Medida adotada pelo governo de Donald Trump após articulação de Flávio Bolsonaro provoca irritação no Planalto e amplia desgaste do governo brasileiro
Por Celso Alonso
BRASÍLIA, 28/05/2026 - A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou forte desconforto dentro do Palácio do Planalto e expôs mais uma divergência entre Brasília e Washington. A medida anunciada nesta quinta-feira (28) ganhou ainda mais peso político por ter ocorrido logo após a atuação direta do senador Flávio Bolsonaro junto à Casa Branca para defender o enquadramento das facções brasileiras como grupos terroristas.
De acordo com interlocutores ligados ao parlamentar, Flávio Bolsonaro levou pessoalmente o tema às autoridades americanas durante reunião nos Estados Unidos com o secretário de Estado, Marco Rubio. O senador teria solicitado apoio do governo americano para endurecer o tratamento internacional dado ao PCC e ao CV, argumentando que as facções já atuam como organizações transnacionais altamente violentas e ligadas ao narcotráfico internacional.
O anúncio do Departamento de Estado veio apenas um dia depois do encontro, fortalecendo a percepção de que houve influência direta da articulação política feita por Flávio Bolsonaro junto ao governo de Donald Trump.
Enquanto Washington endurece o discurso contra o crime organizado na América Latina, integrantes do governo Lula passaram a criticar a decisão e demonstraram preocupação com uma possível ampliação da influência dos EUA sobre questões de segurança pública no Brasil.
No Palácio do Planalto, auxiliares do presidente avaliam que a classificação abre margem para ações mais duras por parte dos americanos, incluindo sanções financeiras, cooperação policial ampliada e até pressões diplomáticas sobre o Brasil. A reação negativa do governo, entretanto, passou a ser alvo de críticas da oposição e de especialistas em segurança pública, que enxergam excesso de preocupação política diante da escalada do poder das facções criminosas.
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, afirmou que o governo é “terminantemente contra” a equiparação entre facções criminosas e terrorismo. Segundo ela, a classificação poderia abrir margem para intervenções estrangeiras em território brasileiro.
A declaração repercutiu negativamente em Brasília, que considera contraditória a resistência do Planalto justamente em um momento em que PCC e CV expandem operações internacionais de tráfico, lavagem de dinheiro e armas. A postura do governo Lula transmite receio político diante de uma medida que endurece o combate às facções.
O endurecimento americano faz parte da política de segurança adotada por Donald Trump desde o retorno à Casa Branca. O republicano vem tratando o narcotráfico e o crime organizado latino-americano como ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos e já ampliou operações contra cartéis na América Latina.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a classificação permitirá aos EUA ampliar mecanismos de repressão financeira, congelar ativos ligados às facções e intensificar o compartilhamento de inteligência e cooperação policial internacional.
Apesar disso, integrantes do governo brasileiro insistem na diferenciação entre terrorismo e crime organizado. Pela legislação brasileira, atos terroristas possuem motivação política, ideológica ou religiosa, enquanto facções criminosas atuam principalmente com finalidade financeira. Já a legislação americana adota interpretação mais ampla e permite enquadrar grupos ligados ao narcotráfico como ameaça terrorista.
Críticos do governo brasileiro afirmam que a reação contrária do Planalto acaba reforçando uma imagem de complacência diante do avanço das organizações criminosas. Para esses setores, o foco deveria estar no fortalecimento do combate ao PCC e ao CV, e não no desconforto político provocado pela atuação dos Estados Unidos após a articulação liderada por Flávio Bolsonaro.
