Pedido de investigação internacional contra filme sobre Bolsonaro faz ressurgir condenações, delações da Lava Jato e processos que marcaram a trajetória política de Lindbergh Farias
A decisão do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) de acionar a Polícia Federal e a Interpol para investigar o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), provocou reações no meio político e trouxe de volta discussões sobre o histórico nada agradável do próprio parlamentar.
No pedido encaminhado às autoridades, Lindbergh solicita uma ampla apuração internacional sobre a origem dos recursos utilizados na produção cinematográfica. O parlamentar argumenta que reportagens recentes apontam a participação de empresas e estruturas financeiras sediadas em diferentes países, incluindo Estados Unidos, Holanda e Hungria, o que justificaria o rastreamento dos valores e a identificação dos financiadores envolvidos.
No ofício enviado à PF e à Interpol, Lindbergh pede a preservação de contratos, registros financeiros, mensagens comerciais e documentos relacionados ao filme. Entre os pontos destacados pelo deputado estão informações divulgadas pela imprensa sobre supostas movimentações financeiras internacionais envolvendo empresas ligadas à produção da obra.
A medida ocorre em meio ao acirramento da disputa política nacional e amplia a polarização em torno de Bolsonaro e de seus aliados. Para críticos da iniciativa, a ofensiva tem forte componente político, especialmente por ocorrer em um momento de reorganização das forças de oposição e de crescente exposição pública do ex-presidente e de sua família.
O passado de Lindemberg Farias
A iniciativa, porém, não passou despercebida por adversários políticos. Opositores de Farias afirmam que o deputado busca transformar uma produção audiovisual em alvo de uma investigação internacional sem que, até o momento, tenham sido apresentadas evidências públicas de irregularidades criminais relacionadas ao financiamento do projeto.
O episódio também ressuscitou lembranças de controvérsias que acompanharam a carreira política de Lindbergh. Durante sua trajetória como prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, sua administração foi alvo de investigações e questionamentos por parte de órgãos de controle e do Ministério Público. Embora o parlamentar sempre tenha negado irregularidades e se defendido das acusações apresentadas ao longo dos anos, que apontam uma aparente contradição entre o rigor que agora exige de terceiros e os episódios que marcaram sua própria passagem pelo Executivo municipal.
A gestão de Lindbergh em Nova Iguaçu, entre 2005 e 2010, acumulou uma série de processos e ações judiciais envolvendo suspeitas de improbidade administrativa e irregularidades na aplicação de recursos públicos. Ao longo dos anos, decisões judiciais apontaram problemas em contratações, procedimentos administrativos e na condução de convênios firmados durante seu mandato.
Entre os casos mais conhecidos estão condenações relacionadas à improbidade administrativa decorrentes de irregularidades em processos licitatórios e contratações públicas. Em uma das decisões, a Justiça responsabilizou a gestão pela falta de prestação de contas de um convênio de R$ 174 mil firmado com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Outros processos também abordaram supostas práticas de favorecimento político e nomeações consideradas incompatíveis com os princípios da administração pública.
Além disso, o ex-prefeito foi citado em investigações que apuraram supostos esquemas de corrupção envolvendo empresas contratadas pelo município. Em delações premiadas da Odebrecht, executivos relataram supostos repasses de valores em troca de favorecimentos relacionados a contratos públicos, acusações que passaram a integrar o histórico de questionamentos enfrentados pelo parlamentar. As acusações sempre foram contestadas por Lindbergh, que nega ter recebido qualquer vantagem indevida.
Outro episódio frequentemente lembrado por adversários políticos envolve as investigações decorrentes da Operação Lava Jato. Lindbergh foi citado em delações de executivos da Odebrecht e em documentos apreendidos durante as apurações, nos quais apareceria identificado pelo codinome "Lindinho". As referências fizeram com que seu nome passasse a integrar uma das frentes de investigação relacionadas à atuação da empreiteira junto a agentes públicos.
Segundo relatos prestados por ex-executivos da construtora, teriam sido realizados repasses de aproximadamente R$ 4,5 milhões em recursos não declarados destinados às campanhas eleitorais de 2008 e 2010. Os delatores afirmaram que os valores estariam associados a interesses da empresa em contratos e projetos desenvolvidos durante o período em que Lindbergh administrou a Prefeitura de Nova Iguaçu.
Entre as supostas contrapartidas mencionadas pelos colaboradores da Lava Jato estava o favorecimento da empreiteira em iniciativas ligadas à administração municipal, incluindo projetos habitacionais e contratos relacionados ao programa Pró-Moradia. As declarações serviram de base para a abertura de procedimentos investigativos que chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado exercido pelo parlamentar à época.
As contestações de opositores também alcançam o núcleo político mais próximo do deputado. Sua esposa, a deputada federal e ex-presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, teve o nome citado nas investigações da Operação Lava Jato após aparecer em planilhas do chamado Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht sob os codinomes "Amante" e "Coxa". As anotações faziam referência a supostos repasses relacionados a campanhas eleitorais e acabaram se tornando um dos episódios mais explorados por adversários políticos ao longo dos anos.
Apesar da repercussão das citações, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal absolveu Gleisi Hoffmann, em 2018, das acusações de corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionadas aos repasses atribuídos à Odebrecht, por entender que não havia provas suficientes para sustentar uma condenação. A parlamentar também foi absolvida em outro processo que investigava supostos desvios envolvendo contratos de empréstimos consignados. Ainda assim, os registros constantes das planilhas da empreiteira seguem sendo frequentemente mencionados no debate político nacional.
Recentemente, Gleisi Hoffmann lançou sua pré-candidatura ao Senado pelo Paraná. No entanto, levantamentos de opinião divulgados nos últimos meses indicam um cenário desafiador para a ex-dirigente petista na disputa. Em algumas pesquisas, a parlamentar aparece fora das primeiras posições, o que pode dificultar sua permanência no Congresso Nacional, considerando que estarão em disputa apenas duas vagas para o Senado no estado nas eleições de 2026.
Lindbergh, por sua vez, sempre rejeitou as acusações e sustentou que jamais recebeu recursos ilícitos da Odebrecht. Sua defesa classificou as delações como insuficientes para comprovar irregularidades e defendeu o arquivamento das investigações, alegando ausência de provas que corroborassem os relatos dos delatores.
Na esfera judicial, o deputado recorreu de diversas decisões e sustenta que muitos dos atos questionados não foram praticados diretamente por ele. Sua defesa também afirma que não há comprovação de enriquecimento ilícito ou recebimento de propina durante sua passagem pela prefeitura.
Enquanto isso, a discussão sobre os limites entre fiscalização legítima e instrumentalização política de mecanismos de investigação promete ganhar novos capítulos em Brasília. Para a oposição, a iniciativa de Lindbergh evidencia uma tentativa de direcionar o foco para adversários políticos, ao mesmo tempo em que retoma a discussão sobre episódios que marcaram sua própria trajetória na vida pública e a de figuras próximas do comando nacional do PT.
