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VIOLÊNCIA EM NOVO GAMA - Mortes banais levam medo a moradores da região

Assassinatos são corriqueiros no Novo Gama, palco de um duplo homicídio na noite de quinta-feira. Somente nos últimos 10 dias, oito pessoas foram mortas no município. População teme falar sobre o assunto e vive amedrontada ao sair às ruas.


Local dos assassinatos de um jovem de 19 anos e de um garoto de 13, na quinta-feira: ambos tinham envolvimento com crimes

“Morrer é de boa, estranho mesmo é esse tanto de jornalista aqui no Pedregal.” A afirmação é de um menino aparentando 13 ou 14 anos. Foi assim que ele se expressou ao ser questionado pela reportagem do Correio sobre como se sentia ao ver um duplo homicídio em frente ao local onde mora, na Quadra 23 do Vale do Pedregal, bairro do Novo Gama (GO), localizado a 40 km de Brasília. A banalização da morte dos amigos deve-se à frequência com que a população ouve tiroteios, vê conhecidos assassinados e é ameaçada por traficantes. Somente nos últimos 10 dias, oito pessoas foram mortas no município. Todas tinham envolvimento direto ou indireto com as drogas.
A lei do silêncio é seguida à risca no local. As pessoas têm medo de falar e, após um determinado horário, de sair às ruas. De acordo com a delegada adjunta do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) do Novo Gama, Karina Duarte Rocha, esse é um dos fatores que atrapalha as investigações. “Pelos relatos de parentes, percebemos na hora que há droga envolvida nesses últimos casos. Porém, ninguém quer testemunhar, eles têm medo. Muitas vezes, as pessoas sabem a autoria do crime, mas preferem ficar caladas”, contou. Para ela, tal atitude gera a impunidade e a indignação que resulta em outro crime. “Eles querem fazer Justiça com as próprias mãos. Nosso efetivo já é pequeno. Se a população vê que a polícia não resolve os casos, ela tenta fazer isso por meios próprios. Isso só aumenta a violência”, complementou a delegada.
Esse ciclo vicioso de acerto de contas pode ter sido uma das causas das mortes de Bruno Henrique de Assis Ferreira, 19 anos, e de um menino de 13, na noite da última quinta-feira. Por volta das 20h30, eles jogavam futebol com um grupo de cinco amigos, na Quadra 23, quando dois homens com capuzes chegaram atirando. As balas eram destinadas somente aos dois jovens, que correram para não ser atingidos. Mas não teve jeito. Segundo relatos de moradores, Bruno teria sido alvejado por 16 disparos. Ele foi ao chão logo nos primeiros, mas, depois, um dos homens continuou a disparar contra o rapaz. A segunda vítima fugia pela arquibancada quando uma bala acertou a nuca, outra, as costas e a terceira, a barriga. Os dois morreram na hora.
Não saio à noite. Quando meus filhos querem se divertir, pegam o carro e vão para Brasília. Nem em uma pizzaria estamos seguros aqui” Mércia*, 51 anos, moradora do Vale do Pedregal.
O irmão de um deles, de 12 anos, assistiu a toda a movimentação. “Vi meu irmão morrer, tentei correr para ajudar, mas não consegui”, lamentou. No Ciops, mesmo com a pouca idade, os dois garotos assassinados acumulam atos infracionais. O de 19 anos era foragido da Justiça. Em outubro do ano passado, ele foi preso em Águas Lindas por tentativa de homicídio, mas conseguiu fugir do presídio. Com apenas 13 anos, a outra vítima tinha passado pela delegacia havia duas semanas por envolvimento com drogas. “Era um crime anunciado. Vamos investigar uma possível vingança”, afirmou a delegada Karina Duarte Rocha.
Lei do silêncio

Na tarde de ontem, ainda era possível ver as marcas de sangue na quadra de esportes. Os moradores estavam com medo de falar. Muitos se escondiam em casa e outros encaravam com cara feia a reportagem. Os que decidiram contar o que aconteceu não quiseram se identificar. “Conheço a família do mais jovem. São três irmãos. Desde pequenos, eles cometem delitos. Esse mesmo roubava frutas da casa dos vizinhos, vivia aprontando e usando drogas”, relatou Paula*, moradora do local. Na noite do crime, ela se assustou com os disparos na quadra de esportes e foi ver o que aconteceu. “Eram muitos tiros. Tenho dois filhos e temo pela segurança deles”, lamentou.
Por volta das 16h, a mãe do menino de 13 anos estava em Luziânia resolvendo os trâmites do enterro. Na Quadra 17, amigos e familiares de Bruno velavam o corpo em uma casa com os dizeres na porta: “Família em luto”. Segundo moradores, uma das motivações para o crime seria o fato de Bruno ter tentado matar um rapaz “da rua de baixo”.
Com tantas mortes, as notícias se espalharam por toda a cidade. Nas ruas, as pessoas confessavam ter adotado medidas de precaução para conviver com a situação. “Não saio à noite. Quando meus filhos querem se divertir, pegam o carro e vão para Brasília. Nem em uma pizzaria estamos seguros aqui”, contou Mércia*, 51 anos.
Com uma ação concentrada no Entorno do DF desde o fim de abril, a Força Nacional de Segurança (FNS) ronda cinco municípios goianos: Valparaíso, Cidade Ocidental, Luziânia, Águas Lindas e Novo Gama, considerados os mais violentos da região. Em agosto, uma redução de 27% dos crimes foi registrada. Somente o Novo Gama contrariou as estatísticas. Lá, os homicídios aumentaram. “Esta é uma medida paliativa. É necessário investir em políticas públicas para o Entorno. Só assim conseguiremos mudar os índices. Diante do aumento de casos, vou solicitar que a segurança seja reforçada nessa região”, disse o chefe do Gabinete de Gestão de Segurança Pública do Entorno, coronel Edson Costa Araújo.(*Nome fictício)

Executados em Águas Lindas

Na manhã de ontem, outro crime deixou duas pessoas mortas em Águas Lindas (GO). Por volta das 9h, os corpos de José André Santos de Oliveira e Anderson Jhonathan Dias Araújo, ambos de 19 anos, foram encontrados baleados no Setor de Mansões Itamaracá, na estrada que leva a Brazlândia. De acordo com informações divulgadas pela Delegacia de Águas Lindas, a dupla já tinha passagem na polícia por furto. Os corpos foram levados ao Instituto de Medicina Legal de Luziânia.

Memória

20 de setembro
» Por volta das 16h, Jaelson Miranda de Sousa, 20 anos, e o irmão de 16 se encontraram no colégio Caic, localizado no Pedregal, para fumar maconha. Eles estavam sentados próximos ao muro da instituição de ensino quando um homem atirou duas vezes contra Jaelson. O irmão chamou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas o rapaz morreu no local. Suspeita-se de acerto de contas.

23 de setembro
» Um rapaz de 16 anos foi assassinado na frente de casa, às 11h. Conhecidos da vítima foram até o bairro Parque Estrela Dalva VI, no Novo Gama, onde o adolescente morava, e o chamaram no portão. Quando ele atendeu, foi surpreendido com tiros e morreu no local. Moradores relataram que o jovem era procurado pela polícia por roubar motos e por traficar drogas.

28 de setembro
Uma mulher foi morta pelo companheiro na frente dos filhos de 8 e 6 anos. Damiana Moraes Silva, 50 anos, costumava esconder armas e produtos de crimes do marido em casa. No dia que em ela se recusou e pediu o fim do relacionamento, foi atingida com um tiro na cabeça dentro da própria casa, no Jardim Lago Azul, município do Novo Gama.

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