Mestranda da UnB aponta presença de nascentes, cursos naturais de água e solo hidromórfico; mudanças no zoneamento urbano levantam questionamentos sobre a ocupação de área anteriormente destinada à preservação ambiental
Por Celso Alonso | VALPARAÍSO DE GOIÁS 23/10/2026
A ocupação urbana nas proximidades da voçoroca localizada às margens da BR-040, em Valparaíso de Goiás, voltou a levantar preocupações sobre a preservação ambiental e os riscos associados ao crescimento imobiliário na região. A pesquisadora Paloma Ludmyla Morais de Medeiros, mestranda da Universidade de Brasília (UnB) na área de drenagem sustentável, chama a atenção para características ambientais que, segundo ela, precisam ser consideradas antes da autorização de novos empreendimentos.
Entre os pontos destacados estão a presença de nascentes, cursos naturais de água e solo hidromórfico, características que exigem atenção especial no planejamento da ocupação do território. A pesquisadora também questiona as alterações no zoneamento urbano que teriam permitido a construção de edifícios de até oito pavimentos em uma área anteriormente identificada como destinada à preservação ambiental.
Mapas e mudanças no zoneamento
Segundo as informações levantadas pela pesquisadora, mapas de 2012 indicavam a área como de preservação ambiental. Em 2018, entretanto, parte do perímetro teria sido retirada dessa classificação e posteriormente enquadrada em uma zona de uso misto, possibilitando uma ocupação urbana mais intensa.
A eventual mudança de classificação levanta questionamentos sobre os critérios técnicos utilizados para redefinir o uso do solo, especialmente em uma região marcada pela presença de recursos hídricos e por um processo erosivo de grandes proporções.
Para esclarecer a situação, é necessário consultar os mapas oficiais, as leis de uso e ocupação do solo e os estudos técnicos que fundamentaram as alterações. A confirmação documental desses elementos é essencial para compreender quais atividades são permitidas no local e quais restrições ambientais continuam em vigor.
A presença de nascentes, áreas úmidas e caminhos naturais de escoamento da água torna o planejamento da drenagem um fator importante para a segurança ambiental da região.
A implantação de grandes empreendimentos pode modificar a permeabilidade do solo e aumentar o volume de água que escoa pela superfície. Sem sistemas adequados de captação e condução das águas pluviais, esse processo pode contribuir para o agravamento de erosões e ampliar a pressão sobre áreas ambientalmente vulneráveis.
No caso da voçoroca próxima à BR-040, a análise da ocupação urbana deve considerar não apenas o terreno destinado a cada empreendimento, mas também a dinâmica da água em toda a área de influência. Estudos hidrológicos, geotécnicos e ambientais podem ajudar a identificar riscos e definir medidas preventivas.
O Plano Diretor de Valparaíso de Goiás foi instituído pela Lei Complementar nº 063, de 19 de julho de 2012. A legislação municipal relacionada ao zoneamento e ao uso do solo também integra o conjunto de normas que deve ser consultado para verificar as regras aplicáveis à região.
Outro ponto de atenção é o Decreto Municipal nº 025, de 15 de janeiro de 2026, que suspendeu a emissão de licenças e alvarás ambientais para novos edifícios multifamiliares em localidades expressamente relacionadas no ato. A medida foi apresentada no contexto da preservação ambiental, do ordenamento urbano e da necessidade de evitar sobrecarga na infraestrutura.
Ainda é necessário confirmar, com base no texto integral do decreto e nos mapas oficiais, se o perímetro específico da voçoroca está incluído entre as áreas abrangidas pela suspensão.
Em novembro de 2025, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad-GO) também teria apontado insuficiências relacionadas à drenagem nas proximidades da BR-040, solicitando ao município informações sobre o sistema de águas pluviais, a recuperação de nascentes e as medidas de contenção da erosão.
Esses registros reforçam a importância de esclarecer a situação ambiental da região e de garantir que as decisões sobre novos empreendimentos estejam amparadas por estudos técnicos e pelo cumprimento da legislação.
A reportagem solicita à Prefeitura de Valparaíso de Goiás esclarecimentos sobre as alterações no zoneamento urbano da região da voçoroca, às margens da BR-040, especialmente quanto à possibilidade de construção de edifícios de até oito pavimentos em uma área apontada como ambientalmente sensível.
Entre os questionamentos encaminhados ao município estão os critérios técnicos e legais que fundamentaram a eventual mudança de classificação da área, a existência de estudos de impacto ambiental, hidrológico e geotécnico, as medidas previstas para proteger nascentes e cursos naturais de água e as providências destinadas a prevenir o agravamento da erosão.
A reportagem também solicita cópias dos mapas de zoneamento de 2012 e 2018, da legislação que autorizou eventuais alterações e dos documentos relacionados ao licenciamento de empreendimentos no local.
Até o fechamento desta matéria, não havia sido incorporada uma resposta oficial da Prefeitura aos questionamentos apresentados. O espaço permanece aberto para manifestação do município, e eventuais esclarecimentos serão acrescentados ao conteúdo assim que forem recebidos.
Prefeito Marcus Vinícius (E), acompanhando os trabalhos de contenção da voçoroca
O prefeito Marcus Vinícius destacou a importância das obras de contenção da voçoroca para reduzir os riscos de avanço da erosão, proteger o meio ambiente e garantir mais segurança à população. Segundo ele, a gestão municipal acompanha as intervenções e trabalha para buscar soluções técnicas que contribuam para a estabilização da área e a prevenção de novos danos. “A contenção da voçoroca é uma preocupação importante da nossa gestão, porque envolve a segurança da população, a preservação ambiental e a proteção da infraestrutura urbana. As obras que estão sendo realizadas no local têm o objetivo de enfrentar o processo erosivo e reduzir os riscos, com intervenções voltadas à melhoria da drenagem e à estabilização da área. Estamos acompanhando os trabalhos e buscando soluções técnicas responsáveis para minimizar os impactos e evitar que o problema avance. Nosso compromisso é atuar com planejamento, responsabilidade e respeito ao meio ambiente”, afirmou o prefeito Marcus Vinícius.
A discussão sobre o futuro da região envolve o equilíbrio entre o desenvolvimento imobiliário e a proteção dos recursos naturais. Em áreas com nascentes, solos hidromórficos e processos erosivos, decisões sobre adensamento urbano precisam ser acompanhadas de planejamento, fiscalização e transparência.
A divulgação dos mapas, das normas aplicáveis e dos estudos que embasaram as decisões administrativas permitirá que moradores e órgãos de controle compreendam melhor os riscos existentes e as medidas previstas para proteger o meio ambiente e a segurança da população.



