O Metrópoles teve acesso exclusivo às câmaras da DGCV, onde estão preservados cerca de 318 mil vestígios desde 2004
KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

Um vestígio coletado hoje em uma cena de crime pode voltar a ser analisado daqui a 10, 15 ou até 20 anos. É para garantir essa possibilidade que a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) mantém cerca de 380 mil fragmentos sob custódia da Divisão de Gestão e Custódia de Vestígios (DGCV). Entre eles estão amostras de sangue, saliva e cabelo utilizados em exames de DNA, além de armas, roupas, aparelhos eletrônicos e outros materiais capazes de sustentar investigações e ajudar a esclarecer crimes.
O acervo, que reúne vestígios desde 2004, concentra provas ligadas a alguns dos casos mais emblemáticos da história recente do Distrito Federal. Entre eles estão o triplo homicídio da 113 Sul, ocorrido em 2009, e a chacina que deixou 10 mortos no DF e Entorno entre o fim de 2022 e o início de 2023.

Cadeia de custódia
Tudo começa ainda na cena do crime. O vestígio é recolhido por policiais e encaminhado à DGCV dentro de um fluxo rigoroso que forma a cadeia de custódia. O material chega sempre lacrado, em embalagens apropriadas – como envelopes de papel ou plástico, tubos e recipientes específicos — e só pode ser manipulado por servidores com luvas, para evitar qualquer tipo de contaminação.
Na chegada à unidade, o primeiro procedimento é o registro no sistema informatizado Lins. Cada item tem o código de barras bipado e é conferido com a documentação que o acompanha. Nesse momento, a equipe verifica a integridade do lacre, a identificação e a correspondência com o registro original. Só após essa checagem o vestígio é oficialmente incorporado ao sistema.

Triagem
Em seguida, o material passa por uma triagem técnica. Ele é separado conforme o tipo e a necessidade de preservação. Vestígios biológicos e toxicológicos seguem fluxos diferentes, com cuidados específicos de armazenamento e segurança. Em alguns casos, substâncias tóxicas têm prazo de validade para análise, podendo chegar a cerca de um ano, após o qual podem ser descartadas conforme norma técnica.
O processo é marcado por conferências sucessivas, como explica o diretor da DGCV, João Pitaluga, há dupla checagem em todas as etapas. “Não pode errar. O erro pode acontecer, mas não pode ir para frente. Sempre há alguém para revisar e corrigir. Tudo é checado e rechecado”, resume.
Ele reforça, ainda, a rastreabilidade completa dos materiais. “Cada vestígio possui uma trajetória documentada. Nós registramos a origem do material, o procedimento ao qual ele está vinculado, a identificação do lacre, quem encaminhou, quem recebeu, onde ele está guardado, todas as movimentações realizadas, encaminhamentos para exames, devoluções e a situação atual. Isso permite demonstrar que o material preservado hoje é exatamente o mesmo coletado durante a investigação”, afirma.
Depois de catalogado, o vestígio segue para o ambiente mais adequado ao seu tipo, com controle de umidade, temperatura e segurança reforçada. Para o diretor, o trabalho vai além do simples armazenamento. “A divisão não faz apenas armazenamento. Nós realizamos uma guarda técnica. Cada tipo de vestígio demanda condições próprias de preservação para que suas características originais sejam mantidas e seu valor probatório não seja comprometido”, destaca.
Armazenamento
Após a triagem, os vestígios são acondicionados e encaminhados ao armazenamento definitivo. A DGCV utiliza diferentes condições de preservação, incluindo câmara fria e câmara seca, de acordo com a natureza de cada material.
O Metrópoles teve acesso exclusivo às áreas de armazenamento da unidade e entrou na câmara fria — um dos espaços mais sensíveis e restritos da DGCV. O ambiente abriga, principalmente, vestígios biológicos e exige controle rigoroso de temperatura para evitar degradação ao longo do tempo.

É nesse ambiente que ficam armazenados vestígios biológicos que exigem maior tempo de preservação, como roupas encaminhadas para perícia com possíveis vestígios de sangue, amostras biológicas, fios de cabelo e tecidos. Segundo o diretor da DGCV, a preservação adequada é essencial para a confiabilidade das futuras análises.
“Materiais com presença ou suspeita de sangue, saliva, sêmen, fios de cabelo, tecidos e outras amostras úteis para análise genética exigem cuidados específicos. Uma preservação inadequada pode comprometer exames importantes, especialmente os relacionados à identificação por DNA”, afirma João Pitaluga.
O acesso é extremamente limitado: apenas três servidores possuem autorização para entrar na câmara fria. A entrada exige o uso de equipamentos específicos, como casacos e botas apropriadas, além do cumprimento de protocolos rigorosos. A permanência no local também é reduzida, justamente para evitar qualquer alteração nas condições de preservação dos materiais.
A câmara fria é mantida a aproximadamente -20°C, condição essencial para preservar a integridade de materiais sensíveis e permitir futuras reanálises mesmo após anos. Já a câmara seca abriga materiais que não necessitam de refrigeração, mas que ainda precisam de controle ambiental e segurança para manter sua integridade, como exames toxicológicos, armas e outros vestígios não biológicos.
Crime da 113 Sul
A importância da preservação desses materiais pode ser observada em um dos crimes mais conhecidos da capital. Uma impressão palmar encontrada na cena do triplo homicídio da 113 Sul tornou-se um dos vestígios centrais da investigação sobre a morte do ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, da esposa dele, Maria Carvalho Mendes Villela, e da funcionária da família, Francisca Nascimento da Silva.
O crime ocorreu em agosto de 2009, quando as três vítimas foram assassinadas com mais de 70 facadas dentro do apartamento da família. A impressão palmar preservada, atribuída à arquiteta Adriana Villela, filha do casal, foi transformada em prova pericial e permaneceu no centro dos debates judiciais ao longo dos anos.
Mais de 16 anos depois, o caso continua produzindo desdobramentos. Em setembro do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou o júri que havia condenado Adriana Villela a 61 anos de prisão por entender que a defesa não teve acesso integral a elementos considerados relevantes para o processo. A decisão não absolve a acusada, mas evidenciou como vestígios preservados por anos podem continuar sendo analisados, questionados e reavaliados em diferentes fases da tramitação judicial.
A maior chacina da história do DF
Nem todo vestígio, porém, é biológico. Entre os materiais preservados pela PCDF também estão celulares e dispositivos eletrônicos apreendidos durante investigações.
Foi o que ocorreu na chacina que deixou 10 mortos entre o Distrito Federal e Goiás entre o fim de 2022 e o início de 2023, considerada a maior da história da capital. Durante as investigações, os celulares das vítimas se transformaram em peças-chave para a reconstrução dos crimes.
Segundo a Polícia Civil, os integrantes do grupo criminoso utilizaram os aparelhos para se passar por familiares das vítimas e enviar mensagens a parentes, atraindo novas pessoas para emboscadas. A análise dos dispositivos permitiu aos investigadores reconstituir a sequência dos sequestros e assassinatos, demonstrando que vestígios não se limitam a sangue, armas ou materiais biológicos. Informações armazenadas em equipamentos eletrônicos também podem se transformar em provas decisivas para a elucidação de crimes e a responsabilização dos envolvidos.
