Mulher de professor assassinado fez homenagem 1 dia antes de ser presa

Mãe afirmou que ajudou filha, autora confessa do crime em São Carlos (SP). Homicídio foi planejado há 3 meses motivado por dinheiro, afirma delegado.

Fabio Rodrigues
Do G1 São Carlos e Araraquara

Viúva postou homenagem ao marido morto um dia antes de ser presa (Foto: Reprodução/Facebook)

A mulher do professor de física encontrado carbonizado dentro de um veículo em São Carlos (SP) postou uma homenagem ao marido na rede social um dia antes de ser presa, na terça-feira (31). A viúva de 36 anos e a filha dela de 17 foram detidas por suspeita de terem planejado o crime e matado a vítima por motivo financeiro. Em depoimento, a adolescente afirmou que dopou e matou o padrasto com três facadas em casa, enquanto o irmão de 5 anos assistia à TV no quarto. A mãe dela negou o homicídio e disse que ajudou apenas a ocultar o cadáver.

Na segunda-feira (30), a viúva postou um vídeo às 13h40 no Facebook do marido. No arquivo de 6min58 há imagens do professor com o filho, e a música ‘Naquela Mesa’, interpretada nesta versão por Nelson Gonçalves. O arquivo foi removido da página. No dia 8 de maio, a mulher também postou uma figura com as frases “Luto...saudades eterna”.

Mãe e filha que, segundo a Polícia Civil não demonstraram arrependimento em nenhum momento, foram levadas para a Cadeia Feminina de Ribeirão Bonito. A viúva, que está presa temporariamente por 30 dias, será indiciada pelo crime de homicídio duplamente qualificado combinado com corrupção de menores e ocultação de cadáver. Se condenada, pode pegar de 12 a 30 anos de reclusão. Já a menor, detida por 45 dias, responderá por ato infracional pelos mesmos crimes e, se condenada, ficará na Fundação Casa no máximo até os 21 anos.

Dor de indignação
Uma segunda filha da viúva, que estuda em São Carlos, mas que não morava com a família também foi ouvida pela polícia na noite de terça-feira. Segundo o delegado delegado Gilberto de Aquino, da Delegacia de Investigações Gerias (DIG), a jovem não sabia do crime e era muito agradecida ao padrasto, que conseguiu uma bolsa de estudos para ela na cidade. Chocada, ela se demonstrou indignada com a situação. Ao deixar a delegacia, disse, chorando, que não estava em condições de se manifestar. "É um momento muito triste para mim, eu não tenho o que falar sobre isso."

Um dia após a morte do professor, a enteada postou uma mensagem de agradecimento. “Eu acordei hoje com uma notícia que eu esperava não receber tão cedo. Quem conhecia você, sabia do grande homem que você era. Um cara esforçado, trabalhador, todo mundo te queria bem. Aprendi com você o valor do estudo, o cara da física. No dia do físico uma perda irreparável. Eu espero, sinceramente, que obtenhamos respostas sobre isso o que aconteceu. Fica com Deus, Miltão!!! Obrigada por tudo o que fez por mim, por minha mãe e meus irmãos".

Nesta quarta-feira (1º), a jovem fez um post na página dela no Facebook afirmando que irá deletar o perfil. “Por motivos maiores e pessoais, comunico que irei dar um tempo das redes sociais. Peço que me mandem energias positivas. Espero compreensão por parte de todos nesse momento tão doloroso. Meu silêncio se faz necessário. Grata pela compreensão desde já”.

Enteada que não sabia do crime postou mensagem de agradecimento (Foto: Reprodução/Facebook)

'Um choque'
O irmão do professor assassinado, que mora no Rio de Janeiro, disse que soube da confissão do crime pelos noticiários. Em entrevista à EPTV, afiliada da Rede Globo, Moriharu Sonada Neto contou que nunca passou pela cabeça que a esposa e a enteada teriam assassinado seu irmão.

Segundo ele, o casal se conheceu em uma sala de bate-papo na internet há cerca de oito anos. Depois, começaram a namorar e casaram. "Não tínhamos um laço estreito, mas todas as vezes que precisei trocar mensagens com ela ou ir até lá fui bem tratado. Meu irmão nunca se queixou dela, nem falava sobre brigas. A enteada, eu tratava como sobrinha, foi um choque", disse.

O crime
Mãe e filha de 17 anos prestaram depoimento na
DIG e foram detidas (Foto: Fabio Rodrigues/G1)
Milton Taidi Sonoda, de 39 anos, foi assassinado no dia 18 do mês passado, por volta das 10h30. Ele era graduado e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos e lecionava na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em Uberaba (MG).

O delegado da DIG relatou que o professor foi dopado pela enteada antes de ser morto, pois estava meio desacordado quando foi golpeado três vezes na altura da barriga. Ele caiu no chão da sala e agonizou por dez minutos até morrer.

Após o homicídio, o delegado afirma que as mulheres doparam o filho do casal para que ele dormisse enquanto elas escondiam o corpo. Mãe e filha saíram para comprar uma pá e sacos plásticos. Ao voltarem, embalaram o corpo de Sonoda e prenderam com fita crepe. Manobraram o carro de ré na garagem e colocaram o professor no veículo.

Depois, seguiram até o km 148 da Rodovia Luís Augusto de Oliveira (SP-215), local onde o automóvel com o corpo de Sonoda dentro foi encontrado pelo Corpo de Bombeiros à noite, em chamas.

