Page Nav

HIDE

Últimas notícias:

latest

Publicidade

Desfile pró-Lula demonstra contradição do discurso oficial e aquece o debate sobre dois pesos e duas medidas eleitorais

Ato simbólico e autopromoção - Divulgação/ @emerson_pereira_vieira

Por Celso Alonso

A tentativa do governo de enquadrar como “manifestação cultural” o desfile carnavalesco que exaltou o presidente Luiz Inácio, na Marquês de Sapucaí, esbarra em um contraste incômodo com episódios recentes da política nacional. Para a oposição, o argumento oficial não se sustenta diante do rigor seletivo aplicado a atos simbólicos protagonizados por adversários do atual governo.

Parlamentares, juristas e demais figuras políticas afirmam que a homenagem a Luiz Inácio, realizada em espaço amplamente financiado com recursos públicos e em ano eleitoral, ultrapassou o campo artístico e assumiu contornos claros de promoção política. O incômodo aumenta quando se recorda que, em situação inversa, a interpretação das autoridades foi radicalmente diferente.

O paralelo mais citado é o ato cívico do 7 de Setembro, em homenagem aos 200 da República, realizado em 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na ocasião, cerca de um milhão de pessoas se reuniram na Praça dos Três Poderes para celebrar a data nacional. Não houve desfile temático exaltando a figura pessoal do presidente, nem uso de alegorias culturais financiadas pelo Estado. Ainda assim, partidos de esquerda e aliados do atual governo acionaram a Justiça, alegando que o evento configurava propaganda eleitoral antecipada.

Ato de autopromoção - Foto Estado de Minas

O entendimento acabou acolhido pelo Tribunal Superior Eleitoral, que considerou o ato cívico uma infração eleitoral, mesmo sem pedido explícito de votos ou enredo direcionado à promoção pessoal. A decisão resultou em punições severas e se tornou um marco na interpretação das regras eleitorais.

É justamente essa comparação que expõe a contradição atual. Para a oposição, se um evento patriótico, em data oficial do calendário nacional, foi tratado como crime eleitoral, torna-se incoerente classificar como simples expressão cultural um desfile carnavalesco que exaltou diretamente um presidente em exercício, com ampla repercussão midiática e forte carga simbólica.

Críticos do governo apontam que a flexibilização do discurso revela um padrão perigoso: rigor máximo para manifestações associadas à direita e complacência quando o beneficiado é o grupo político no poder. Segundo eles, a narrativa de que “não houve promoção pessoal” ignora o impacto eleitoral de uma homenagem televisionada nacionalmente, em ambiente festivo e financiado, ao menos em parte, com dinheiro público.

As 12 medidas judiciais anunciadas pela oposição buscam justamente provocar uma resposta institucional coerente. Mais do que questionar um desfile específico, o objetivo declarado é cobrar isonomia da Justiça Eleitoral e reafirmar que as regras do jogo democrático não podem variar conforme o personagem central do enredo.

Segundo o partido Novo, a estratégia jurídica contra o presidente Luiz Inácio não se limitará às denúncias já anunciadas para as próximas semanas. A legenda informou que pretende aguardar o eventual registro da candidatura do petista, então, protocolar um pedido formal de cassação e de declaração de inelegibilidade. A iniciativa terá como base os supostos crimes eleitorais que, na avaliação do partido, teriam sido cometidos durante o Carnaval, especialmente pela associação da imagem do presidente a um desfile realizado com recursos públicos, em contexto considerado de promoção pessoal e com potencial impacto direto no processo eleitoral.

Enquanto não há decisão judicial, o episódio reforça a percepção de que o debate não é apenas jurídico, mas político e moral: ou a lei vale para todos, ou o discurso de neutralidade institucional se dissolve ao ritmo do samba, pago, mais uma vez, pelo contribuinte.

Latest Articles