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O último balcão: como os mercadinhos de bairro resistem à erosão do tempo

Eles sobrevivem à erosão do tempo e se modernizaram como puderam. Os minimercados, armazéns ou bodegas tornaram-se serviços essenciais para moradores, evitam a competição com as grandes redes e nutrem o bom relacionamento com o cliente como base

No caderno, Doralice anota as compras dos clientes que consomem fiado - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

No balcão corroído pelo tempo, Maria Doralice, 46 anos, ajeita a máquina de cartão, confere o caderno de fiado e levanta, pontualmente às 7h, a porta de aço de enrolar. Por trás de uma grade, gerencia um minimercado no Trecho 3 do Sol Nascente, uma das zonas mais pobres da capital federal. O pequeno armazém é renda, sustento, comodidade e proximidade com os clientes. Em meio à expansão atacadista, as bodegas resistem à erosão do tempo e mantêm um contrato social erguido por confiança, honra e reputação.

Na fachada da lojinha, o nome Dora é escrito com tinta branca. O letreiro indica o ponto, que só tem hora para abrir. O armazém nasceu há três anos, junto à mudança de endereço de Águas Lindas de Goiás para o Sol Nascente. A empreendedora e o marido mudaram-se com os filhos, de 8 e 18 anos, em busca de melhores condições de vida. Decidiram dividir o lote com o mercadinho.

À frente do comércio, Doralice senta-se em um banco de madeira. De sorriso largo, observa o vaivém dos moradores na rua de terra batida. Parar no mercadinho é quase que um ritual da vizinhança. "Não trocaria isso por nada", diz. A satisfação não se baseia no retorno financeiro, mas no prazer de tocar o próprio negócio e na liberdade de costurar um elo de confiança com a clientela.

Na hora da venda, usa da lábia profissional adquirida nos longos anos de prestação de serviço no comércio. Ela se gaba. "Sempre fui muito boa vendedora. Vendia confecções em Águas Lindas e até em Manaus. Agora, a diferença é que trabalho para mim."
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"O leite tem que estar na frente. É o que mais vende", diz Doralice enquanto arruma uma das prateleiras. Os expositores são apertados e os produtos limitados. A intenção não é competir com um supermercado, mas atender a população local para compras básicas do dia a dia. Estratégia essa adotada por milhares de empreendedores que decidiram, somente no primeiro semestre de 2025, abrir mais de 29 mil pequenos negócios do ramo no país, revela um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O supermercado mais próximo dos moradores do Trecho 3 está a um raio de 6km. A maioria dos vizinhos depende dos ônibus ou caminha quilômetros para ter acesso ao consumo. A localização do minimercado é estratégica. Ela começou a vender bebidas — principalmente alcóolicas —, mas expandiu a variedade de produtos após apelo da comunidade. "É uma mãe que precisa comprar o leite da criança, um salgadinho ou suco para o lanche da escola. Às vezes um instantâneo", descreve.

Sem contratos fixos com fornecedores e espremida no espaço, Doralice peregrina, toda semana, pelos atacarejos da capital em busca da melhor oferta. Na lista, carrega o essencial. Mistura o chamado "grosso", como café, leite, feijão, arroz e óleo, àqueles que vendem como água, como salgadinhos, doces, refrigerantes e produtos de higiene.

O armazém não comporta uma seção de padaria, mas a saída do pão de leite é tamanha que obriga Doralice a um arranjo quinzenal. A cada duas semanas, ela encomenda o produto com um pequeno produtor local.

Mas o bom preço não é suficiente para manter os clientes fixos, garante a empreendedora. Uma boa venda exige itens de qualidade e sorriso no atendimento. Quando iniciou o negócio, atraiu para uma restrita lista de fiado cerca de 10 pessoas. São clientes de longa data e fiéis no pagamento. A depender do cliente, a quitação é semanal, quinzenal ou mensal.

Mesmo tendo à disposição ferramentas mais tecnológicas, prefere as anotações no pequeno caderno com espiral. A cada conta debitada, um "ok" ou "pg" ao lado do nome do devedor. "Procuro ser muito clara com os clientes que compram fiado. Limito as compras em até R$ 200 e restrinjo vendas de algumas mercadorias, como cerveja ou cigarro", explica.

Maria Silva do Nascimento, 36, é uma das 10 clientes. Ela mora em frente ao mercadinho, é dona de casa, casada e mãe de quatro filhos. Por mês, compra quase R$ 500 nas mãos de Doralice e paga no quinto dia útil. "Só vou ao mercado grande duas vezes por mês para fazer compras maiores ou quando vou no açougue. O mais perto daqui fica a 10 minutos caminhando", relata.

Do mercadinho, leva mais itens para as crianças: refrigerante, leite, achocolatado, leite condensado, suco e salgadinho. "Quando chego lá, a Dora corre para me atender. Pode estar com outro cliente, que ela para tudo", diz ao elogiar o atendimento da vizinha.