De acordo com o delegado, a adolescente relatou que a pá comprada serviu para ela abrir uma cova no local em que o veículo estava. Quando foram retirar o corpo do carro, entretanto, saiu muito sangue e o veículo ficou manchado. "Elas viram que ficariam vestígios, pois havia impressões digitais de ambas e, como a viúva é advogada e tem conhecimento jurídico, decidiram atear fogo no veiculo", disse o delegado.

Investigação foi comandada pelo delegado Gilberto de Aquino (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Reforma da casa e descontentamento
A investigação da DIG concluiu que mãe e filha planejavam a morte do professor há três meses. Sonoda tinha uma certa quantia em dinheiro que investia na reforma de uma casa em Uberaba, onde a família passaria a morar. "A mulher não queria se mudar, e a vítima estava gastando todo dinheiro, a reserva que eles tinham em caixa. Isso estava trazendo descontentamento", afirmou o delegado.

Para não ficar sem dinheiro, a mulher planejou a morte do marido. No dia do crime, a viúva contou à polícia que a vítima saiu atrás de um caminhoneiro para fazer a mudança. Afirmou ainda que, depois, o marido passaria na USP para se despedir de amigos e, por fim, iria comprar maconha para consumo próprio. "Ela deu três afirmativas que nós fomos checar e nenhuma delas estava batendo", disse o delegado.

Mãe incentivou filha
Vice-presidente da regional da OAB afirma que
ficou chocada (Foto: Fabio Rodrigues/G1)
Segundo o delegado, a mãe incentivava a filha e ambas discutiam como deveriam assassinar Sonoda, que viajava de Minas para São Carlospara ficar com a família. Por três vezes, a enteada pegou carona com padrasto em Ribeirão Preto, onde ela ia na casa do namorado. A intenção era matar o professor no caminho.

"Mas ela não teve coragem, porque a vítima passou a tratá-la bem e ela acabou se desencorajando e não efetuando o crime naqueles dias", disse Aquino.

A adolescente relatou em depoimento na presença do Conselho Tutelar que, após esses episódios, por diversas vezes ela colocou substâncias no suco do professor na tentativa de envenená-lo, o que não teve efeito. "A vítima teve alguns problemas, mas nada grave. Depois disso, elas planejaram que iriam esfaquear a vítima e mandaram afiar três facas para usar como instrumento do crime", relatou o delegado.

Ainda de acordo com Aquino, elas tentaram comprar um revólver calibre 38, mas não conseguiram. Fizeram ainda contato com o integrante de uma facção criminosa para que ele cometesse o homicídio, mas ele não aceitou.

Viúva negou que matou o marido, mas afirmou que ajudou a ocultar cadáver (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Execução
Quando Sonoda chegou de viagem na madrugada de sábado (14), estranhou os móveis da casa não estarem embalados e prontos para a mudança. Segundo o delegado, a mulher alegou que o caminhão estava atrasando tudo. Com isso, ela conseguiu enganar o marido até quarta-feira, quando ele foi executado.

Desde o crime, a mulher era a principal suspeita, afirmou Aquino. Segundo ele, tanto ela quanto a filha eram evasivas quando questionadas. A própria família da vítima, no dia em que foi fazer o reconhecimento do corpo, desconfiava da versão apresentava pela viúva.
A menor em nenhum momento demonstrou arrependimento e contou todos os detalhes"
Ariadne Leopoldino, vice-presidente da OAB

"Quando fui na casa e falei do carro queimado, a menina consolou a mãe de uma forma duvidosa. Eu nem tinha falado que havia encontrado um corpo dentro do carro. Então, aquilo já levantou uma grande suspeita em cima da menina", afirmou Aquino.

"Elas não demonstraram nenhum tipo de sentimento, nem arrependimento, nem mesmo no depoimento. A menina é totalmente fria, não expressa nenhum tipo de sentimento em relação ao padrasto", completou.

Corpo de professor foi encontrado carbonizado dentro de carro em São Carlos (Foto: Polícia Civil/ Divulgação)

Entenda o caso
No dia do crime, o Corpo de Bombeiros de São Carlos foi acionado para atender uma ocorrência de incêndio em veículo no km 148 da Rodovia Luís Augusto de Oliveira (SP-215), próximo da fábrica de motores da Volkswagen. Quando a equipe chegou, notou que havia um corpo carbonizado dentro do carro.

Por volta das 20h25, a Polícia Militar foi chamada e encontrou uma pá no porta-malas do veículo. Também descobriu que a 10 metros do local havia um buraco, aparentemente uma cova, no qual o corpo poderia ser enterrado.

Milton Taidi Sonoda, de 39 anos, foi esfaqueado
em São Carlos (Foto: Reprodução/ Facebook)
No início das investigações, a esposa afirmou em depoimento que Sonoda teria saído de casa para passar em alguns lugares, entre eles uma transportadora onde pagaria R$ 1 mil pela mudança que faria para Uberaba na quinta-feira (19), com ela e o filho de 5 anos.

Ainda segundo o delegado, o corpo estava no banco traseiro e a cova teria sido feita para enterrá-lo.

"Acreditamos que o professor já estava morto e queriam despachar o corpo na cova, mas deve ter acontecido alguma pane no carro, pois havia três marcas de pneus em direções diferentes", afirmou o delegado na ocasião.



Fonte - G1/São Carlos e Araraquara

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