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Com Artemis II, teoria de que homem nunca pisou na Lua volta às redes; entenda por que isso é falso

Por Bernardo Costa

Se o homem foi à Lua pela primeira vez em 1969, por que só agora estão retornando para lá? E mais: por que não pousaram na Lua desta vez, se já saberiam como fazê-lo? Por que tanto tempo de preparação? Os questionamentos envolvendo a Artemis II dão base a diversas postagens nas redes sociais que, diante da atual missão da Nasa, voltam a pôr dúvidas sobre a primeira viagem lunar, feita há pouco mais de cinco décadas.

O Estadão Verifica encontrou no X (antigo Twitter) postagens com mais de 3 milhões de visualizações que duvidam da capacidade tecnológica para viagens à Lua e para a transmissão ao vivo das primeiras missões.

Mas vejamos os fatos. Em busca deles, o Estadão Verifica entrevistou o engenheiro espacial Lucas Fonseca, o doutor em astrofísica e cosmologia pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Marcelo Lapola e o professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) Ramachrisna Teixeira.Imagem de astronautas da Artemis II em estúdio com fundo verde foi criada com IA

O que é oprojeto Apollo?


Os primeiros homens a pisar na Lua foram os astronautas norte-americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin a bordo da missãoApollo 11. A aterrisagem em solo lunar se deu em 20 de julho de 1969. A meta de realizar um pouso tripulado na Lua e retornar à Terra foi estabelecida pelo então presidente John F. Kennedy oito anos antes, em 25 de maio de 1961.

O contexto era o da disputa com a então União Soviética na corrida espacial, uma demonstração de poder e prestígio em tempos de Guerra Fria. Como mostra o site da Nasa,foram diversas tentativas mal sucedidas de ambos os lados ao longo da década de 1960, até os EUA conquistarem o feito na Apollo 11.

Depois disso, outros outros nove astronautas pisaram na Lua nas missões subsequentes: Apollo 12, 14, 15, 16 e 17. Esta última em 1972. Na Apollo 13,uma explosão a bordo forçou a aeronave a orbitar a Lua sem pousar.

A missão Apollo 11 conseguiu o primeiro pouso tripulado na Lua, em 20 de julho de 1969. O comandante da missão, Neil Armstrong (1930-2012), foi o primeiro homem a caminhar sobre a Lua: “Um grande salto para a Humanidade”. Foto: NASA/Reprodução

Por que astronautas não retornaram mais à Lua?

Os especialistas ouvidos pelo Verifica explicam que, vencida a corrida espacial, não havia mais motivos para concentrar esforços em levar pessoas à Lua novamente, dado os altos custos financeiros e o risco da operação.

Lucas Fonseca, que é especialista em economia espacial, conta que na Apollo 11, por exemplo, o custo estimado da missão foi de cerca de 4% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) americano à época.

“As missões Apollo consumiam centenas de bilhões de dólares, pelo menos”, acrescentou Ramachrisna Teixeira.Por que todo mundo quer ir à Lua? Conheça os planos de China e Índia, ‘rivais’ dos EUA

Além disso, as missões Apollo foram perdendo o interesse midiático. “Elas estavam previstas até a 20, mas terminaram na 17”, disse Fonseca. “Vale lembrar que aGuerra do Vietnã
estava em andamento, e ela passou a ser o principal interesse do governo e da população naquele momento”.

O recado dos EUA para o mundo, segundo Marcelo Lapola, já havia sido dado: “Eles mostraram que, se conseguiram levar o homem à Lua em um foguete, conseguem lançar mísseis e atingir qualquer país do globo terrestre. A corrida também era bélica, e essa mensagem foi cumprida”.

No entanto, a exploração da Lua prosseguiu, mas com missões robóticas, lançadas por diferentes países. Outro aspecto foi a mudança de interesse na exploração espacial, que passou a se concentrar no desenvolvimento do ônibus espacial e da construção de uma estação espacial internacional. O objetivo passou a ser manter o homem no espaço por mais tempo.

Capa do Estadão sobre o pouso da missão Apollo 17 na Lua. Foto: estadao.com.br/acervo

Por que uma nova missão lunar agora?

Agora, com a missão Artemis, o contexto é de uma nova corrida espacial, tendo a China como a principal rival dos Estados Unidos.O programa Artemis foi lançado em 2017, no primeiro mandato do presidente americano, Donald Trump. O objetivo é estabelecer uma base de exploração na Lua, de onde possam partir missões para lugares ainda mais distantes e desconhecidos, como o planeta Marte.

À época, Trump deu a seguinte declaração:

Teixeira explica que o projeto é criar abrigos na Lua. “A proposta é criar uma base onde seres humanos poderão viver por muito mais tempo em abrigos, não no módulo de pouso”, explicou.

“Inicialmente, esses abrigos deverão ser infláveis, transportados da Terra. Mais para frente, poderão construir com material do próprio solo lunar, ou pelo menos usá-lo em parte”.

Estação espacial Tiangong, na China Foto: Foto: Alex Plavevski/ EFE


Em um primeiro momento, Fonseca explica que o objetivo da Artemis não era fazer uma base na Lua, mas sim montar uma estação espacial ao redor do satélite. O que mudou após oanúncio da China de mandar astronautas para a Lua até 2030
.


“A gente está vendo novamente uma disputa geopolítica muito clara, em que os Estados Unidos estão fazendo de tudo para montar uma base na Lua antes da China”, disse.


Por que a Artemis II não pousou na Lua?


