Do luxo milionário às vaias ensurdecedoras: escola termina em último lugar, vira alvo de memes e transforma o Carnaval 2026 em um desastre político e simbólico para Luiz Inácio
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Por Celso Alonso
O que deveria ser uma noite de celebração e visibilidade terminou em constrangimento público. Durante o desfile da Acadêmicos de Niterói, no Grupo Especial do Carnaval 2026, que fez homenagem a Luiz Inácio, a presença do presidente petista e da primeira-dama Janja da Silva foi recebida por parte do público com vaias audíveis, que se misturaram a aplausos pontuais, mas acabaram predominando nas arquibancadas. O clima de divisão ficou evidente e marcou negativamente a passagem da escola pela avenida.
Relatos de quem acompanhou o desfile apontam que a organização tentou elevar o som da bateria e do samba-enredo para abafar as manifestações contrárias, sem sucesso. As reações se repetiram ao longo da apresentação, ampliando a sensação de mal-estar e transformando o desfile em um episódio de exposição política indesejada, com reflexos diretos na percepção do público e no julgamento popular.
Prevendo o desgaste e tentando conter danos, o Palácio do Planalto teria atuado nos bastidores para amenizar a exposição do governo. Segundo apuração, foram impostas normas de última hora e retirada a participação de integrantes do governo no desfile, numa tentativa de reduzir a associação direta do evento com o Executivo diante do risco de reação negativa do público. Ainda, a ordem do Planalto era para nenhum integrante do governo fizesse comentários nas redes sociais sobre o desfile e a participação do presidente no evento.
Além do desgaste público, o episódio pode ganhar, ainda, desdobramentos jurídicos. Especialistas em direito eleitoral avaliam que o tema abordado pela agremiação e a participação ostensiva do presidente no desfile, em um contexto interpretado como de promoção política, podem configurar irregularidades eleitorais. Caso haja provocação formal ou abertura de procedimento, Luiz Inacio pode sofrer sanções da Justiça Eleitoral, que vão de multa até a inelegibilidade, a depender do entendimento sobre eventual abuso de poder político ou uso indevido de evento cultural com finalidade eleitoral.
Mesmo contando com um dos maiores volumes de recursos do Carnaval 2026, a escola não conseguiu evitar o desfecho vexatório. A agremiação esteve entre as que mais receberam patrocínio, com valores que chegaram à ordem de R$ 9,6 milhões, destinados à produção do desfile, fantasias, alegorias e estrutura geral. O montante expressivo, porém, não foi suficiente para estancar o vexame, nem para compensar falhas técnicas e o desgaste público provocado pelas vaias.
O desfecho veio horas depois, de forma ainda mais dura. Na apuração realizada nesta quarta-feira (18), no Rio de Janeiro, a Acadêmicos de Niterói terminou em último lugar na classificação geral, com 264,6 pontos e acabou rebaixada para a Série Ouro, após desempenho considerado insuficiente nos quesitos técnicos que definem a colocação final.
Reação da Internet
Logo após a divulgação das notas, a internet não perdoou. Em questão de minutos, o resultado dominou as redes sociais e se transformou no assunto mais comentado do país. Memes, montagens e publicações irônicas tomaram conta da timeline, ampliando o constrangimento e levando o governo a virar motivo de chacota, prolongando a repercussão negativa muito além da avenida.
Para além das notas, dos números e da queda no ranking, o episódio deixa um recado contundente: nem dinheiro, nem aparato político, nem controle de bastidores foram capazes de evitar o desgaste. O desfile que pretendia projetar imagem, força e narrativa de Luiz Inácio, terminou como símbolo de rejeição pública, fracasso estratégico e exposição negativa. Entre vaias na avenida, memes nas redes e o amargo último lugar, o Carnaval 2026 escancarou que o palco do samba não perdoa improviso político, e que, quando o público responde, a resposta ecoa muito além do Sambódromo.
A Acadêmicos de Niterói decidiu levar para a avenida uma homenagem Luiz Inácio, mas esqueceu de combinar com o povo. O que se viu não foi o "mar de amor" prometido, mas uma divisão profunda marcada por vaias que as transmissões oficiais tentaram ignorar.
O ponto cego dessa estratégia é óbvio: enquanto o governo tenta usar o samba como ferramenta de propaganda e validação popular, o público real, que sente no bolso o peso das decisões de Brasília, deu o seu veredito. O Carnaval sempre foi o palco onde o povo satiriza o Rei, nunca onde o súdito o exalta. Ao transformar o desfile em palanque, a escola não apenas sacrificou a estética, mas também a sua conexão com a realidade das arquibancadas, amargando assim sua volta para o grupo de acesso.

