Artigo do presidente brasileiro em jornal americano reforça discurso de soberania, enquanto lideres mundiais apontam desgaste nas relações bilaterais e impactos econômicos do tarifaço
Trump e Lula em encontro no ano passado: decisão definitiva sobre tarifaço deve sair até o próximo dia 15. Brasil teme influência política na decisão — Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP
Por Celso Alonso | BRASÍLIA | 26 de julho de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a elevar o tom contra o governo dos Estados Unidos ao publicar, neste domingo (26), um artigo no jornal norte-americano The Washington Post, no qual critica as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump sobre produtos brasileiros e afirma que "ninguém nos derrotará com mentiras".
No texto, Lula sustenta que o Brasil não aceitará interferências externas e defende a soberania nacional. Também acusa Washington de utilizar motivações políticas para justificar as sanções comerciais e afirma que tentativas de impor restrições ideológicas à relação entre os dois países "não prosperarão".
A publicação ocorre em um momento de forte desgaste diplomático entre Brasília e Washington. Um dia antes, o governo brasileiro negou vistos a dois integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam viajar ao Brasil para tratar de questões relacionadas ao processo eleitoral de 2026, decisão que ampliou a tensão entre os dois governos.
Tarifaço amplia pressão sobre a economia
Em seu artigo, Lula afirma que as novas tarifas, que variam de 12,5% a 37,5%, ignoraram negociações técnicas realizadas entre os dois países. Segundo ele, a medida prejudicará empresas e consumidores americanos e levará o Brasil a buscar novos parceiros comerciais.
Entretanto, analistas do mercado internacional avaliam que o impacto das tarifas também pode atingir setores relevantes da economia brasileira, especialmente segmentos exportadores que têm nos Estados Unidos um dos principais destinos de seus produtos. Empresários vêm demonstrando preocupação com possíveis perdas de competitividade e redução das exportações diante da crise causada pelo governo brasileiro ao atacar insistentemente o governo americano.
Discurso de soberania volta a estratégia
No artigo, Lula voltou a utilizar o discurso da soberania nacional como principal eixo de sua resposta à crise diplomática. A estratégia já havia sido adotada durante o primeiro anúncio das tarifas americanas, quando o governo buscou transformar o embate externo em uma pauta política interna.
Críticos da administração federal, no entanto, argumentam que a retórica nacionalista não resolve os problemas econômicos decorrentes da deterioração das relações comerciais com os Estados Unidos. Para esse grupo, o governo deveria priorizar negociações diplomáticas capazes de reduzir as barreiras comerciais e evitar prejuízos aos exportadores brasileiros.
Acusações e defesa do governo
Lula também rebateu críticas relacionadas à liberdade de expressão nas redes sociais, ao sistema de pagamentos Pix e às políticas ambientais brasileiras. O presidente afirmou que o combate aos crimes ambientais foi intensificado desde o início de seu terceiro mandato e negou qualquer discriminação contra empresas americanas.
Ao final do artigo, o presidente declarou que o Brasil continuará negociando com todos os países que respeitem sua soberania e encerrou o texto afirmando que "ninguém nos derrotará com mentiras".
Enquanto o Palácio do Planalto aposta no fortalecimento do discurso de defesa nacional, a escalada das tensões com Washington mantém empresários e agentes do mercado atentos aos possíveis desdobramentos econômicos e diplomáticos da crise entre os dois países.