Relacionamento

De acordo com o Estudo Setorial Minimercados, do Sebrae, quando o assunto é comportamento e consumo, o pagamento em dinheiro é opção para 42% dos clientes do pequeno varejo. Em 52% dos casos, opta-se pelo cartão de crédito ou débito. Chama a atenção os 38% das vendas por fiado, mantendo viva uma tradição longeva, na qual prevalece o sistema informal de crédito.

Bruno Vinícius, professor de finanças e contabilidade da Universidade de Brasília (UnB), atribui ao relacionamento entre cliente e empreendedor a base para os pequenos negócios. "Grandes atacarejos não priorizam a proximidade com quem compra, para além da questão logística, como grandes filas e localização."

A geografia do comércio dita o ritmo do faturamento do minimercado e permite maior agilidade para se adaptar às demandas dos consumidores. Segundo o economista, em áreas de baixa renda, por exemplo, clientes das classes C e D tendem a optar pelas compras básicas, diárias, a depender da necessidade. "Esse público está propenso a compras mais espaçadas ao longo do mês", argumenta.

O levantamento do Sebrae aponta que os grandes atacarejos encontram dificuldade para competir com os pequenos mercados em um aspecto decisivo: a proximidade com o cliente. A pesquisa aponta que, enquanto as grandes redes decolam na economia de escala, os mercadinhos estreitam o vínculo com o consumidor e evitam a burocracia na tomada de decisão.

A relação distante das redes maiores se restringe também aos funcionários. A preocupação das centenas de colaboradores diante das máquinas se resume a "despachar" os clientes em tempo recorde. Nos mercadinhos visitados pela reportagem, ocorre o inverso. O cliente entra, puxa uma cadeira, comenta da vizinhança, do valor dos produtos e transforma o balcão em confessionário.

Sem volta à CLT

Assim como Doralice, Alcine Nazaré, 37, e o marido, Tialen Silva, 36, articulam tudo quando o assunto é tocar o próprio negócio, mas deixam o salário em segundo plano. Continuam no setor porque gostam do que fazem e não cogitam voltar a bater ponto.

Há nove anos, uma das ruas da Chácara Santa Luzia, na Estrutural, ganhou movimento com dois dos três comércios existentes na avenida. Alcine e Tialen gerenciam uma distribuidora de bebidas e um mercadinho. A ideia do Brasilar — nome do minimercado — partiu de Tialen, que sempre nutriu amor pelo trato com o público. Alcine, a companheira, ganhava a vida como designer de sobrancelhas. Após a gravidez, abriu mão dos atendimentos, da henna e da pinça para acompanhar o marido nos negócios.

O casal começou a empreender com a distribuidora. Cinco anos mais tarde, cruzou a rua para fundar o Brasilar, onde uma escada divide a vida doméstica e o trabalho. "A vizinhança reclamava da distância do supermercado", comenta Alcine. Há dois anos, eles se formalizaram como microempreendedores e abriram canais diretos de negociação. Cerca de 90% das mercadorias chegam de caminhão dos próprios fornecedores. A rotina é quinzenal. A exceção são os fardos de arroz e feijão, adquiridos em atacadistas. "Não compramos por volume. Compramos para reabastecer. Quando acaba, repomos. Não podemos ter prejuízo", resume a mulher.

A compra com fornecedores também é limitada. O economista Bruno Vinícius destaca a falta de estoques nos pequenos mercados para o armazenamento de produtos, diferentemente das grandes redes. "A vantagem de comprar com o fornecedor é conseguir melhores preços e a entrega no local. Quando se vai a um atacadista, há custo de frete e a possibilidade de não encontrar preços vantajosos", frisa.

Na última prateleira de um dos expositores, um cartaz clássico recortado em formato de "explosão" anuncia a promoção de fraldas infantis: "R$ 36,99". O preço está congelado no mesmo patamar de meses atrás. O semblante de Alcine se desmancha de lamento. "To vendendo pelo mesmo valor que comprei. Só para não perder." O desabafo descortina a realidade do empreendedorismo do comércio miúdo. "Essas caixas são de mercadorias vencidas. Perdi tudo e não tem o que fazer", conta ela, apontando para o amontoado de caixas de papelão.

Nos dois empreendimentos, de Doralice e do casal, há lacunas na profissionalização. Separar e alimentar a planilha de gastos e lucros é desafio, admite Alcine. Se o controle dos produtos nas prateleiras é feito a olho nu, a contagem de quem entra e sai se apoia na memória dos rostos. Trinta por cento dos empreendedores de minimercados do país dizem não definir claramente o tamanho do estoque que têm, 75% não sabem sobre o ticket médio, 55% desconhecem quantos consumidores vão às lojas e 45% não quantificam o percentual de perdas ou quebras.

Na próxima reportagem, o Correio aborda a questão econômica do negócio, ultrapassando a relação entre cliente e empreendedor e revelando a operação lógica do fracionamento.

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