornar o que é hoje. É uma alegria misturada com gratidão e orgulho por ver que nossa história não foi esquecida”, disse "Raimundo Preto", visivelmente emocionado.
Foi nesse instante que a história de Santa Maria pareceu caber inteira naquele gesto. Porque, junto de "Raimundo Preto" estavam, simbolicamente, todos aqueles que ajudaram a erguer a cidade com as próprias mãos. Lideranças como Izilda, Leninha, Pacheco, Zezinho, Amparo, Luiz HT, Valdeci Ficha Limpa, Inço Firmino, Antonio Alã, Peninha, Sassá, Margarida, Ivete, Rui do Esporte, Barão Veloso, Sabóia, Adelino cantor, Noval, Cícero, Eurides Brutão, Idelte, Marileide, Gilvan, Paulo Paracatu, Salú, Jorge Alexandre, Samuka, Barão Veloso, Vital Furtado, Terezinha do Porto Rico, Erivaldo, Nery, *entre outros nomes que enfrentaram o improviso, organizaram moradores, bateram portas e sustentaram a esperança quando Santa Maria ainda não existia nos mapas.
E naquele abraço também estavam os que já partiram, mas jamais foram esquecidos. Entre os vários heróis que escreveram seus nomes no livro histórico de Santa Maria, estiveram: Sampaio, Heitor, Saracura, Marieta, Domingos Arruda, Fonseca, Terezinha da Feira, Marina, Nogueira, Ezenilto, Heraldo, Adolfo, Robson, Luiz Baratudo, *entre tantos outros anônimos ou não que escreveram seus nomes na história viva da cidade. Homens e mulheres simples, cuja memória segue pulsando nas ruas, nas quadras e na identidade coletiva de Santa Maria.
Essa memória se conecta diretamente à origem da cidade, uma luta iniciada ainda no início da década de 1990 e que encontrou respaldo político no saudoso governador Joaquim Roriz, marco fundador da Região Administrativa. Foi sob sua liderança que o programa de assentamento de famílias de baixa renda ganhou forma institucional, oferecendo chão, endereço e dignidade a milhares de pessoas. Santa Maria nasceu desse gesto político e humano, e foi sustentada, desde o primeiro dia, pelos seus pioneiros.
Roriz enxergou no assentamento não apenas uma política habitacional, mas um projeto de cidade, oferecendo chão, endereço e dignidade a milhares de famílias. A homenagem aos pioneiros, como "Raimundo Preto", resgata exatamente esse espírito: o de quem acreditou quando tudo ainda era promessa.
Hoje, consolidada como uma das maiores e mais importantes regiões do Distrito Federal, Santa Maria reúne áreas urbanas, rurais e militares, abriga o Polo JK, equipamentos públicos estratégicos e uma população que carrega orgulho da própria história.
A sessão solene terminou, mas a emoção permaneceu. Porque, mais do que celebrar uma data, Santa Maria celebrou a si mesma, uma cidade feita de gente, memória, luta e amor.
Assista ao vídeo que mostra a história de "Raimundo Preto", uma das lideranças mais antigas de Santa Maria:
* "Com todo respeito e desculpas a todos que, por lapso de memória pessoal meu, não foram lembrados, a minha cabeça já não ajuda muito, mas que sintam-se abraçados e homenageados em nome que foram citados" - Celso Alonso
