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PCC e CV: o que a atitude dos EUA na América Latina indica ao Brasil

Classificação de PCC e CV como terroristas segue precedentes na região e pode produzir efeitos que vão além do combate ao crime organizado

 DiscoverArte Metrópoles/Carla Sena

A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos coloca o Brasil diante de uma estratégia que Washington já vem aplicando em outros países da América Latina.

No México, na Colômbia e na Venezuela, medidas semelhantes foram acompanhadas por ampliação de sanções, maior cooperação em inteligência e crescente pressão sobre redes financeiras ligadas ao crime organizado.

As duas organizações passaram a integrar, na sexta-feira (5/6), a mesma arquitetura de segurança utilizada pelos EUA para combater grupos terroristas, cartéis de drogas e organizações armadas transnacionais.

Ao Metrópoles, o especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Vitor de Pieri, afirma que os casos latino-americanos mostram que, quando Washington passa a enquadrar grupos criminosos sob a lógica do terrorismo, a questão deixa de ser exclusivamente policial.
O que muda para o Brasil

Outro aspecto apontado é o potencial impacto sobre a percepção internacional do Brasil.

Ao enquadrar facções brasileiras na categoria de organizações terroristas, o governo norte-americano reforça uma narrativa que associa o país não apenas ao problema da criminalidade organizada, mas também a desafios relacionados ao controle territorial e à capacidade institucional de enfrentar essas estruturas.

Nas últimas décadas, o Brasil buscou consolidar uma imagem ligada à estabilidade democrática, à liderança regional, ao protagonismo ambiental e ao potencial econômico.

Segundo Pieri, o fortalecimento da narrativa do narcoterrorismo pode deslocar parte dessa percepção para uma visão mais associada a vulnerabilidades e riscos.

O Departamento de Estado sustenta que PCC e CV “cometeram ou tentaram cometer, representam risco significativo de cometer ou participaram de treinamento para cometer atos terroristas” que ameaçam a segurança nacional, a política externa ou a economia norte-americana.


Ao Metrópoles, fontes do Departamento de Estado já haviam adiantado que qualquer pessoa ou empresa — dentro ou fora dos Estados Unidos — que mantenha relações financeiras ou materiais com integrantes das facções poderá ser alvo de sanções, processos criminais e até medidas migratórias.

Uma nova fase da estratégia americana

Precedente mexicano

O México é um dos principais atores e oferece um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança de abordagem. Durante décadas, os cartéis foram tratados prioritariamente como organizações ligadas ao narcotráfico.

Com o fortalecimento financeiro, militar e territorial dos grupos ao longo do tempo, setores políticos norte-americanos passaram a defender que eles representavam uma ameaça à segurança nacional dos EUA.

Na prática, o narcotráfico deixou de ser visto somente como um “problema criminal”, para assumir dimensão estratégica.

O próprio governo Donald Trump já havia adotado estratégia semelhante ao classificar organizações como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG) dentro da estrutura de combate ao terrorismo, ampliando o alcance de medidas financeiras e judiciais contra integrantes e redes de apoio.


Ao mesmo tempo, a presidente Claudia Sheinbaum tem buscado aprofundar a cooperação com Donald Trump no combate ao narcotráfico, sem abrir mão do discurso de defesa da soberania do México, por meio de ações conjuntas e compartilhamento de inteligência.


Colômbia e Venezuela


Com a ascensão da agenda global de combate ao terrorismo, grupos armados passaram a ser enquadrados não apenas como organizações insurgentes ou criminosas, mas também como ameaças terroristas.

Essa mudança abriu espaço para uma ampliação sem precedentes da cooperação entre Bogotá e Washington, envolvendo transferência de recursos, treinamento militar, tecnologia, equipamentos e compartilhamento de inteligência.

Independentemente das avaliações sobre os resultados da estratégia, o caso colombiano é frequentemente apontado como exemplo de como a classificação de uma ameaça como terrorista pode justificar níveis muito mais elevados de cooperação internacional e aumentar a influência de atores externos sobre políticas nacionais de segurança.

A Venezuela oferece uma perspectiva diferente, mas igualmente relevante.


Segundo Pieri, a principal lição venezuelana é que classificações ligadas ao terrorismo frequentemente extrapolam o combate ao crime organizado.

“A questão deixa de ser apenas criminal e passa a integrar uma disputa geopolítica mais ampla”, explica.

Nos precedentes venezuelanos, a designação foi acompanhada por sanções econômicas, isolamento diplomático, operações de inteligência e aumento da pressão internacional sobre atores considerados ligados às organizações enquadradas.

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