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De doméstica a tenente da PM: mulher relembra trajetória até ser aprovada em concurso público

Lusinete começou a trabalhar aos 12 anos como babá e empregada doméstica para ajudar no sustento da família. Após anos conciliando trabalho e estudos, ingressou na Polícia Militar.

Por Igor Carneiro, Brenda Santos, 

Lusinete Bispo Araújo, de 50 anos, ex-empregada doméstica, tornou-se 1ª tenente da PM do Tocantins. Ela alcançou o posto de oficial em 21 de abril.

Nascida em Almas, ela trabalhou desde os 12 anos. Após 6 anos como doméstica em Brasília, retornou ao Tocantins e passou no concurso da PM em 2001.

A socióloga Solange Nascimento explicou que cotas e políticas públicas de permanência em universidades têm possibilitado a mobilidade social de mulheres negras e indígenas.

A trajetória da militar Lusinete Bispo Araújo, de 50 anos, é marcada pela superação. Natural de Almas, no sudeste do Tocantins, ela trabalhou como empregada doméstica, enfrentou mudanças de estado, exerceu trabalhos braçais e assumiu, ainda na infância, a responsabilidade de ajudar nas despesas da família. Anos depois, conquistou a aprovação no concurso público da Polícia Militar do Tocantins e hoje ocupa o posto de 1ª tenente da corporação.

Lusinete começou a trabalhar aos 12 anos como babá. Filha mais velha de sete irmãos e de pais separados, ela contou que precisou ajudar a mãe nas despesas da família desde cedo.

"Comecei como babá e depois fui para a o serviço de doméstica. Como sou a filha mais velha de uma prole de sete irmãos, tinha que ajudar minha mãe de alguma forma. Essa situação acabou me impulsionando a sair daquele ponto e partir para um ainda mais longe”, recordou.

Aos 17 anos, Lusinete se mudou sozinha para Brasília, onde trabalhou como empregada doméstica por mais seis anos. Durante o dia, enfrentava a rotina exaustiva da limpeza e, à noite, se dedicava aos estudos para concluir o ensino fundamental e médio.

Ao retornar ao Tocantins, ela enfrentou uma rotina intensa e solitária de preparação. Morando em Palmas, frequentava cursinhos nos finais de semana.

Lusinete Bispo Araújo trabalhou como doméstica por mais de uma década antes de ingressar na corporação — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal de Lusinete Bispo

"Decidi que precisaria passar em um concurso público para garantir minha estabilidade. Fiz um cursinho nos finais de semana e estudava sozinha em casa. Estudava à noite e, nos finais de semana, na folga do trabalho, intensificava os estudos", contou Lusinete.

A recompensa veio em 2001, quando, após quase uma década em trabalhos domésticos, Lusinete foi aprovada no concurso da Polícia Militar aos 26 anos. "Sempre busquei algo melhor porque não queria ficar nesse trabalho o tempo todo", explicou.

Após 25 anos de dedicação à segurança pública no Tocantins, a história de Lusinete ganhou um novo capítulo. No dia 21 de abril deste ano, ela conquistou o posto de oficial da corporação. Atualmente, serve como 1ª tenente da PM, cargo que reflete sua evolução dentro da estrutura militar.

"Trabalhei como doméstica por muitos anos da minha vida e só deixei essa profissão depois que ingressei no concurso da Polícia Militar", contou, cheia de orgulho pela conquista.

Lusinete hoje é tenente da PM no Tocantins — Foto: Reprodução/TV Anhanguera

Mobilidade social

O caminho de Lusinete reflete uma realidade histórica e social do Brasil. Segundo a socióloga Solange Nascimento, em entrevista à TV Anhanguera, a estrutura do trabalho doméstico no país ainda guarda raízes do período escravagista.

"As mulheres negras eram aquelas que trabalhavam nas casas, que faziam todo esse processo de socialização das crianças e do cuidado da casa, e isso se reproduz até hoje. Atualmente, nós temos políticas públicas de acesso e permanência nas universidades para mulheres negras, indígenas e quilombolas, e essas políticas possibilitam que haja uma mobilidade social", explicou Solange.

A socióloga destacou que mecanismos como as cotas no serviço público e as políticas de permanência nas universidades têm possibilitado a mobilidade social de mulheres negras e indígenas no Brasil. "Nós também temos as vagas destinadas às cotas no serviço público. Então, existem canais que têm sido criados para possibilitar que haja uma mobilidade social", concluiu a especialista.

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