No dia 6, a missãoArtemis II fez história
ao levar seres humanos ao ponto mais distante da Terra já alcançado. Ao atingir cerca de 406 mil km do planeta, a equipe da Nasa superou o recorde anterior de cerca de 400 mil km, estabelecido pela missão Apollo 13 na década de 1970.


Mas por que os astronautas não pousaram na Lua, se já saberiam como fazê-lo desde 1969? A explicação, segundo Fonseca, é que, desta vez, a Nasa busca desenvolver uma tecnologia mais barata e economicamente sustentável.Escudo de proteção térmica, ‘freio’ e paraquedas: saiba tudo sobre a volta dos astronautas da Nasa




“Tudo que está se vendo agora é uma tentativa de redução brutal dos custos para viabilizar essa estadia permanente na Lua”, explicou o engenheiro espacial.


Ele dá um exemplo prático: na Apollo 11, o foguete Saturno V, que levou a tripulação à Lua, era totalmente descartável. Nem mesmo a cápsula de comando, onde os astronautas voavam, era reaproveitada.




“O foguete era uma maravilha da engenharia espacial, construído com muito custo, mas era 100% jogado fora. Agora não, os veículos que serão inseridos nessa nova corrida espacial serão reaproveitados”, explicou.


Por tratar-se de uma nova tecnologia, uma série de testes deverão ser feitos até que haja o pouso na Lua,o que está previsto para acontecer na missão Artemis IV, em 2028
.







Vista da Lua da cápsula da missão Artemis II quando os astronautas alcançaram metade do caminho até o satélite. Foto: Reprodução/X/@NASAArtemis
Quais as evidências de que o homem pisou na Lua?


As provas de que o homem realmente pisou na Lua nas missões Apollo não são poucas. Abaixo, algumas delas:
As rochas trazidas da Lua e o que elas mostram


Durante as seis excursões do programa Apollo que pousaram na Lua, de 1969 a 1972,os astronautas coletaram 2.196 amostras de rochas e solo
. Lapola explica que diversos estudos feitos por pesquisadores de diferentes países,inclusive da antiga União Soviética
, analisaram o material e constaram que, de fato, são rochas lunares.




Isso porque identificaram no material registros, que o astrofísico chama de “assinaturas”, do impacto de radiações e ventos solares aos quais o planeta Terra não está submetido.


“Por não ter atmosfera, a Lua fica sujeita a um bombardeio de radiação enorme. Já a atmosfera da Terra protege o planeta dessa radiação”, explicou Lapola. “Então, essas rochas lunares contêm as assinaturas da incidência dessas radiações. As rochas da Terra não têm isso”.Conheça o astronauta da Artemis II que cria as filhas sozinho: ‘elas são tudo para mim’




A partir dessas evidências de radiação, prossegue Lapola, é possível avaliar a idade das rochas. Segundo ele explica, as datações batem com a teoria científica de formação da Lua, que remonta à origem do sistema solar como um todo, há cerca de 4,2 bilhões de anos.
Os vestígios das missões Apollo


Em 2008, a Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (Jaxa)divulgou em um comunicado oficial
ter registrado um vestígio deixado pelo pouso da Apollo 15 na Lua. O comunicado destacou que “este é o primeiro relato mundial da detecção do ‘halo’ por meio de observações após o término do programa Apollo”.




Lapola explica que o halo é uma área circular mais clara ao redor do local de pouso, causada pela alteração das propriedades do solo da Lua durante a descida do módulo lunar.


“Não seria mais interessante para qualquer país desmascarar uma suposta farsa americana?”, questionou o astrofísico. ”'Olha, fomos lá ao local que dizem ter pousado e não encontramos nada’. Mas não é isso que acontece".


Mais tarde, após o lançamento da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, da Nasa, em 2009,foram capturadas
imagens que mostram equipamento do módulo lunar da Apollo 15 deixado na Lua.







Vista do veículo lunar Apollo 15 (LRV) em seu ponto de estacionamento final capturada pela Lunar Reconnaissance Orbiter Foto: Reprodução/Site da Lunar Reconnaissance Orbiter/https://lroc.im-ldi.com/images/1198
A instalação de espelhos refletores


Ramachrisna Teixeira destaca um outro fato:os retrorefletores deixados na Lua pelas missões Apollo
são utilizados até hoje por cientistas do mundo todo para medir com precisão a distância da Lua da Terra.


“A partir desses ‘espelhos’ deixados no solo da Lua, pesquisadores realizam ainda estudos dinâmicos de forma mais realística e com mais propriedade, mapeiam e compreendem melhor o campo gravitacional tão intenso entre a Terra e a Lua e testam previsões da Teoria da Relatividade Geral de Einstein”, explicou o professor.


O reconhecimento da União Soviética à época


Outro fator é o próprio reconhecimento de autoridades da antiga União Soviética após o primeiro pouso na Lua realizado em 1969 pela Apollo 11. Há registro, por exemplo,de um telegrama enviado
pelo presidente soviético Nikolay V. Podgorny ao presidente americano Nixon dando “nossos parabéns e votos de sucesso aos pilotos espaciais”.


Já na edição de 24 de julho de 1969, o Estadão registrou uma manifestação do cientista soviético Leonid Sedov, que saudou o feito dos americanos com as seguintes palavras: “Os primeiros passos do homem na superfície da Lua serão inscritos nos anais do século XX como um acontecimento maravilhoso”.


E acrescentou: “O povo soviético, juntamente com os demais povos, felicitam e congratulam-se com a tripulação desse notável e significativo voo que abriu novas perspectivas para a ciência”.







Cientista soviético exalta missão lunar americana Foto: Acervo Estadão

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